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terça-feira, junho 05, 2007

Jardim do Mundo

Viagens de balão em voo cativo ,Artes Marciais (Tai-chi Sexta, Sábado e Domingo, Instalação Imigração Virtual, Mundo Real, concertos, Quiosque do Mundo Livre e Biblioteca dos Clássicos e Contemporâneos com livre acesso a obras literárias, jogos e leituras da Sérvia e da Croácia e oficinas criativas são algumas das propostas que tornam o Jardim Gulbenkian num Jardim do Mundo.

segunda-feira, maio 14, 2007

Da educação sentimental: A mulher ideal

º
Ao entrar em casa deixo cair um pequeno cubo de acrílico com fotos tipo passe. Estão lá os meus rostos desde criança. Dos meus familiares. De amigos. Quando o vou apanhar reparo numa foto de uma bébé. Era de uma amiga, do meu primeiro projecto de namorada. Digo projecto porque nunca cheguei a namorar com ela. Eu não a conhecia. Escolhi-a através de uma janela, nas aulas de físico-quimica. Quando me contaram que o grupo de rapazes com quem me dava no pátio da escola estava a começar a interessar-se por um grupo de raparigas não quis ficar sózinho. Estava na aula, olhei para o pátio, a minha colega de carteira, a Ester, elenca-me a distribuição, a Elisa é a do Neves, a Lurdes é do Germano, e quem é aquela?, pergunto eu, é a Paula, responde ela, é dessa que eu gosto, disse eu, e antes da aula acabar já estava o namoro de conveniência tratado. Foi giro. Namorávamos assim: levávamos as raparigas desde a escola da Piscina até à Rua Almada de Negreiros onde elas moravam, enquanto falávamos de assuntos pueris, como vestuário beto, das discotecas in e out, dos concertos em Cascais, dos perfumes, Aramis e Paco Rabane eram os preferidos, além de trocarmos fotos, uma actual e outra de infância. É assim que ainda hoje tenho uma foto da Paula com ano, ano e meio. E depois subíamos todos até às vivendas do Aeroporto, e enquanto eles me aterrorizavam com feitos inscríveis do trabalho masturbatório, falávamos das estratégias, que incluiam planos em casas abandonadas, fins de semana na Praia Grande ou nas Azenhas do Mar, para conseguirmos seduzir as nossas namoradas. O Neves chegou a namorar com a Elisa, a Lurdes andou com o Germano, só eu fiquei de fora. Por um motivo nada pueril e que me enrubesceria senão tivesse perdido já todas as vergonhas a que um homem tem direito: ela não tinha peito. E como não tinha coragem de o dizer, inventei outras razões, hábito que continuei a ter pela vida fora. O que foi mau, o Neves e o Germano, mais experientes, podiam-me ter dito que uma rapariga de doze anos, eu tinha quinze, podia ter o peito pequeno mas que ía crescer. E o que cresceu. No ano seguinte desabrochou e sempre que passava por mim parecia que abanava os seus seios salientes para mim como se me desdenhasse. Eu não sabia, mas tinha começado assim uma longa história da minha educação sentimental, a da procura da mulher ideal. Nunca soube o que era a mulher ideal. Houve uma altura que me parecia muito claro que ela seria uma mistura entre a Jeanne Moreau, a Malvina de a Gabriela, Cravo e Canela, Manuela Moura Guedes, locutora de continuidade que ainda não tinha aquela boca do tamanho do mundo e uma rapariga de Odivelas que tinha passado o verão de 77 na barraca ao lado da dos meus primos na praia do Narciso, em Carcavelos. Nem sei hoje qual seria a linha comum entre todas estas mulheres que, na altura em que eu me preocupava com a mulher ideal, me faziam sonhar. Só que depois começaram a chegar as mulheres verdadeiras à minha vida. E eu comecei a perceber que tinha entre mãos um problema muito maior do que aquele que constituiria a busca da mulher ideal. É que quando a segunda, a terceira, a quarta mulher ideal começou a deixar de fazer parte da minha vida, é que eu percebi que a grande questão não estava nesse arquétipo meio juvenil que se foi formando no meu inconsciente sobre a perfeição feminina, a grande questão era que eu, por imaturidade, por cobardia, ou por ignorância, ou por aquele enxame de razões que por vezes nos atacam de forma furibunda, pudesse não saber reconhecer numa mulher uma mulher, pudesse não saber fazê-la senti-la especial, amada, estimada. Não foi uma grande descoberta, ou pelo menos, uma daquelas descobertas que nos fazem mais alegres. Saber que a mulher ideal nunca me baterá à porta, que ela vive há muito dentro de mim, pode fazer-me, circunstancialmente, um ser humano mais apessoado mas é, inúmeras vezes, ocasião para sofrimentos próprios e alheios cuja medida certa nunca sei contabilizar.

sábado, maio 12, 2007

Girasol

Gosto de uma flor quando brilha, encandescendo tudo com a sua autonomia de luz.

quinta-feira, abril 19, 2007

domingo, abril 08, 2007

Flores

No outro dia comprei um regador e dois vasos de metal colorido que vi numa das lojas de venda de bagatelas. Era para experimentar no trabalho que uma actriz está a fazer com o poema, "A Morte é uma flor", de Paul Célan. Depois, não sei porquê, no outro dia ao passar no metro do Chiado, deram-me um pacotinho de sementes misteriosas. Digo misteriosas porque não tinham nome e fazia parte do jogo, não saber que plantas eram. Mais tarde comprei sementes ali numa loja do Martim Moniz. E comprei terra numa loja da Graça. Vou ser floricultor, pensei. Num dos vasos coloquei as sementes que comprei, de umas flores muito bonitas de cujo nome já me esqueci. No outro as tais sementes misteriosas. Coloquei-os ao dois lado a lado em cima da máquina de lavar roupa, ao pé da janela. Os dois apanham, durante o dia, para além da luminosidade farta da janela virada para sul, poeira de luz dispersa por aquele pequeno fio de espelhos que veio da Celta. Das plantas misteriosas começou por nascer um pé com folhas verdes, subindo afirmativas. Ao lado, depois, vieram outras duas, muito mais pequenas, duas frágeis folhas encostadas à terra, mas ainda assim visiveis, existentes. De uma vez reguei-as tão abundantemente que a água formou um pequeno dilúvio que alagou tudo e separou as plantas da terra. Agora deixo-as estar. É a luz que as rega e parece que a luminosidade voltou a dar os seus frutos.