Não sei porque escolhi um barco no meio do Tejo, entre a lezíria e a cidade, para escrever sobre o amor. Talvez seja porque, e não sei se em desacordo ideológico com muito do que sobre o amor é comum partilharmos uns com os outros, ele, sendo construído sobre um sentimento, é, tal como a arte, uma experiência onde essa identidade mutante, mutável, que habita em cada um de nós durante aquilo a que chamamos o tempo das nossas vidas, é sempre o ponto de partida e de chegada. Sendo o amor um lento trabalho de depuração, ele será sempre injusto para com as suas histórias pretéritas, já que é no presente e no futuro que ele há-de projectar corrigir os erros, as omissões, e as acções cometidas no passado. Poderá parecer isto ingrato, cruel até, no entanto também é a forma de sabermos que o amor verdadeiro não é mais do que uma busca sempre em movimento de devir.
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sexta-feira, dezembro 30, 2011
O amor, esse lugar efémero
domingo, março 07, 2010
Peter Pan
Há um momento em que tu percebes que tens quarenta e sete anos e ainda és um menino. Ela diz-te isso, que a fazes sofrer como se fosses um menino, uma pequena criança. A tua primeira tentação é mandá-la passear, estás farto de mulheres que te tratam como se tu não tivesses crescido. E pensas, ironia desta vida, se fosses um menino mandava-la mesmo dar uma curva. E ias para um bar, dançar, procurar outras mulheres, estalar os dedos. Cresceste, aos quarenta e sete já nos magoamos a sério com as dores que provocamos. E é quando te apercebes disso que te dás conta de que já fizeste isto milhares de vezes. Estalaste os dedos. E que te apercebes que já não o voltarás a fazer. E depois sabes que já não és uma criança, que aprendeste a permanecer, a guardar o desejo, a fome, aqueles olhos que te comovem como desde o primeiro dia.
quarta-feira, setembro 23, 2009
O amor nem sempre é o que parece. É preciso chorar, é preciso zangar, é preciso gritar, é preciso quase sentir o peito a rebentar para percebermos a enorme injustiça do amor : na sua improbabilidade, ou seja, independentemente de existir ou não, é capaz de nos levar tão depressa ao céu como ao inferno do existir. Como tão bem o cantaram Vinicius, Betânia. O amante sofre tanto de um falso amor como de um amor verdadeiro, e isso só pode parecer injusto para os que se dão conta de que acabaram por se entreter com um falso amor. E mesmo assim os errantes do amor podem tomar a seu favor a semelhança que há entre um e outro. E contarão sempre com a nossa compreensão. Não há nenhuma praça que se ria, que zombe deles e isso porque em todas as praças das nossas cidades há homens e mulheres apaixonados que sabem o quanto é improvável o verdadeiro amor. O que o distingue não são as palavras ditas ou proferidas, os gestos e suspiros da carne a exaltar-se, mas o bálsamo que é para o espírito, confrontar-se uma alma com a revelação da verdade do seu amor. Epifania que pode surgir das formas mais inusitadas. Há pouco percebi que ela era o meu amor mais verdadeiro quando interrompi o que estava a fazer no computador para colocar aqui um charleston para ela poder ensaiar uma dança para uma festa de um grupo de teatro de uma comunidade inglesa a que está ligada. Entretanto o pequeno filme do you tube chegou ao fim e ela continuou a marcar o charleston trauteando um ritmo. Fiquei embevecido a olhar para ela, para os seus gestos, tão ingénuos, tão delicados, tão compenetrados. Há muito que me entrego ao prazer único de ser um espectador privilegiado da sua expressão de mundo.
sexta-feira, julho 31, 2009
Out
Faltam mais ou menos quatro horas para fechar a loja, colocar o assistente para ausências do escritório e preparar tudo para irmos de férias. De regresso a Galamares, aos passeios de bicicleta, àquela noite fresca no quintal. A janela da cozinha que leva para outros lugares saloios onde já vivi. O tempo de trabalho que aí vem no regresso de férias afigura-se tão entusiasmante quanto trabalhoso, abrindo novas frentes, mais pessoais, retomando projectos antigos, criando novos e estes quinze dias aparecem-me como um bálsamo de afectos, de prazeres. Uma pessoa é daqueles que ama e nas férias há menos desculpas para não nos entretermos a namoriscar . Faltam menos de quatro horas entretanto e eu já não existo. Deixo-me envolver pelo calor dos seus braços, das suas mãos finas, da sua pele macia, são estas as minhas férias.
