Mostrar mensagens com a etiqueta Facebook. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Facebook. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, dezembro 21, 2010

As minhas redes sociais

A posição da secretária foi consensual entre nós dois. Permite ver uma nesga de rio, os paquetes de luxo, um pouco da estação de caminhos de ferro. Em frente a estante. Não são muito resistentes as do Ikea. Vão-se dobrando com o tempo. Os títulos diante de mim são tão sugestivos como a janela e tanto a estante, como a janela, perdem para essa outra window, a do facebook.
Vou desistir de dar tanto tempo ao facebook. O meu espaço natural é a blogosfera. É aqui que eu gosto de escrever, sempre foi. Provavelmente afeiçoei-me a este meio. Mais por vezes é menos. Gosto de ver os textos do Mora Ramos, sabe-me muito bem ir de tempos a tempos seguir as conversas inteligentes que António Pinho Vargas consegue ter com os seus amigos, é sempre delicioso ir ver o Paulo Pena a dar largas à sua paixão crítica pelo jornalismo, ou a Catarina Martins a defender as nossas causas comuns da cultura, mas em grande parte sinto-me algo desconfortável com o tipo de comunicação que este meio promove. Os likes, as aplicações, as causas, tudo isso me parece um esvaziar-me num conjunto de protocolos que não domino bem. A verdade é, não quero dominar. Gosto dos posts curtos que me permitem falar das bolachas de gengibre e canela, é um meio muito mais intuitivo no modo como faz partilhar a informação, mas excepto uma meia dúzia de casos de pessoas que conseguem utilizar a aplicação para um debate de ideias que me interessa, não me seduz. Eu próprio ando há dias para colocar em debate uma data de coisas que me apoquentam. E nada. Não consigo. Saber que vão ser lidas por setecentas e tal pessoas de universos tão diferentes como os meus grupos de escola, de bairro, amigos de rua, de prédio, ou pessoas que apanharam um texto meu aqui ou acoli e que me pediram para ser meu amigo ( ou pessoas a quem eu fiz exactamente o mesmo), apoquenta-me tanto como as coisas que, por me apoquentarem, pensei em trazer aqui.
Eu não gosto de dizer estas coisas assim - porque é um discurso muito permeável à ambiguidade - mas o facebook parece-me aliás uma coisa muito perigosa enquanto conformação de comunidades massificadas, condicionadas comunicacionalmente por dispositivos que escondem a manipulação que operam.
E ainda por cima com uma investigação à perna, vou ter de começar a ser menos anárquico, gerindo a minha participação nestas redes sociais. Até porque tenciono também utilizá-las, tanto na versão facebook como na versão blogue, para criar uma pequena comunidade de pessoas, em Portugal e não só, interessadas no desenvolvimento da escrita teatral portuguesa. Estou ainda a pensar em como o fazer, mas a coisa deverá passar por tentar migrar todos aqueles que são meus amigos ou conhecidos por causa das coisas do teatro, da escrita e da cultura, para o facebook Escrever para Teatro em Portugal, mantendo no meu facebook pessoal uma pequena comunidade restrita de amigos.

quarta-feira, abril 15, 2009

O amor é o contrário de estar morto

Há muitos dias que ando para escrever sobre o amor que sinto por ti.
Estaco sempre o passo, a mão. A própria pena, é como se a
minha mão se transmutasse, transfigurasse e lhe nascesse nas extremidades
um bico de pato.
Como se de repente o amor fosse coisa antiquíssima.

Tu saberás o que dizem estes sinais
que me deixam radiante outra vez,
e outra vez,
e ainda outra vez.
E nos dias que ando para escrever o amor que sinto por ti,
as minhas noites fazem-se de vigília.
Acontece acordar apenas para te olhar,
e nesse olhar haver um gesto,
um sussurro,
um apelo,
para que não morras,
para que não morras nunca,
para que fiquemos sempre os dois,
tanto na morte como na vida,
um diante do outro.
E pela noite escurada
no teu rosto revejo a minha face,
a minha vida,
como se ele fosse um espelho,
onde prevejo o futuro que já não tenho,
uma caixa onde está a minha vida,
toda a minha vida,
a que já foi, a que virá.
E antes que me perguntes
pelo meu silêncio,
nos dias que ando para escrever o amor que sinto por ti,
é o medo da vulgaridade que me sustém
como se eu não pudesse mais pensar no amor sem sentir a cobra, um fogo entre
as pernas. Na forma como tu és para mim e dentro de mim.
Pensei apenas naquele sabor doce com que mordisco e
mastigo
uma e outra e outra e outra e ainda outras milhares de vezes,
o pequeno grão que exuberantemente se constitui alimento do meu próprio corpo,
da minha própria vida.

