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sexta-feira, dezembro 30, 2011

O amor, esse lugar efémero


Não sei porque escolhi um barco no meio do Tejo, entre a lezíria e a cidade,  para escrever sobre o amor. Talvez seja porque, e não sei se em desacordo ideológico com muito do que sobre o amor é comum partilharmos uns com os outros, ele, sendo construído sobre um sentimento, é, tal como a arte, uma experiência onde essa identidade mutante, mutável, que habita em cada um de nós durante aquilo a que chamamos o tempo das nossas vidas, é sempre o ponto de partida e de chegada. Sendo o amor um lento trabalho de depuração, ele será sempre injusto para com as suas histórias pretéritas, já que é no presente e no futuro que ele há-de projectar corrigir os erros, as omissões, e as acções cometidas no passado. Poderá parecer isto ingrato, cruel até, no entanto também é a forma de sabermos que o amor verdadeiro não é mais do que uma busca sempre em movimento de devir.

sábado, agosto 07, 2010

Eu, outra vez, agora cansado da ideologia

Todos os anos por esta altura, abeiro-me de mim. O Verão, as férias, o termos um pouco de tempo para olharmos para nós, para o que fazemos, para o que desejamos e sonhamos, quase que torna inevitável a tarefa introspectiva. Fiz uma caipirinha, através da janela vejo os barcos no rio, deito-me a tirar à sorte, a adivinhar quem sou. Navego à vista tal como as embarcações ali ao fundo. Não tenho palavras redondas nem conversa para entreter bisontes na pradaria. Nem me apetece derreter o meu ânimo, o meu entusiamo - ou, como me dizia o meu padrinho para me testar, para saber se poderia falar à homem comigo, "aquela força que nos vem lá do fundo dos tomates" - num fatalismo de merda. A vida é existência pura e crua. A felicidade e a infelicidade são variantes de uma ideologia que agora desprezo. Não querem dizer nada para além do comércio ideológico que celebram. A alegria, a tristeza, a própria melancolia, talvez não, talvez não sejam apenas isso, talvem consigam sobreviver ao discurso-sobre-todas-as-coisas-vivas e ser energia, a nossa energia. Tudo o que consegue escapar à ideologia, à morte de mundo que a linguagem é, pode ainda valer a pena. A violência por exemplo. Deveremos falar de novo na violência. Construímos cidades armadilhadas pela violência contida. O corpo policial não me sossega. Ou só me sossega enquanto não nos bater à porta e não nos disser que aquela porra do vinte e cinco de abril era uma fábula para entreter meninos. Estou cada vez mais violento por dentro. Não falo do terrorismo. Não me é indiferente que o mundo esteja cada vez mais repleto de filhos da puta a comerem-se uns aos outros, a comerem as ideias que sempre fui acalentando na cabeça de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária. Mas não sou deus nem tenho alguma pretensão de fazer que sou. O meu único acto verdadeiramente terrorista é escrever, pensar. Deus, se for esse ser tão misericordioso e justo que os crentes adoram, quando os chamar à sua presença tratará do assunto. O terrorismo é mais do mesmo. Se nem aos vinte anos tive alguma sedução intelectual por ele, não seria agora, quase aos cinquenta, que iria achar-lhe alguma inteligência no gesto, no porte. E não será a promiscuidade entre a moralidade, a política e a mentalidade que me farão alterar essa posição. Viro a minha violência do avesso. Olharmo-nos ao espelho, no reflexo da calçada e percebermos o ser-em-acção-de-transformação que é aquele que se olha, se recria, se inventa no olhar de um outro, a quem, no delírio implosivo deste gesto de mudar-se, chama amante - ou aquele que ama, aquele que é amado - é de uma violência inaudita. Estou cada vez mais violento por dentro. Contra mim. Por vezes já nem me reconheço. E não é uma questão de peso, de barriga, de todas aquelas marcas da idade que nos indispoêm com o espelho. É outra coisa. É o mudar. Há um repente de serenidade, de tranquilidade e esse repente vai-se instalando, sorrateiro. Foi-se a revolta, o instalar na relação com a outra pessoa o sistema de dominação, subordinação. Com quarenta e oito anos não conheci nenhuma casa que não tivesse, para além de janelas, uma porta da rua. A arquitectura das relações, dos afectos, é cada vez mais a ciência de uma liberdade constituida pelo levantamento identitário. O que nos faz permanecer é a vontade e a vontade ilumina-se com a forma como aceitamos esta violência de nos transformarmos para, como se construíssemos um ninho, acolhermos o outro dentro de nós. Nós, os homens, tendo a tendência para pensar a nossa existência psíquica a partir da nossa morfologia, da nossa fisicalidade, não estamos muitas vezes preparados para a ideia de acolhermos dentro de nós. Todo o espectáculo masculino, as manifestações, os fenómenos, é virado para a exterioridade, para a protuberância, e a exuberância, do falo erecto. Se um homem diz entra dentro de mim, parece um jogo de linguagem. É por isso que a acção transformadora de um homem ou de uma mulher no ninho um do outro é tão violenta. A aventura humana, e a experiência construiram-se no mito da perda de identidade. Temos medo de nos perdermos, de nos despersonalizarmos. O amor é o culminar de toda a violência do mundo.

