Acabou o projecto das noites africanas do Aires da Silva no Espaço Cem à Rua de São Julião. Vão acabando por aí as áfricas que, como pequenos sóis, deflagraram com o fim do B.Leza (que agora, itinerante, voltará lá para Fevereiro, no meu vizinho São Luiz). Foi lá que bati o pé pela última vez. Ou terá sido, pela primeira vez?
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quinta-feira, janeiro 10, 2008
sábado, novembro 03, 2007
Paisagem sem título II - O seu país era ela
Ela não via a dança assim. A dança era dentro dela, algumas vezes indiferente, a música insinuando-se devagar, lá longe, outras, num ritmo infernal. Outras ainda, silêncio, e nada. Como se o seu centro fosse um caminho palpável, ora de dor, ora de luz, ora de trânsito infernal. Sentia-se como se o seu par a levasse, outras não, outras ainda, a invadisse, tomando conta de tudo. A ausência é a valsa do desasossego, num rodopio pelo espaço. Ela sempre a achara graça àquela sensação de tontura que sentia quando a levavam para uma valsa, um dois três, um dois três... o corpo mole e tão leve. Uma pausa. Um intervalo. Ela sabia que ele estava lá, dançando ainda, sempre em crescendo,mesmo sabendo que ele o desconhecia. A sua ausência tão presença em si. Para ela, o país era ela. E uma bandeira esvoaçando ali tão alto. Da caixa de comentários do post anterior.imagem: Celta
quarta-feira, outubro 31, 2007
Paisagem sem título 1
imagem: Celta
Dançar e cantar.
Nunca dancei verdadeiramente com alguma mulher com quem tivesse representado o jogo do amor. Digo representei e toda a gente que, paradoxalmente, me ama, ou amou, sabe que o teatro para mim é um lugar de culto. Que não utilizo a metáfora da representação para diminuir o fazer amoroso. O jogo do amor é um lugar imenso, iconográfico, semiótico, onde se absorve a vida enquanto hermenêutica, quer dizer, enquanto actividade de interpretação, de decifração. O amor é um fazer auto-reflexo. Produz a baba, o suco, o próprio viço. O fel, o veneno. Lança sinais para o fora do mundo e é lá, nesse ser em movimento incandescente, que nos revela o segredo das coisas. Porque é que as células se dividiram, se multiplicaram, se reproduziram? Nunca o saberemos. É por isso que o princípio do amor confunde tanto filósofos, artistas e até, politicos. Só não ilude o homem comum.
Nunca amei nenhuma mulher com quem verdadeiramente dancei.
Porque a dança é o amor antes de chegar à fala, ao intelecto, à aventura da razão. A dança é o propósito universal, o segredo escondido, o ritmo, o batimento da vida. As mulheres com quem dancei, com quem verdadeiramente dancei, amei-as assim, despropositadamente, em atraso ou no avanço do tempo. Amar e dançar é morrer. É como dançar e cantar. Nunca ocorrem no mesmo meridiano. Dançar é coisa do silêncio, da apoteose. Do nascer que há no morrer, da vida que há no big-bang que reproduzes quando ris.
Se um dia encontrares alguém com quem dançar, desenha no chão um risco, no risco um país e faz do teu corpo uma bandeira. E esvoaça, que é isso que a dança é.
terça-feira, julho 10, 2007
Estrangeiros alfacinhas
Na Lisboa com olhos de outros que Adelino Gomes vem construindo calhou a vez de Mark Deputter. Cruzei-me com ele algumas vezes em 97, quando eu era adjunto do Carlos Fragateiro no Trindade e ele e a Mónica Lapa vieram ter connosco para nos propor que também participássemos no Festival Danças com Cidade. Apaixonado pela dança como sou acabei por seguir os vários espectáculos, tanto no Trindade como nos outros espaços, assistindo também às conversas com os artistas no Cinearte, depois dos espectáculos. Guardo tanto da Mónica como dele uma viva impressão, como quando estamos perante pessoas raras, de uma elevada sensibilidade e delicadeza. E ainda hoje quando olho para a fotografia dele no jornal apercebo-me de que é também a Mónica que vislumbro, na sua coragem, na sua alegria, na vivacidade com que enfrentou a sua doença.