----------------

e
e
e
e

[depois de responder a um quiz sobre que companhia de teatro és tu (artistas unidos, voilá Jorge!) em que sobre o amor a opção irrecusável era, " o amor é o contrário de estar morto"]

quinta-feira, abril 09, 2009

God save the network!

A rede salva-nos! Um dia pensei que era um adicto das redes. Muitas das minhas horas, e as horas da vida de cada um são de uma responsabilidade enorme, estão plasmadas nos circuitos electrónicos, nos écrans de 15 polegadas, nos cabos invizíveis que ligam continentes em milésimos de segundo, nos teclados peganhentos onde se mistura tudo, restos de comida, cinza de cigarro, se calhar, nalguns, até sémen. Pensar na primeira rede em que participei é um exercício de memória tão difícil como tentar remontar aos tempos em que a televisão era a preto e branco. Era a pré-história desta frenesim que tudo liga, os mircs, os grupos, os chats. Eu poderia viver um ano sem fazer nada se me voltassem a dar todo o tempo que gastei a conectar-me. Hoje já consigo perceber que o tempo que passo aqui é um momento paradoxal em que o desejo de me fundir com os outros me afasta deles. E por isso já me é mais fácil fechar o computador e pensar que nada de decisivo perco com isso. Nesse sentido a rede, enquanto fenómeno, não é muito diferente daquela festa que eram as longas noites de Verão na entrada dos nossos prédios, nos Olivais Sul em que as horas se consumiam a contar anedotas, façanhas ou a rirmos com o máximo de alarvidade que nos fosse possível conter numa boca escâncara. E é por não ser muito diferente que é deliciosa, seja lá a modalidade ou o formato com que nos surge. Nunca fui muito fã dos icq, dos H5, dos Plaxos, dos Orkuts. Experimentei, como na juventude experimentávamos qualquer droga que nos chegasse à rua, mas não me cativaram. Detestava a parafernália de adereços, de emoticons, de aplicações que me lentificavam o computador. O messenger sim. O messenger consumiu-me novamente muitas horas. Saber que os meus amigos ou conhecidos estavam online, poder falar com eles, principalmente aqueles que estavam distantes cativou-me durante algum tempo. Lembro-me, a mostrar que estas coisas não têm idade, quem me chamou a atenção para ele foi o Gutkin, numa das viagens que fizémos até aos encontros de teatro de Valência, estas ferramentas permitiam que estivesse ligado aos familiares na Argentina. Nesta aventura até ao centro do deus ex-maquina, tenho alguma dificuldade em perceber o lugar da blogosfera. Antes: a minha aventura no ciberespaço começou com as páginas gratuitas do terravista. Nunca consegui completar a minha e mudei-me para o sapo, mais intuitivo, mais fácil. Tive lá a minha página pessoal e depois a primeira página dedicada à escrita teatral em Portugal, que depois migrei para um domínio próprio, sendo aí que desapareceu por completo. Não sem antes me consumir horas e horas no frontpage, no dreamweaver, no flash, o calvário de um webmaster amador. Quando tomei contacto com a blogosfera, aderi a ela com grande entusiasmo e voltei novamente a perder horas a figurar-me, a desfigurar-me, a configurar-me, a reconfigurar-me. Estava-me - e desde muito novo, talvez desde sempre - na massa do sangue, a virtualidade. Adiciono-me facilmente a esta ideia de aventura que a rede transmite. Não partilho de muitas das criticas - pretensamente - realistas ao virtual. O realismo, enquanto pretensão, é uma seca! Embora, como também escrevi, tenho alguma dificuldade em perceber o lugar da blogosfera na nossa melhor vida. Isso quer dizer que já lhe atribui, nesse campo, uma maior importância. Está por pensar - e a sua constante renovação tecnológica mais dificulta a capacidade de reflectir sobre ela - muito do seu trabalho a favor da manipulação ideológica. Mas seja como for, esta tensão entre a construção identitária através da aventura expressiva individual ou colectiva e a manipulação ideológica é também um factor que qualifica dinamicamente a blogosfera enquanto lugar de re-existência. Re-existir em vez de resistir. A resistência, excepto enquanto lei da física, está fora de moda e é, ela mesma, um produto de contrabando ideológico em desuso. Resistimos sempre contra qualquer coisa. Contra o pai, contra a mãe, contra o filho, contra o espírito santo ou a santíssima trindade. O mito da resistência foi substituido