sexta-feira, abril 09, 2010

Trair o nosso amor

Eu tenho ciúmes dela. Nunca o admitirei, faz parte do jogo, não o admitir. Gosto de deixar no ar essa ideia de que eles poderão ter a ver com alguma leviandade sua. Mas nessa antecâmara introspectiva onde estou só comigo mesmo, já nem o discuto. Aceito os ciúmes próprios como se fosse uma doença do amor, e ela tem associado um quadro patológico de manifestações muito diversificadas. Quando sinto ciúmes, a única coisa que me sossega não é tanto a escarificação da situação que me levou à insegurança ciumenta, é o lembrar-me de como os ciúmes dela são injustificados. Se estou feliz com a pessoa que amo, o mundo tem a tendência a perder a sua sexualidade. E se isto sendo verdade aos vinte e poucos conflituava muitas vezes com outras questões, agora pode ser vivido com um maior radicalismo. E não será uma questão de perguiça, de comodismo. Os axiomas vão e vêm na nossa vida, transformam-se. Aos vinte, aos trinta, eu repetia o aforismo que anda de boca em boca, a fidelidade é para os cães, a lealdade é para as pessoas. Agora, aos quarenta e muitos, esse aforismo começa a ser um pouco ridículo. Vejo-me a olhar a fidelidade como nunca a vi. É como se fosse uma questão de atenção, de focalização. É uma forma diferente de entendermos o tempo que está em causa, não uma verdadeira ruptura axiológica. Há tanto a distrair-nos da entrega, do possuirmo-nos na dádiva, do vaivém que é irmos e virmos naquela entidade que come à nossa mesa, que dorme na nossa cama, que se passeia connosco de mão dada na noite do bairro, que perdermos algum do nosso tempo em jogos exteriores de sedução, nos parece um desperdício do que é o privilégio essencial de estar por aqui nos dias da rua, do bairro, do mundo. O que muda a posição de cada um em relação à vida, como há quase quinhentos anos o heliocentrismo mudou a nossa atitude geocêntrica, é a forma como nos colocamos em relação à possibilidade do nosso desaparecimento. Há uma altura nos dias da nossa vida em que percebemos que aquela sofreguidão de coleccionar amores como se isso, por si só, pudesse enriquecer a nossa vida, torná-la mais aventurosa, é um tremendo desperdício daquele profundo corte existencial que um amor pode ser. É um ficar sempre a rebolar na epiderme do que um corpo-a-corpo pode consubstanciar. O amor é uma construção ideológica tremenda que partilhamos uns com os outros, e, como toda a ideologia que nos une, tem uma parte fraudulenta, e tem outra parte que vai directamente ao que de mais verdadeiro e essencial tem a experiência humana. Quando apagamos a luz do quarto e nos agarramos à pele do outro, não é a epiderme sensível que agarramos, que apertamos contra a nossa própria pele, e também não é contra a nossa própria pele que a cingimos. É uma coisa simultâneamente mais pequena e maior do que nós, do que aqueles corpos estendidos, uma luminosidade que rebenta com a nossa contingência. Não sabermos explicá-lo não nos deve amedrontar. Deveremos preocuparmos apenas se não o conseguirmos sentir. No entanto, sobrevive um problema: não foi por capricho que inventámos a traição, foi por condicionalismo ontológico, e - Arno Gruen terá sempre a razão dos nossos espíritos apoquentados pela dúvida e pela angústia - não há amor, nem nada, que sobreviva à traição do eu. Trata-se de um problema sério que nenhuma idade resolve. As nossas vidas são como as nossas casas, cheias de truques, de engenhocas, de artesanias. É por isso que arranjei um pequeno estratagema para sobreviver ao dilema: quando começo a precisar de encontrar uma outra mulher, olho-a como se fosse a primeira vez que a visse. E traio-a, intensamente traio-a com a primeira mulher que nela, me aparece.