segunda-feira, julho 27, 2009
Mil e uma
Ali no Oito e Coisa, o verão passam-no com desafios. Hoje anda por lá o da monogamia. Conceito que nunca devo ter entendido muito bem. Na minha consciência sempre julguei que o praticava mas, depois, ao olhar-me na expressão alheia, percebi que nunca o vivi de forma muito absolutamente rigorosa: criava cláusulas íntimas que me colocavam fora do conceito.
A razão entre este discenso entre a minha consciência e a minha prática - e aí coincido com o olhar alheio no modo como me vejo - talvez se prenda em primeiro lugar com ter demorado muito tempo a crescer. Já a tarde da minha vida ía alta quando comecei a aprender o que é, para além da expressão mais ou menos eloquente do amor dito, o que é uma mulher, o que é amar uma mulher, o que é consagrar-me a uma mulher. Hoje sou terrivelmente monogâmico. E, paradoxalmente, como ela parece não acreditar totalmente em mim, disfarça-se das mil e uma mulheres que uma só fêmea tem naturalmente ao seu dispor para conseguir ser uma e única mulher.
E eu, rindo-me assim do mundo, das suas cousas, como a monogamia ou a poligamia, sou também, no amor que lhe tenho, mil e um.
[Sir Lawrence Alma-tadema, A Favourite Custom, 1909]
sábado, julho 11, 2009
manhã fresca
Levantei-me o mais cuidadosamente que pude na escuridão do quarto. Velo o seu sono matinal como me predisponho a velar a sua vida. Como se fosse minha. Há vezes em que me revejo assim: na exaltação dos sentimentos-carne. A minha pele está macia. Ainda respira nela a bem-aventurança dos óleos da massagem de ontem. Exaltação dos spas também. Saímos os dois com a pele macia, fresca, em festa, ela ainda ouviu um piropo da massagista, a sua pele parece a de uma menina. A minha menina. Sento-me aqui no pátio à sua espera, velando-a. Vai ser sempre assim.
sábado, junho 27, 2009
Não era por aqui que eu queria ir
escrevo algumas palavras para fugir a outras. é sempre assim quando escrevo. as palavras-bomba são difíceis de aguentar no palato. ou se dizem ou de repente transformamo-nos em escreventes-suicidas. eu sei. é pura cobardia atrasar-me nas palavras-bomba apenas para
poder prolongar por mais um pouco esta cumplicidade com as manhãs a rebentar de luz, de chilreios, desta febre que é não saber. há no entanto uma outra coisa que me sustém a denúncia, o grito, a poleta: as palavras-bomba são arrogantes, são a própria arrogância. elas acreditam que a nossa vida tem sentido e que é preciso abrir a goela para denunciar os transvios de direcção. e a vida tem sentido claro que têm. mas não consigo acreditar que a vida tenha assim tanto sentido. tem o sentido de primeiro, quando acordarmos, ser o principio do dia, do nosso dia e de, quando nos deitamos, ser o fim do mesmo. um pequeno ciclo quotidiano que se abre e fecha todos os dias. o acordar e o deitar é o nosso ensaio geral para a morte. nós nunca soubémos que nascemos, nós nunca soubémos que morremos, mas todos os dias ensaiamos o que é nascer e o que é morrer. é uma experiência. a minha mulher diz que quando eu durmo me saracoteio todo, que me mexo para trás e para a frente, que projecto o meu corpo, cada vez mais pesado, no vazio e que depois o deixo cair, em peças separadas, um braço, uma perna, em cima do corpo dela. ela acorda estremunhada e depois olha para mim, para a minha agitação, e demora-se no ver. no olhar. ela não sabe, porque eu não lhe disse, mas sou eu a ensaiar a minha morte e a rebelar-me contra ela. sou eu a ser levado por anjos, por demónios, por seres alienígenas, para um universo sem quarta parede, e isso para mim é a morte, a minha morte é fim da representação, o término do meu privilégio de estar sempre diante do olhar dos outros, dos meus semelhantes. é por essa sua condição de espectadora do ensaio da minha morte que eu sei que a amo de uma forma devoradora. há na nossa procura de par essa dupla condição: procuramos alguém com quem viver o resto da nossa vida mas, sem o sabermos, procuramos