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sexta-feira, dezembro 30, 2011

O amor, esse lugar efémero


Não sei porque escolhi um barco no meio do Tejo, entre a lezíria e a cidade,  para escrever sobre o amor. Talvez seja porque, e não sei se em desacordo ideológico com muito do que sobre o amor é comum partilharmos uns com os outros, ele, sendo construído sobre um sentimento, é, tal como a arte, uma experiência onde essa identidade mutante, mutável, que habita em cada um de nós durante aquilo a que chamamos o tempo das nossas vidas, é sempre o ponto de partida e de chegada. Sendo o amor um lento trabalho de depuração, ele será sempre injusto para com as suas histórias pretéritas, já que é no presente e no futuro que ele há-de projectar corrigir os erros, as omissões, e as acções cometidas no passado. Poderá parecer isto ingrato, cruel até, no entanto também é a forma de sabermos que o amor verdadeiro não é mais do que uma busca sempre em movimento de devir.

sábado, julho 11, 2009

manhã fresca

Levantei-me o mais cuidadosamente que pude na escuridão do quarto. Velo o seu sono matinal como me predisponho a velar a sua vida. Como se fosse minha. Há vezes em que me revejo assim: na exaltação dos sentimentos-carne. A minha pele está macia. Ainda respira nela a bem-aventurança dos óleos da massagem de ontem. Exaltação dos spas também. Saímos os dois com a pele macia, fresca, em festa, ela ainda ouviu um piropo da massagista, a sua pele parece a de uma menina. A minha menina. Sento-me aqui no pátio à sua espera, velando-a. Vai ser sempre assim.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Paradoxo sem título

Afasto-me de ti e apercebo-me, é de ti que me aproximo. É assim que é e à força de achar natural o que é quando estamos juntos, é também assim que eu quero. Quero o que é, o que em mim, ansioso, egocêntrico, dominador dissimulado, é inusitado. Aprecio os paradoxos quando estou à tua beira. Gosto de todos os paradoxos quando estou perto de ti mas especialmente de entrar fisicamente dentro de ti e dar-me conta que a voz que tenho exclama, entra dentro de mim. Ao princípio pensava que era uma partida do género, era eu meio homem, meio mulher, meio bicho. Depois fui-me habituando ao fenómeno, aos fenómenos: era mesmo a sensação de que me rasgavas a pele de dentro. Estás dentro de mim há muitos séculos.

terça-feira, julho 22, 2008

O amor dito

Dou-me conta que é tão fácil dizer a alguém que a amamos. Não me censuro nesse estapafúrdio. O amor dito é uma contingência dos seres que somos na linguagem. Gostaria de ter podido dizer ainda mais vezes a uma mulher que a amei. Não sei explicar isto de outra forma. O amor dito não me incomoda. Estou cansado da linguagem, não confio nela nem a ela nada do que me é mais verdadeiro, o silêncio, se inventares o silêncio na linguagem falarei de novo e serei até louquaz, mas faço de toda esta miséria linguarejada uma excepção: as vezes em que sussurei o amor nos ouvidos de uma mulher.