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sexta-feira, maio 06, 2011

Fim de tarde na Gulbenkian, no outro dia. Na hora em que os patos começam a tomar conta de tudo em voos rasantes às nossas cabeças. E que fazem slide na água. A hora do recreio. Depois, da mesma forma desaparece o barulho e ficamos nas pequenas coisas. O reflexo pasmacento das águas. Aquele rapaz a fazer a sua prática de yoga. Um para de namorados. A rapariga que lê Cartas a um Jovem Poeta. E de repente três tartarugas ( ou seriam cágados) que se aproximam de nós. A cidade, como tantas vezes, lá fora. Há ali um micro clima de silêncio, de quietude que saboreamos.

terça-feira, agosto 21, 2007

Jardins que brilham

Encontro no jardim uma amiga, uma daquelas amigas que nascem do trabalho e cujo contacto embora morra com a mudança de azimutes profissionais nunca se desfaz. Brinca com o filho e com o marido. Este está de volta de outra criança que por sua vez está acompanhada de uma senhora que presumo, seja uma ama. Começamos a falar. Primeiro dos amigos comuns, depois dos negócios e finalmente da família. Pergunto-lhe se o rapagão é dele. E depois, como o marido continua a brincar com a outra criança, pergunto se também é deles. Ela afasta-se para um canto mais reservado e diz:
- Estamos no início do processo de adopção da Debra.
Está nervoso. Tanto ela como o marido e Miguel, o filho, trocam olhares cúmplices. Estão varridos por uma festa que também me toca. É como se fosse fugaz testemunha de um parto, de um nascimento. O processo da adopção já tem quatro anos e é a segunda vez que estão com a Debra. Miguel leva-lhe o chapéu, a pedido da educadora que acompanha a criança em processo de adopção. Ele fala-me também da forma como tiveram de envolver o Miguel neste trajecto e dou-me conta que isso lhe deu uma estranha e brilhante responsabilidade. Deixei-os no jardim. Com os meu botões ía a pensar em como as pessoas brilham quando se lhes passa um afecto por cima.

sábado, julho 14, 2007

Jardins de Lisboa

Trouxe o portátil para o jardim. Não consigo encontrar uma rede amigável. Quando me preparo para ir embora encontro um espanhol. Está cheio de pressa. Tem uma panela de arroz ao lume, confessa-me. Não é preciso fazer nada, diz, é só ligar. Sento-me ao lado dele. Talvez seja do lugar. Catrapisco o que ele veio fazer, assim, cheio de pressa. Veio ver um site de apostas múltiplas. Entre o arroz e a sua cozedura veio ver se lhe tinha saído a sorte grande. Gosto deste saber dos outros por imaginar o que está dentro deles. O sitio onde escrevo não é o mais confortável. Tenho o portátil em cima das pernas. Não há outro lugar. Nas mesas os velhotes jogam às cartas. Ainda pensei em ir para o coreto. Também não. Está cheio. Sentei-me num banco de jardim ao pé desta grande árvore. Gosto do tempo nos bairros antigos de Lisboa. Gosto da vida nos bairros antigos de Lisboa. Já gostava dela, há muitos anos, antes de haver Lisboa, ou quando ela era apenas uma miragem. Gosto do gosto, de gostar, de querer, da querença. Gosto da pele. Amo a pele. Eu nunca sinto a minha pele quando estou sozinho. Só quando a encosto a outra pele. A pele de um outro devolve-me a consciência de ser pele e esta, atira-me para a noção de que existo dentro de mim. Suporto a solidão como um interlúdio. Nada desta vida tem sentido senão for este negócio de uma pele se reconhecer numa outra pele. Um dia talvez alguém venha de fora dizer-me que enlouqueci. Que deveria ter cuidado de mim enquanto estava só, de que deveria ter murmurado frases-chave, ideias-fortes, slogans da politica do eu. Não sei. Há pessoas que estremecem por saber que todo o modo como vivemos, desde a maneira como vivemos com os outros até à forma como nos entretemos como estamos sós, poderia ser de outro modo. Ficam instáveis, irritadiças. Eu não. Aceito o jogo com crescente ludicidade. A tranquilidade vem-me da respiração, não do pensamento.