quarta-feira, março 17, 2010

O espaço das coisas

Ela fala assim das minhas tralhas. Apetece-me barafustar, dizer que eu não sou assim. Manobra de diversão pura. Um escritório para mim não é uma divisão. É uma caixa. Com estantes e muitas caixas dentro. Julguei há uns dois anos que ao comprar uma data de caixas para arrumar as coisas, estava a arrumar as coisas. Não estava. Estava a metê-las em caixas e depois a estas metia-as numa caixa maior. Mas há sempre coisas que ficam fora das caixas. Eu podia dizer que o tempo me ensinou que não valia a pena andar a transportar lixo de umas casas para outras. O tempo e muitas mudanças de casa. Mas a verdade é que ainda não consigo olhar para as coisas no mesmo momento que ela. Quando olho para as minhas caixas, as minhas tralhas, os meus caixotes, vejo o que eu era há uns anos e claro que estou diante de um universo que tende para a organização e a simplificação. Quando ela olha para o escritório, olha para a sua casa anterior de estremece diante de um mundo que se aproxima a passos largos da entropia. Apaixonei-me por uma virginiana pura e agora percebo que o difícil é colocarmo-nos no ponto de vista do outro. O escritório está organizado atrás, aos lados de mim mas eu estou apenas com este écran e ele branco, alvo, limpo, as letras alinhadas em frases, linhas, tudo me parece geometricamente equilibrado. Este fim de semana vai ser de arregaçar as mangas.

sábado, julho 11, 2009

manhã fresca

Levantei-me o mais cuidadosamente que pude na escuridão do quarto. Velo o seu sono matinal como me predisponho a velar a sua vida. Como se fosse minha. Há vezes em que me revejo assim: na exaltação dos sentimentos-carne. A minha pele está macia. Ainda respira nela a bem-aventurança dos óleos da massagem de ontem. Exaltação dos spas também. Saímos os dois com a pele macia, fresca, em festa, ela ainda ouviu um piropo da massagista, a sua pele parece a de uma menina. A minha menina. Sento-me aqui no pátio à sua espera, velando-a. Vai ser sempre assim.

terça-feira, junho 16, 2009

Guerra dos Roses

Os nossos sentimentos, a nossa educação sentimental. Há aqui uma mentira e simultaneamente a única verdade que interessa. Eu pensava que o amor era o lugar supremo da existência de um ser humano. Começo desde já a atrapalhar-me com as palavras: eu não pensava, eu fui levado a pensar, eu fui rodeado de uma retórica discursiva de exaltação do amor enquanto lugar humano. Tarde - mas não demasiado tarde, meu amor - aprendi que isso é mentira. Ou melhor, que isso pouca falta faz à verdade. Amamos muito até chegarmos a esta evidência sentimental: o lugar mais perfeito entre dois seres é a combinação, a equação quimica que permite que de dois se gere um novo elemento, já nem um nem o outro, um novo. Não é uma transformação fácil nem é como ir ali à marquesa da cirugia estética/reconstituitiva. Dói muito por vezes. E embora, teoricamente, seja uma operação reversível, com a mesma dor -e a mesma festa - com que se fez também poderá desfazer-se (em teoria, na prática há muitos casos em que a única saída é a destruição mutua), também possibilita iluminar os sujeitos individuais sobre aquilo que pensavam que era a sua identidade essencial e que afinal não passava de acessória, de espuma dos dias cristalizada.

quarta-feira, abril 15, 2009

O amor é o contrário de estar morto

Há muitos dias que ando para escrever sobre o amor que sinto por ti.
Estaco sempre o passo, a mão. A própria pena, é como se a
minha mão se transmutasse, transfigurasse e lhe nascesse nas extremidades
um bico de pato.
Como se de repente o amor fosse coisa antiquíssima.

