Mostrar mensagens com a etiqueta Sexo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sexo. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Afta

Uma pequeníssima afta bem na ponta da língua. Não mais que uma pequeníssima afta na ponta da língua resultado de uma escoriação por contacto com um dente que se lascou. Descrevo-a minuciosamente para me dar conta de quanto é desporporcional a dimensão desta minúscula úlcera com a catástrofe que em mim instalou. Apercebo-me, dia após dia, de quanto é díficil encontrar substituto satisfatório para o prazer que me dá um prolongado, exaustivo e minucioso minete. Deve ser o meu lado gaja.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Estranha forma de vida

Dizia-me, amo os finais, tenho uma extraordinária propensão para fazer florir as rosas quando elas murcham nas mãos áridas dos amantes. Ela falava sem se dar conta da beleza que lhe crescia nos dedos de mulher. A maior parte das pessoas que conheço são pessoas de sentimentos perfeitos e normais. Esvaziam-se de um amor antes da chegada do próximo que pode ou não coincidir com a Primavera. Será aliás sempre verão, por mais tardio. Não sou assim. Primeiro preencho os espaços em branco e só depois, a meio da caminhada, começo a libertar carga, até que da última viagem não reste senão um torpor. Aprecio as pessoas arrumadas sentimentalmente e tiro delas inspiração para os meus melhores dias mas não consigo repetir a façanha. O que procuro nunca existe. Eu gostava de encontrar um dia uma mulher que me tirasse o desespero. A sensação de agonia. A dor anestesiada de uma solidão. Essa mulher não existe. Nunca existirá. Não porque não exista. Porque entretanto me ocupo com mulheres que me fazem sofrer, que me desesperam, que me agoniam. Estou a ser injusto. Poucas são as que me agoniam, que me desesperam, que me fazem sofrer. O que acontece verdadeiramente é que não me libertam da agonia, do desespero, do sofrimento. Ao invés disso preeenchem-me de cores, de alegria, de envolvimento, de doçura tal que eu sinto, sempre pela primeira vez, que posso abrir os olhos diante da verdadeira agonia, do verdadeiro sofrimento, do verdadeiro desespero. A mulher que eu procuro não existe. Não porque não exista. Existe, para lá da agonia, do desespero, do sofrimento. Todos os dias dorme no meu leito nú. É com ela que eu me deleito e entrego à mulher que verdadeiramente me beija.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último olhar, disse ele

