Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens

domingo, março 21, 2010

Homenagem a Mc Snake

A morte de Mc Snake às mãos da polícia é uma profunda estupidez. E como todas as coisas verdadeiramente estúpidas deste mundo, pode fazer com que a estupidez do mundo entre em loop. O que fazer? Pedir a cabeça do agente policial que o matou? Desculpá-lo com a falta de formação sobre aquela arma que tão rapidamente disparou? Atirar a responsabilidade para Mc Snake por não ter parado numa operação stop?

Proponho uma muito simples homenagem póstuma a Mc Snake: antes de darmos palpites, comecemos por ir à página do Hip-Hop Tuga. Ouçamos Mc Snake. Sam The Kid. Aquele que é chamado um dos mais irreverentes valores de entre eles todos, Valete. E continuem, segundo as vossas preferências. Desliguemos por momentos as conexões invisíveis que nos ligam aos grandes lagos imaginários de uma vida mítica, seja lá o que isso for. Entremos, pela voz destes rappers em Chelas City, a Zona Ji. Vejamos aqueles vídeos do You Tube. Aqueles cenários de cidade oculta. O cimento das paredes. Sejamos um pouco desta vida, destas palavras, deste ritmo. Desta vontade, tão igualzinha à de todos nós de construirmos uma vida diferente. E agora sim, voltemos às questões essenciais: o que fazer?

Em primeiro lugar, claro que também tenho de pedir a cabeça do agente policial que matou Mc Snake. Não no sentido de dramatizar a sua responsabilidade, mas negá-la impede que a cadeia de responsabilização prossiga. Ele disparou, tão lesto, uma arma que mal conhecia. Há uma componente de responsabilidade individual que tem de ser assumida na actuação de um agente policial. Aliás, ele é o próprio a fazê-lo, segundo leio pelas notícias. Sou solidário com a sua dor, com a sua tomada de consciência. Deve ser terrível apercebermo-nos, num flash de segundo, que a lei, a tranquilidade e a segurança de todos nós podem implicar que haja pessoas que andem com deus num colt policial. Todos os outros polícias têm de poder olhar para este caso e saber que quando lhes damos uma arma que pode ceifar uma vida, não fazemos deles deuses, acima de qualquer arbítrio. Depois, exigo a responsabilização do Estado, através da instituição policial. A polícia tem de ser rápida a pedir desculpa à família (e a indemnizá-la). A polícia tem de ser rápida, a incluir na formação dos seus agentes todos os elementos que permitam que este tipo de incidentes possam ser evitados.

Enquanto tudo isto não acontece (o mais provável é que o rapper morto e o polícia fiquem como os únicos personagens de uma história da qual provavelmente não serão senão meros figurantes especiais!) ouçamos mais uma vez o hip-hop tuga. A cultura aproxima-nos tanto!

quinta-feira, julho 23, 2009

No Balanço do Mar, finalmente

É amanhã, na Sala Prado Coelho, às 22h30, o lançamento de "No Balanço do Mar" de Catarina dos Santos, o disco e o concerto mais aguardado pelos seus amigos e fãs. É com muito orgulho e amizade que estaremos lá, para aplaudirmos e sentirmos os ritmos e as melodias que cruzam influências entre o jazz, a música africana e a música brasileira. Não precisam de fixar já o nome, têm tempo. Têm muito tempo.

sexta-feira, julho 03, 2009

Momento de elevação (ainda) nacionalista

As coisas não correm bem por Belgais. Sobre as razões deste gesto de Maria João Pires, esperemos mais desenvolvimentos ( e esclarecimentos) sobre a história de um projecto que sempre suscitou muita polémica. Enquanto isso, o respirar o mesmo ar entrega-se a um momento de elevação ainda nacionalista.

segunda-feira, abril 07, 2008

A caixa das suas vozes

Ontem adormeci a ouvir a minha canção. Fui à sala buscar o mini-disc onde ela tem gravadas as suas canções e trouxe-o para o quarto. Ela ainda me disse,
se quiseres eu canto-a para ti.
Disse-lhe delicadamente:
Não é a mesma coisa.
E não é. Ali dentro da caixinha das vozes, das suas pesquisas e experimentações, ouço a sua voz como se viesse do outro lado do mundo. É uma espécie de rede, de teia, com que eu passo de um para o outro lado da vida. De cada vez que a ouço, redobra em mim a força, a magia, o entendimento.
E começo desde logo a imaginá-la num palco.