domingo, junho 17, 2007
Uma nação é uma flor
Deu-lhe um beijo por engano. Ele sorriu, sem o retribuir. Estendeu-lhe apenas a mão, os dedos, cinco. Para que ela os sentisse a estremecer. O que se passa no fim de uma dança já não é da ordem dos pés abruptos e dóceis. Já não é poesia. Lembrou-se de cada segundo. Não se morre em vida para esquecer. Ao princípio tudo parecia a cor de um engate. Um amigo pediu-lhe. Queria dançar com a outra. Ele, mal a viu, percebeu-lhe os olhos, o lance de chão que eles alcançavam, a festa, e pensou, é ela. É ela, a bailarina de pés de fogo. Tudo parecia no entanto destinado a não ser. Primeiro foi ela que convidou um branco, que estava à deriva na pista. Depois foi o negro com cara de criança. Ele não desistiu. Pelo menos foi assim que eu percebi o seu recuo para a janela. Deixou a música acabar e dirigiu-se à pista. Ela tinha ficado momentaneamente sem par. Ele sentiu-se um lince. Num segundo já estava a fazer a festa. Era um dos seus funanás preferidos. Sorriu, cantou, dançou. Às vezes o seu corpo soltava-se, afastava-se dela uns bons dois metros mas uma teia os ligava. Via-se a olho nu. Eu vi. A coisa foi de tal forma brutal que toda a pista parou para os ver dançar. Quem são aqueles dois?, cochichavam as vozes. Eram os dois brancos. Os seus corpos explodiam como se fizessem o mais violento e festivo sexo que dois corpos entrelaçados são capazes. Como souberam que eu estava ali para contar chegavam-se a mim pessoas vindas de todos os lados. Estão a foder?, perguntavam-me. Respondia-lhes o mesmo que agora escrevo: nunca vi uma mulher a simular o orgasmo que uma dança pode ser. Aliás, não foi isso que eu disse. Respondi: nunca em tempos da vida do mundo um homem ou uma mulher podem simular a fusão que uma dança é. Uma dança verdadeira, aquela que se sobrepôe ao sexo do mundo, um bailado, um batimento cardíaco. Era indescritível o prazer, a certeza. Uma dança, quando é dança, é uma investigação ao local onde a vida se constitui. A incerteza do movimento que vem aí, a batida segura de um compasso ritmíco que reproduz a vontade. A tesão. Podia tudo ter acabado assim, ali, e já seria um acontecimento único, excedentário. Ainda era pouco. Eu fui testemunha de que não bastava. Vi-lhes os corpos ávidos de poesia. Era preciso uma morna para ajuramentar os corpos, para os fazer de massa, barro, misturando-os. E eu nunca vi nada igual. Ele falava-lhe num sussuro que se ouvia profundamente, como ressoasse na aparelhagem da discoteca. Perguntou-lhe, de olhos fechados, ainda estamos no B.Leza?, será que morremos?, é isto morrer?, desaparecemos no colo do mundo, ou num glaciar da Patagónia, enquanto a abraçava como se os seus dedos lhe rasgassem a carne, a matéria carnal. Nunca em dias da minha vida tinha percebido que o corpo de uma mulher é como a matéria ondulante de um saxofone, disse ele dedilhando-lhe a pele, as entranhas. Era tudo em volta que tinha fugido de dimensão. O tempo tinha parado. Já não era uma dança. Era a fusão do mundo que se aproximava. Em suspenso. Já a música tinha sido outra, já eles se soltavam, lassos, quando ela lhe deu um beijo. Foi por engano, disse ele, sorrindo-lhe. Uma nação, o nascimento de uma nação, é como o crescer de uma flor. De uma paixão como não há, nunca houve.
quinta-feira, abril 05, 2007
A própria liberdade
Há mais de um mês que não ía ao B.Leza. Hoje uma mensagem amiga ao principio da noite levou-me lá. Eu pensava, na minha ingenuidade, que me tinha esquecido de ser dança. Eu pensava até que, mesmo que me recordasse, era ela própria, a dança, que se tinha esquecido de mim. Engano puro. Não existe amnésia. Talvez um pouco de má vontade. A desculpa esfarrapada, vou só dar-lhes um abraço. A eles sim. À dança, o corpo todo. Há uma inteligência na dança que supera a racionalidade com que toco em tudo o que me rodeia. E eu, no meu voluntarimo e boa vontade penso para mim que essa inteligência bailarina é a essência. A própria liberdade.
sábado, março 17, 2007
Explicava eu hoje a uma amiga a importância da dança. De repente, para exemplificar algo, peguei-lhe na mão. Estava agitada. Não era fugídia. Era agitada. Eu sentia-lhe o movimento interno pelo ritmo. E depois disse-lhe, ou disse-me, acho que foi mais revelação para mim mesmo:
- O prazer da dança fez-me descobrir outra forma de conhecer as pessoas. O seu ritmo.
quarta-feira, março 14, 2007
Dualidade
É assim que eu diria esta dualidade: o meu pessimismo está alojado no cortéx cerebral, o meu optimismo irrompe do batimento cardíaco. Quando danço a festa é de todos, cerebelo incluído. Eu antes, quando tinha dezoito, dezanove anos, e ziguezagueava nas festas das caves dos prédios da vila catió, e mesmo depois, no rock, jamaica, no tóquio, e principalmente no benzina, pensava que não, que a dança era um desconvite ao pensamento. Não me drogava nem me embebedava porque essa nunca foi a minha ganza, mas deixava sempre que o alcoól me levasse à fronteira da consciência. Hoje já prescindo desses suplementos de alma. E porque a festa é dual, já não suporto aqueles lugares que me agridem. É o único momento em que dou razão ao Lopes da Silva, professor na Nova. Estar num sitio esconso, com música a agredir-me os tímpanos, a participar naquele ritual de abanar a cabeça e agitar o copo na mão, é filme que passo. Os meus pés ainda dançam, claro, mas já não suporto estar num sítio a ouvir sempre o meu pessimismo rezingas a picar o meu optimismo bailarino. Divirto-me mais, sou mais alegre, quando eles se entendem.
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