pelo paradigma da re-existência. Eu JPN, eu Joaquim, eu Joaquim Paulo Nogueira, eu jpnogueira, para não falar da saraivada de nicks que uma existência mais recatada e íntima na net já me possibilitou usufruir. É por isso que acolho com um entusiasmo juvenil a minha entrada no facebook. Tudo começou com um jantar de turma, um desafio para entrar nesta comunidade. De repente os dispositivos técnicos do facebook a trabalharem por mim, a irem buscar contactos, a sugerirem outros. A certa altura apercebo-me que junto nesta aplicação estão muitas pessoas com quem me cruzei de modo diferenciado ao longo da minha vida, uns mais protegidos pelo anonimato, outros nem por isso. Não são amigos no sentido literal do termo, são amigos do facebook. Pessoas que cumprimento na rua, ou com quem me cruzei numa associação, numa escola, num trabalho, num seminário, num outro país, num espectáculo, num jantar, num programa de televisão, numa outra cidade, num outro lugar, não interessa. São os meus amigos facebook. É com algum entusiasmo que recebo a notificação de que fulano de tal confimou-te como teu amigo, ou sicrana adicionou-te como tua amiga. Perco algum tempo inicialmente a organizar os meus contactos, confiante de que vou perder muito menos tempo nos outros interfaces. Uma das coisas que me agrada é que o facebook conta uma história de relacionamento interpessoal que amadureceu. Começámos com os nicks e regressámos agora aos nossos nomes. Tenho amigos do facebook muito frenéticos. Outros como eu a única coisa que vão fazendo, para além de ir tomando as medidas a esta nova ferramenta de comunicação, é escreverem algumas coisas no seu mural. Resisto à ideia de colocar pessoas que nunca conheci, ou com os quais nunca falei ou troquei uma empatia, virtual ou não. Acho divertido que José Manuel Fernandes tenha existência no facebook mas não estou ainda preparado para o adicionar. No outro dia adicionei o Rui Marques porque estava no facebook de uma amiga e pensei que se tratava de outra pessoa e ainda não tive coragem para o desactivar. Diverte-me ver as teias que se estabelecem entre pessoas que conheci em alturas muito diferentes. É claro que não espero resolver nenhum problema existencial ou de solidão através do facebook mas agrada-me saber que as pessoas com quem me fui cruzando, existem ainda, que não se desvaneceram nesta fantasmagoria em que muitas vezes se torna a vida nas grandes cidades. Por outro lado o blogue não resolvia o problema de muitas pessoas que viam nos posts uma barreira à sua inclusão na aventura da identidade e da expressão. O blogue foi tomado por pessoas como eu, antigos escritores frustados pelos esquemas muito apertados da edição, que de repente ganharam espaço de publicação dos seus textos. Já houve algumas pessoas que a partir desta aventura me quiseram porporcionar outras plataformas de escrita. Acho sempre que isso é interessante mas não me parece importante. O romantismo da relação com o papel mistura-se com o pretensiosismo da nossa relação com a imortalidade e isso não augura nada de bom quer ao romantismo, quer à nossa imortalidade. Estou bem nos blogues, estou bem por aqui onde posso (ter a ilusão de ) escrever o que quiser, no tamanho que quiser. Mas o blogue que tanto me satisfaz queria alguns problemas. Há milhões de pessoas sedentas de chegar à sociedade da comunicação que se querem ter como sujeitos da enunciação, não apenas como receptores. A própria sociedade da comunicação não pode esperar pela leitura de um pastel de cinco mil caracteres ou mais para saber o que há-de pensar. Por exemplo, daí ao twitter, que não me fascina nada, é um passo. É o mistério da rede. O que é que estás a fazer agora? O que é que estás a pensar agora? Talvez isto seja uma redução da nossa vida. E provavelmente nós que lidamos mal com os fantasmas que fomos deixando pelas nossas cidades fechadas à comunicação exultamos, sem perceber que a ligação pode também levar-nos a novas fantasmagorias. O mito da ligação, por exemplo. O mito da omnipresença que roubámos dos deuses quando eles, no Olimpo, se entretinham com frivolidades. A forma como a rede se dá ao luxo de absorver e manipular um conceito, como o da amizade, que nos demorou tanto tempo a aprofundar e a maturar, deverá, pelo menos, inquietarmo-nos. A rede salva-nos. God save the network!