sábado, março 08, 2008

Blá Blà Blá

Recebo do Miguel Viterbo a notícia de que "Amanhã, domingo, dia 9 de Março, essa eterna pepineira chamada Festival RTP da Canção começa às 21h40 e vai contar com uma música BRILHANTE. É a décima e última a ser cantada, provavelmente entre as dez e meia e as onze. " Feita por ele e pelo Gimba, e que com "A Marcha mais alegre da Avenida" tinham sido a dupla vencedora da Grande Marcha de Lisboa 2005, chama-se:
MAGICANTASTICAMENTE
E fala, pstá claro " de amor, formámos um trio com uma voz masculina e duas vozes femininas, a que chamámos:
BLÁ BLÀ BLÁ
Sim, é assim mesmo, um acento grave no meio de dois agudos. Liberdades criativas de quem não tem mais que fazer, é o que é, ou pelo menos é o que acha com certeza uma qualquer Direcção de Não-Sei-Quê da RTP, que já nos informou que não poderá pôr o acento grave no Blà do meio, por ser "um erro grosseiro de gramática". Pobres Xutos e Pontapés, que, com esta Direcção, provavelmente são obrigados a mudar o nome para Chutos. Já para não falar dos Beatles, que nem sequer sabiam escrever correctamente "escaravelho" lá na língua das mães deles."
Vai assim, a informação que recebi do Miguel Viterbo. para os que gostam dele, e do Gimba, já sabem, canção nº 10. Para os que, eventualmente não gostam tanto, já sabem, canção nº 10. É que a final é em Belgrado e assim sempre os têm longe da vista por uns dias. E eles não são esquisitos e aceitam tanto votos de amigos como de nem por issos.

terça-feira, outubro 30, 2007

África mexe-se em Lisboa

Desde que o Bleza acabou que África se tem pulverizado por mil pedaços. Todos os lugares querem atrair aquela numerosa fatia de gente que com fidelidade atracava ao porto do Largo Conde Barão. O Refúgio das Freiras às terças, apenas dança, e o já existente Enclave e o Espaço 100, dinamizado por Aires da Silva e onde têm havido concertos com Ritinha Lobo, Calu Moreira, Maria Alice, Dany Silva, entre outros, são os mais persistentes. Por outro lado o Bleza itinerante já inaugurou a sua rota mensal por espaços da cidade. No dia 18 esteve no Music Box, numa noite a lembrar a festa africana que o Bleza sempre foi e o próximo está marcado para o Maxime, em Dezembro.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Catarina do Aué

"Meus queridos amigos,
Escrevo a convidar-vos para um espectáculo muito especial. A viver nesta doideira de ser uma música cigana, entre Nova Iorque, o Brasil e a bela Lisboa, finalmente vou poder partilhar convosco a música que escrevi ao longo de 6 meses, a partir de uma casita do Harlem, a pensar em noites de B.Leza, morabeza, Lisboa e as suas belas curvas, e o Nordeste Brasileiro, que se tornou a minha terceira casa. O Verão passado redescobri uns amigos do Hot, e de um espectáculo do Aué no B.Leza nasceu a Catarina do Aué na minha mente. As músicas são fruto de muito amor às nossas tradições várias, e da paixão de cantar e tocar tambor. E estou desejosa de partilhá-las (finalmente!!) com vocês! O cenário é: Hoquey Bar (mesmo em frente ao Palácio da Vila, Sintra)
6a feira, 24 de Agosto, das 21h as 23h - dado o microclima sintrense ser esperado aparecer, convém trazer uns casaquitos apropriados, que o show é ao ar livre!
Um grande beijo, abraços, e até lá!
Catarina Racha"

segunda-feira, agosto 20, 2007

Acridoce *

O primeiro dia na cidade. Olho para as pessoas. Já tive medo delas. Os meu pânicos são feitos de algodão doce, tal e qual como as núvens do meu tempo-menino. Ou as cores. Um dia, há muitos anos, conheci uma rapariga nas Escadinhas da Escola de Belas Artes. Eu tinha acabado de apresentar uma performance chamada "Às vezes danados!". Ela, estudante de pintura, seduziu-me com as cores das imagens que me descrevia. Já tinhamos falado várias vezes. Eu encontrava-a na Leitaria Garret, com alguns amigos ou conhecidos, amigos de amigos. O mundo era próximo, sei. "Às vezes danados", era o meu grito, entre o exercício teatral e a performance. Fomos para o seu quarto, uma pequena república com vista para o Tejo ali nas Janelas Verdes. Lembro-me de tudo como se fosse hoje. O sabor a medo, o medo da noite, o estremecer, o arrepio de princípio do mundo. Havia apenas a luz do luar, da janela aberta sobre o rio. A cara dela onde tinha inscrito o mapa da sua aldeia. Não sei se jantámos. Ainda éramos pobres. Ela fumou um charro, eu dei uma passa, a medo, só para lhe fazer companhia. E depois ficámos a falar sobre o mundo, dizia-se naquele tempo, os nossos ideais. Éramos artistas, ambos, dos melhores, aos olhos dos pequenos espectadores recíprocos em que nos tinhamos constituido. Eu não sei se um dia saberei falar disto aos que vivem hoje, parece-me um mundo tão antigo, tão dissoluto. E se calhar inútil. Mas disso, dessa inutilidade dos nossos dias não sabíamos naquele tempo. Quando estremecíamos queríamos assegurar o outro patamar do jogo, a memória:
- Um dia mais tarde vais-te lembrar disto? - perguntou-me ela.
- Queres que eu me lembre?
- Claro que quero, porque perguntas?
- As mulheres são tão estranhas. A maior parte pedem-me para esquecer.
- Para esquecer o quê?
- Tudo.
- Eu quero que me lembres.
- Então nunca mais te irei esquecer.
E foi então que fez da minha pele, tela. Pintou-me, por inteiro o arco-iris, a pastel, no chão do meu corpo. Eu estava comovido. Tinha sido educado para perseguir as coisas estranhas e raras e pensava que um dia me iria enfastiar de tanta novidade mas de cada vez parecia que o novo era mais festa, mais alegria. Era como se o inusitado fosse eu por dentro a abrir-me, como se fosse uma flor.
- As tuas cores são tão ardentes.- disse-lhe, quando a minha pele começou a fumegar.
- Ardem-te?
- Queimam-me. São de um calor que ainda não existe.
Ela riu-se.
- Tu amas sempre assim com tanta literatura?
- Estás cansada de mim?
- Tu nunca me cansas. És um homem bonito.
Estava orgulhoso da minha pele translúcida, cromaticamente prolongada com a paisagem.
- É das tuas cores.
Eu, que era um pudorento moço, andei nessa noite nu pela casa, de um lado, a espalhar a minha felicidade. Sentia-me revestido de uma película de mel. Ainda lhe prometi, nunca mais me vou esquecer. E nunca mais me esqueci. Desci a Rua da Adiça com o coração aos saltos, olhava para as pessoas renovadamente, já tinha tido medo delas, um pânico de algodão doce, doce como quase tudo na minha vida. j
[Enquanto ouço Acridoce, in Outra Vida, de João Afonso]