alguém a quem confiemos a nossa morte. e não apenas a nossa morte fisica, o entreacto final. é mais do que isso. é que em vida, naquilo que a gente chama vida, nós morremos. sabemo-lo de ciência exacta, morre a cada segundo uma célula de mim, antevemo-lo de ciência inexacta, a nossa identidade, aquilo que forjámos para dizer impantes isto sou eu, morre também, renasce também, a cada momento. mesmo quando estamos sós, mesmo quando ainda não temos um espectador para a nossa morte final, ou para aquilo que a física - que é o deus dos agnósticos como eu - chama, a nossa última experiência sobre a morte, nós morremos e renascemos, numa alquimia espiritual onde se confundem livros, mestres, imagens, filmes, lugares. não existe solidão despovoada. mas tenho de ser honesto com quem me lê: eu já não sei falar de solidão. ou pelo menos da solidão que tinha quando comecei este blogue e que era a mesma que me acompanhava há quarenta e sete anos. tenho aliás a sensação de fraude quando me escrevo aqui e depois no final automaticamente a máquina assina por mim, jpn. Eu morri. E não me chorem meus amigos, ou apenas viajantes que passam por aqui à procura de uma sombra fresca. É de celebrar uma morte assim. Encontrei o meu par na roda inteira que é o mundo e esse par é também a escolhida para ser a espectadora da minha morte (havia logo de encontrar uma que não acredita nisso por isso já me estou a ver a andar lá pelas paisagens hologramáticas a a arrastar eternamente este pesadelo do sem fim), mas é também a única pessoa em quem confio a minha transformação numa outra pessoa. A frase é pires e um pouco kitch mas eu, o novo eu que sou, já não tem medo de nada, muito menos das frases kitchs: o encontro de um par na roda inteira é como o encontro de duas substâncias químicas que se encontram para daí formarem uma nova. E não nos assustemos com a antevisão: há sempre algo para procurar no mundo humano. Em eus procuramos o nós. Em nós, procuramos o eu. E mais: tudo isto se aprende como há muitos anos aprendemos o abecedário e a tabuada. Passo a passo.
terça-feira, junho 16, 2009
Guerra dos Roses
Os nossos sentimentos, a nossa educação sentimental. Há aqui uma mentira e simultaneamente a única verdade que interessa. Eu pensava que o amor era o lugar supremo da existência de um ser humano. Começo desde já a atrapalhar-me com as palavras: eu não pensava, eu fui levado a pensar, eu fui rodeado de uma retórica discursiva de exaltação do amor enquanto lugar humano. Tarde - mas não demasiado tarde, meu amor - aprendi que isso é mentira. Ou melhor, que isso pouca falta faz à verdade. Amamos muito até chegarmos a esta evidência sentimental: o lugar mais perfeito entre dois seres é a combinação, a equação quimica que permite que de dois se gere um novo elemento, já nem um nem o outro, um novo. Não é uma transformação fácil nem é como ir ali à marquesa da cirugia estética/reconstituitiva. Dói muito por vezes. E embora, teoricamente, seja uma operação reversível, com a mesma dor -e a mesma festa - com que se fez também poderá desfazer-se (em teoria, na prática há muitos casos em que a única saída é a destruição mutua), também possibilita iluminar os sujeitos individuais sobre aquilo que pensavam que era a sua identidade essencial e que afinal não passava de acessória, de espuma dos dias cristalizada.
sexta-feira, julho 04, 2008
Namoro
A festa não deixou de ser quando te vejo às sete da tarde no fim da escadaria rolante da FNAC, ao pé da estante dos livros. Tudo o resto é de relevo e é ainda mais importante porque há este prelúdio do que é possível ser uma festa de um com o seu par, na roda inteira. Às sete da tarde, ao pé da estante dos livros na boca da escadaria rolante. Tu ainda não me viste. E eu olho-te ainda só eu e eu sem ti e abre-se-me dentro e fora de mim um sorriso, uma alegria que é mais a sério ainda porque é o que eu não sei que penso e que se me revela.
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