segunda-feira, abril 06, 2009

Ça ne c'est pas une cause

Ainda no outro dia, a propósito do célebre processo que levou uma jornalista a tribunal por ter chamado enxofrável a um militar de Abril, comentávamos que os tempos mudaram muito, que hoje já ninguém levanta processos assim, por dá cá aquela palha. E zás, sai-nos logo esta notícia de que José Sócrates processou João Miguel Tavares, por ele ter dito que Sócrates ao falar de moral na política lhe soava tão convincente quanto lhe soaria Cicciolina se esta surgisse a defender a monogamia. Não vem aqui ao caso o facto de me parecer um profundo disparate a ideia e até um pouco chula a comparação, mas penso que não só JMT não é obrigado a ser razoável em tudo o que opina, como também, que com algum bom senso terá feito as suas contas e pensado que haveria mais probalidades de apanhar com um processo por parte da Cicciolina do que do nosso PM. O que sobrevive deste caso , como escreveu outro Tavares, o Rui, é que é um disparate político, pessoal e ético levar alguém a tribunal por causa da sua expressão de que não se sente convencido pelo outro. Se a intenção de Sócrates é convencer Tavares, João Miguel, talvez seja melhor usar de outros meios. Se a intenção é inibi-lo de expressar o que pensa, ui, mau maria, estamos mal. É por isso que não sendo própriamente uma causa mas um caso, há pouco não hesitei quando uma amiga me mandou pelo facebook um pedido de subscrição de uma causa, a solidariedade com o João Miguel Tavares. Voilá!
[Sofia Loureiro dos Santos manifesta algum desconsolo sobre a reacção à notícia de que Sócrates moveu um processo contra JM Tavares. Eu também. Esperava dele um pouco mais de domínio. É claro que é uma patetice fazer disto uma causa, uma causa a sério, não falo das causas a brincar do facebook. O primeiro-ministro não atentou contra a liberdade de expressão de Tavares. Só o faria se conseguisse, por meios ínvíos, que os tribunais lhe dessem razão. Ora todos sabemos como é que isto vai acabar. É claro que Sócrates tem todo o direito de se sentir ofendido. Como nós todos, os que votaram nele e os que não votaram nele - assim, uns constrangidos, outros com gáudio, como donzelas vitorianas exigindo dele a ética e a decência que nunca lhe reconheceram - temos o direito de achar que ele foi um palerma por se sentir ofendido. Ou por outras palavras. Sócrates terá - como todos nós, aliás, esta nossa presunção com que nos passeamos pela vida só aparentemente nos obriga à inteligência - sempre todo o direito de ser um palerma. Como nós também temos o direito de lhe puxar as orelhas e lhe dizermos que não queremos um primeiro-ministro que não abdica do seu direito de agir como um palerma.]
Adenda Final (actualizado a 9 de Abril depois de ler este post da escrita em dia que remetia para est'outro do blogue de Rolo Duarte): João Miguel Tavares esclareceu em nota que "Por muito tentadora que possa parecer a ideia de ir a tribunal discutir tangentes entre o primeiro-ministro e a ex-deputada italiana, há que fazer justiça ao engenheiro Sócrates e ao escritório de advogados do dr. Proença de Carvalho e esclarecer que fui processado por muitas frases desse artigo, mas nenhuma delas inclui antigas estrelas de cinema pornográfico. Lamento pôr em causa tanta criatividade textual e visual que saiu em meu auxílio na blogosfera, mas opiniões são opiniões - e factos são factos”."
Parafraseando o nosso eterno Vasco Santana, palermas há muitos. Ou no mais bem intencionado post cai a palermice. Eu, por fim, enterro o chapéu até às orelhas.