domingo, maio 27, 2007

A cidade em versão mp3

No outro dia aderi ao mp3. Veio com dois auscultadores, o que tem a vantagem de poder convidar alguém para dançar comigo no meio da rua. O mais fascinante é tudo o que cabe lá dentro. Ontem passei a manhã a copiar discos. Lura, Tito Paris, Ildo Lobo, Cordas do Sol, Orlando Pantera, numa gravação mais ou menos inédita, com conversas, uma pequena pérola, João Afonso, José Afonso, Fausto, Jorge Palma, Godinho, Caetano, Marisa Monte, Edith Piaf, Caetano e Chico, Caetano a solo, Milton Nascimento. E ainda vou a meio da capacidade. Agora sou um daqueles autistas que andam por aí com os ouvidos tapados e uma cidade dentro da cabeça. Hoje dei vinte euros ao taxista para pagar 6,50, ele deu-me 3,50, disse-lhe obrigado e saí, com o Fausto a levar-me por esse rio acima. Não há nada que não tenha o seu custo. Chego a casa e a minha perguiça habitual de colocar um cd não tem vez. Escrevo a ouvir Nancy Vieira. Tenho uma data de posts dentro da cabeça - sempre que vou aos Olivais a minha cabeça não pára, as memórias, as sensações, as imagens, cruzam-se prolixamente - e escrevo a ouvir Nancy Vieira.

domingo, maio 06, 2007

Figuinhos da Mina

O tempo que isto é: há vinte e sete anos o Abílio tocava nos Dustra, uma banda dos Olivais. Reconheço aquele baixo. Comprou-o com o primeiro ordenado dos Correios. Tocou nos Grajaú, outra banda formada nos Olivais mas que foi um pouco mais além. E depois a sua vida tem sido isto: música a gozar. Com o Valdez e as Piranhas e agora com estes Figuinhos da Mina. Um bom som, paródico, rapsódico. Música a gozar, a brincar. A seriedade que é necessário para que o gozo se constitua.

terça-feira, abril 03, 2007

Rumor

Ouço música. Música de Câmara, música clássica galega. No violino Evgeny Maryatov e no piano Marianna Prjevalskaya. Tocam a Sonata, Op 37 de Andrés Gaos (1874-1959) e de Manuel Quiroga (1892-1961), Guajira nº1 e 2, Habanera, Alborada e Danza Argentina. Deixo-me ir. A música continua a ser um mistério para mim. A sua base é o ritmo de um corpo e quem sabe o que esse bio-ritmo esconde enquanto acordo íntimo com o mundo, o universo, o príncípio e o fim do movimento? As nossas palavras podem ser quase musicais, as nossas imagens, desde as pinturas rupestres, podem ser delírios, visões, mas nada transcende tanto a humanidade como a música, esse território das sonoridades e das melodias. Diante da música qualquer um de nós se transfigura. Os homens e as mulheres tornam-se possíveis pela música, por esse sussurro, por esse cavalgar harmónico. E tudo o que digo são palavras e as palavras, mesmo as mais belas, morrem no palato. Deixo-me ir. Há uma condição de impossibilidade na relação musical que um corpo estabelece com o mundo. Precisaríamos do silêncio para que essa sinergia estacasse na sua perfeição de apoteose musical. E onde o silêncio absoluto senão na paragem absoluta? Não. Aos vivos não é dado mais que a interpretação do lugar e do momento onde o silêncio ocorre. Podemo-nos calarmo-nos e mesmo assim grita em nós essa ideia de silêncio que nos envolve. Somos rumor, não podemos deixar de ser rumor. Somos rumor em busca permanente do silêncio que, no nosso caso, não é mais do que a articulação melódica do nosso próprio batimento de seres esperançosos, de seres devorados pela esperança.