Tu saberás o que dizem estes sinais
que me deixam radiante outra vez,
e outra vez,
e ainda outra vez.
E nos dias que ando para escrever o amor que sinto por ti,
as minhas noites fazem-se de vigília.
Acontece acordar apenas para te olhar,
e nesse olhar haver um gesto,
um sussurro,
um apelo,
para que não morras,
para que não morras nunca,
para que fiquemos sempre os dois,
tanto na morte como na vida,
um diante do outro.
E pela noite escurada
no teu rosto revejo a minha face,
a minha vida,
como se ele fosse um espelho,
onde prevejo o futuro que já não tenho,
uma caixa onde está a minha vida,
toda a minha vida,
a que já foi, a que virá.
E antes que me perguntes
pelo meu silêncio,
nos dias que ando para escrever o amor que sinto por ti,
é o medo da vulgaridade que me sustém
como se eu não pudesse mais pensar no amor sem sentir a cobra, um fogo entre
as pernas. Na forma como tu és para mim e dentro de mim.
Pensei apenas naquele sabor doce com que mordisco e
mastigo
uma e outra e outra e outra e ainda outras milhares de vezes,
o pequeno grão que exuberantemente se constitui alimento do meu próprio corpo,
da minha própria vida.

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e
e
e
e

[depois de responder a um quiz sobre que companhia de teatro és tu (artistas unidos, voilá Jorge!) em que sobre o amor a opção irrecusável era, " o amor é o contrário de estar morto"]

quinta-feira, outubro 23, 2008

Paradoxo sem título

Afasto-me de ti e apercebo-me, é de ti que me aproximo. É assim que é e à força de achar natural o que é quando estamos juntos, é também assim que eu quero. Quero o que é, o que em mim, ansioso, egocêntrico, dominador dissimulado, é inusitado. Aprecio os paradoxos quando estou à tua beira. Gosto de todos os paradoxos quando estou perto de ti mas especialmente de entrar fisicamente dentro de ti e dar-me conta que a voz que tenho exclama, entra dentro de mim. Ao princípio pensava que era uma partida do género, era eu meio homem, meio mulher, meio bicho. Depois fui-me habituando ao fenómeno, aos fenómenos: era mesmo a sensação de que me rasgavas a pele de dentro. Estás dentro de mim há muitos séculos.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O meu 4 de Setembro!

Assumo o maior sentimentalismo neste post. Nascemos no mesmo sítio com intervalo de meses. Ela veio primeiro. Descendente dos tupi guarani decerto fez uma macumba para me enfeitiçar naquele intervalo de nada que foi o tempo que passou entre o dia em que nasci até àquele pé de dança na rua de são julião. No peito de um enfeitiçado também bate um coração (feliz).

quinta-feira, julho 24, 2008

Conversa (ainda) de olhos fechados

Ainda não é dia. Já não é noite. Sabemos que vem aí um novo levantar. Um novo fincar os pés no chão. Um novo não perceber, ir percebendo, até que, exaustos, ao cair da noite, os corpos rebentam do excesso de compreensão, de amor, de sexo. Serão sempre assim as nossas vidas. Por isso aquela ronha matinal. O falar dos sonhos.
- Tive dois sonhos estranhíssimos.
É sempre assim. Para uma coisa a sério, uma brincadeira. Não consigo evitar.
- Estranhíssimos.
Ela levanta a protecção dos olhos. Sinto-o. Olha para mim e vê que estou de olhos fechados. Fecha também os dela. Sinto-o. Conto-lhe o primeiro sonho. Adiante. É uma intimidade de casal. É uma peta para que o dia acorde a sorrir.
- E o outro sonho?
- Sonhei que ía num carro com o Luís a conduzir, eu ía ao lado, atrás ía a Cláudia, a Anabela e o Telmo. A certa altura a Cláudia, que estava no banco atrás de mim, dá-me a mão, faz-me uma festa na cabeça, eu agarro a mão dela, começo a chorar, depois o Luís desata a chorar também, um choro forte, nunca tinha visto um homem a chorar assim, a Anabela também, a certa altura a Elena passa num carocha ao nosso lado, está com um penteado parisiense, meio basco mas enfim, parisiense, olha-nos, percebe porque é que estamos a chorar, sorri, acelera, e de repente o nosso choro transforma-se em riso, um riso franco, o riso do Luís continua a ser o mais forte, o mais bonito, e depois olho para ele, olho para trás, e já só estava o Telmo e a Anabela, a Cláudia tinha desaparecido.
- É curioso....
- O quê?
- Eu também sonhei contigo e que a certa altura tu estavas a chorar abraçado a uma pessoa. E que depois saía de ti uma grande calma, uma espécie de luz.
Abro os olhos. A luz que entra no quarto dá-lhe uma paz imensa. Não sei que horas são, estou-me ralando.
- Quando dormimos com uma pessoa às vezes entramos dentro dos seus sonhos.- disse-me.