Em Broken Flowers de Jim Jarmush, Bill Murray depois de saber, através de uma carta anónima, que pode ter um filho que o procura, empreende ele próprio uma viagem para tentar descobrir quem é a mãe do seu filho.
A estrutura repetitiva do filme acaba por mão se tornar monótona graças quer à excelente banda sonora do filme, quer ao modo paradoxal como a personagem de Don Johnston é construída. Por um lado o seu comportamento apático, desafectado, alheado. Por outro um homem que inicia uma viagem através das várias namoradas que teve para descobrir qual delas é a mãe do seu filho, como se isso lhe devolvesse alguma chama existencial.
Imaginei-me dentro do filme e espantei-me com a forma como Don Johnston foi acolhido pelos seus antigos amores. Não acredito que se fosse eu a maior parte das mulheres com quem reparti dias, horas, me abrisse sequer a porta. É difícil confessá-lo mas nunca amei verdadeiramente. O amor em mim é uma memória e uma promessa. Amei quando nasci, e da procura dessa memória de que nem sequer me lembro faço a minha esperança de que por uma vez na vida, nem que seja ao morrer, possa sentir a plenitude de um amor verdadeiro rasgando-me por dentro, libertando-me de todo este ódio com que me deixei enquistar, soltando-me desta matéria pustulenta e ocre com que me entranhei de violência.Amei no exacto segundo em que nasci, aí fui humilde e autêntico amor molecular, cromossomático. Desde esse momento todo eu sou aprendizagem do medo, do egoísmo, da mentira, do desamor e da desafectação. Há uns tempos entristeci-me porque recebi de uma das mulheres com quem mais tempo tinha dispendido a desamar, uma carta a pedir-me para nunca mais a contactar, para imaginar que tinha morrido, emigrado para a Gronelândia, para o centro do centro do mundo, whatever! Agora, ao constatar a persistente inexistência do amor na minha vida, compreendo afinal a lucidez que, como um punhal, a trespassou.
Estas coisas que eu sei sei-as a despeito do amor que nunca senti, que nunca fui capaz de sentir. Sei-as por causa do único vislumbre amoroso que sou capaz de descortinar para além desta memória de que nem sou capaz de ser recordação: os gestos de amor autêntico de que fui objecto. Não são muitos, a maior parte do amor que me dedicaram é tão mesquinho como aquele que dediquei. E nem de outra forma poderia ser quando é a mesquinhez e o desenho de diminuitivo que lavra o chão e a terra onde semeámos e plantámos a flor. Não são muitos, são os bastantes.
O amor em mim é apenas uma promessa, uma memória. Por mais estranho que possa parecer, não é um ser agoniado pela sua própria acidez que escreve, mas alguém que percebe que é na desfiliação de um face à mitologia amorosa do mundo que pode estar a única e a última chance da nossa experiência amorosa ter algo de autêntico.
E a linguagem é apenas mais um entretenimento, um fazer tempo, enquanto a verdade crua e dura da nossa existência não nos atinge como um raio.Eu não o sabia antes e não o sabia assim: o véu vai caindo ao mesmo tempo que caminhamos. Enquanto com o tempo a gravidade puxa todas as nossas carnes para baixo, numa flacidez que nos permite o destempero lúcido de quem deixa para sempre a sua hipótese de ícone, o cérebro, o cerebrelo, a massa encefálica enrijecem, entesam-se na estreita vinculação à única proferição possivel.
É por isso que por mais aparato e exuberância que os nossos amores jovens possam ter tido, ninguém no seu perfeito juízo se comove senão com o amor que espera um dia, na velhice, experimentar. Padeci das mesmas doenças de espírito que qualquer um de nós: procurei uma mulher ou para me governar a vida, ou para me dar filhos, ou para tornar a minha vida aventurosa, ou para me rejubilar nas fotos de família, ou para o vangloreio junto dos amigos ou até, para me rejuvenescer. Tudo isso foi em vão e foi por isso que não deixei nem tenho saudades do amor que não vivi, que não soube viver.
A única coisa que agora ainda espero encontrar em relação àquela que será a minha última hipótese amorosa é algo que não posso ainda, nem nunca, procurar: uma mulher a quem possa olhar no derradeiro relance que pousar sobre o mundo e que espero, seja o mais autêntico gesto de amor que percorreu toda a minha vida.Uma mulher em quem amar e confiar, como escreveu o poeta.
Porque o que conta, a única coisa que verdadeiramente conta na possibilidade amorosa de cada um, é a confiança. É o único momento em que matamos a avestruz enterrada em mitemas de merda, de trampa doce, de lodaçento e pantanoso verboreio. A nossa derradeira chance de luz. Eu sei que tudo isto pode parecer cínico, ácido, desesperançado. Eu creio que não é. Ou que só será se já amarmos mais a linguagem do que a vida, do que a vida autêntica, indecifrável. Esse festim que, quando linguarejo, creio ainda ser possível.

domingo, agosto 05, 2007

Tampinhas de silicone

Ele achava muita graça àquela caixinha de tampinhas de silicone que ela tinha em cima da cómoda. E que ela colocava dentro dos ouvidos logo que lhe dava as boas noites. O pretexto era o seu ressonar violento, intempestivo. Até que percebeu que não era nada disso. Utilizava-as para não ouvir as juras de amor que ela mesma lhe fazia quando o sexo revirava a noite do avesso. Ele nunca lhe disse nada. Era assim que a noite devia ser, silenciosa.