sexta-feira, julho 04, 2008

O meu par na roda inteira

Oito meses depois, mais dia menos dia, pareces-me cada vez mais um miúda, uma gaiata, a rapariga de uma vida que eu não sabia ser possível. E eu a olhar-te, na eternuridade de um começo sempre a começar, todos os dias.

domingo, junho 29, 2008

Sobre o amor

"No final, ela atirou-lhe um beijo com a mão e fechou os olhos, porque os beijos dos apaixonados parece que sabem melhor com os olhos fechados. Depois do beijo, exclamou um "meu amor" tão intenso que eu ia jurar que eles tinham 20 anos."
Aqui, SMS sobre Maria Barroso e Mário Soares.

sexta-feira, maio 30, 2008

Na horta do senhor Joaquim

Há dias em que o amor não me cabe no peito. Olho-a quando acordo e se ela dorme ainda, há no seu toque alguma coisa de sonâmbulo que me procura. Eu fico a mirá-la com o mesmo aconchego com que de manhã salto da cama e vou até à horta ver se as minhas alfaces estão mais crescidas. Se é ela que me desperta, o sonâmbulo sou eu: retribuo com todos os disparates que me chegam à cachimónia. Por acaso há sete meses que assim é. Sete meses, sete vidas.
O amor é felino.

segunda-feira, outubro 01, 2007

O jardineiro que tinha uma obsessão por amores perfeitos

Uma vez a sua avó Matilde tinha-lhe dito que ele poderia perder de vista todos os amores-perfeitos que encontrasse pela vida fora, que nada disso o iria indispor com o amor. Aliás, tinha-o dito de outra forma, ele lembrava-se da articulação exacta das palavras, do que elas significavam:
- Aprende a desembaraçar-te dos amores-perfeitos. Admira-os, rega-os, vela-os, mas não te prendas excessivamente a eles. Uns vêm atrás dos outros e assim será, sempre.
Ele respeitava profundamente as opiniões e os avisos da sua avó Matilde, aquela mulher cuja idade parecia ter o condão de a tornar cada vez mais bela. Ela era uma autoridade no assunto. A sua vida tinha sido uma aventura nas terras do amor, da paixão e até, da luxuriosa vida ardente de uma confessa e assumida balzaquiana . Foi por isso que lhe guardou o conselho, dito com uma severidade inabitual:
- Com uma única excepção: se encontrares uma mulher que te faça rir de manhã, dessa deverás fazer a tua amante, ou a tua esposa, ou até mesmo a tua concubina, desde que dela nunca mais te separes.
David lembrou-se disto quando as suas gargalhadas quase estremeceram com aquela manhã ainda por despertar. Enrolava-se nos lençóis, desfazia-os num sorrir terno de criança, espraiava-se no linho como se este fosse um mar revolto.
- Gosto de ti!
- Eu gosto mais! - respondia-lhe Adelaide rindo.
E diante de tanto riso David ouvia novamente as palavras da sua avó Matilde, desde que dela nunca mais te separes.
- Queres casar comigo?
Ela riu, riu ainda mais. Enquanto lhe beijava as nádegas, lhe apertava o sexo, gargalhando sempre:
- Caso-me com este.
- E comigo?
- Contigo não. Já sou casada com ele. Porque é que me perguntas se quero casar contigo?
- Para saber se és o meu amor-prefeito.
- Agora já sabes que não sou.
- Enganas-te. É exactamente ao contrário.
E era. Já não era a sua sábia avó que o dizia, era ele, a sua vontade, a sua estranha obsessão por amores perfeitos.