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quarta-feira, abril 07, 2010

Quando me falares outra vez da nossa superioridade moral, lembra-te do que eu vi. Lembra-te, com os mesmos olhos com que te vejo, vi isto. Vê tu também. Para que falemos da mesma coisa.

terça-feira, dezembro 30, 2008

O que fazer por Gaza?

Estou na RTP2 e ouço do jornalista uma frase recorrente, a da necessidade de israelitas e palestinianos viverem em paz. A frase fica a soar-me algum tempo até pousar suavemente no horizonte. Esta frase, generosa, altaneira, não deixa também de esconder o mapa da nossa incapacidade de compreender o que se passa naquele ponto do Médio Oriente. E não se deixem levar pela felicidade da arrogância desta ideia: reconhecer a nossa incapacidade de compreender não é -ainda?- sinal de uma capacidade de compreender. É qualquer coisa mas a coisa que será é, mais uma vez, a evidência de que não vivemos no mesmo lugar do mundo que criámos. Nós - aqueles que me lêem depois de terem tomado o café da manhã e antes da pausa para o almoço - precisamos de viver em paz. Os israelitas e palestinianos não. Os israelitas e os palestinianos não são como nós. Eles precisam de conseguir (sobre) viver em guerra. Talvez se não se investisse tanto na paz - enquanto construção idealista e até retórica - e mais na capacidade de, no estado de desconfiança permanente, se criarem condições para a circulação entre territórios, de crescimento da economia palestiniana, de capacidade de concretização da ajuda internacional, no respeito pelos direito à vida quotidiana, ou seja, na possibilidade de que o estado de guerra sempre latente em que vivem aqueles dois povos não provoque sempre o mesmo inevitável sequestro do mais fraco pelo mais forte, talvez já tivéssemos começado a ver as coisas de outra maneira. Não me parecem muito interessantes as posições que tentam perceber a razão dos ataques israelitas através dos ataques do Hamas. Nem a desvalorização da legitimidade democrática do governo do Hamas. O dado novo do problema israelo-palestiniano, e um dado novo terrível, é exactamente esse, a legitimidade democrática do actual governo da Palestina. Ou seja, esta frase deve ser dita com reservas porque decorre das condições emergentes de uma das mais recentes democracias do nosso mundo. O Hamas ganhou legitimamente o acto eleitoral mas só numa democracia a constituir-se num dos lugares mais violentos do nosso mundo é que uma força política pode ser constituida por um verdadeiro exército paralelo que se entrega ao juízo dos votos nos actos eleitorais e à luta armada fora deles. É preciso ver para além do fumo: os palestinianos quando votaram no Hamas mimetizaram a atitude dos seus vizinhos quando escolhem falcões sanguinários para governarem o país. Ariel Sharon era um terrorista do calibre dos seus inimigos do Hamas e o povo israelita escolheu-o democraticamente, conferindo-lhe legitimidade politica. Na altura todas as pessoas decentes, como nós, atiraram as mãos à cabeça e pensaram, a paz nunca será possível com um tipo que faz da provocação a sua arma politica. Da mesma forma também lançámos as mãos à cabeça quando o Hamas ganhou as eleições. Outros, mais cínicos, que não nós, concluiriam lestos: as pessoas decentes, como nós, devem tentar não se imiscuir nos assuntos israelo-palestinianos. Deveríamos continuar a tratar dos nossos negócios na sombra dos dias do médio oriente. Eis a lição do cinismo e é bom não esquecer, só a longo prazo é que o cinismo torna a nossa vida insuportável: deveríamos fazê-lo, enquanto falamos as duas linguagens a que sempre nos habituámos: guardarmos os nossos interesses e penitenciarmo-nos por, no entendimento geopolitico que fazemos da politica do medio oriente, darmos prioridade à protecção dos nossos interesses. Para nós é impensável que os guerrilheiros do Hamas ou falcões como Ariel Sharon sejam os melhores politicos para fazer com que os povos israelitas e palestinianos possam viver em paz. E por isso não conseguimos entender que para os povos israelita e palestinianos estes terroristas, em determinado momento histórico, possam simbolizar os politicos que lhes permitem (sobre)viver em guerra. Há um rasto de incomprensão. De certo que nas áreas destruídas de Gaza também não compreendem como é que eles podem ser peões de brega de um jogo de interesses de pessoas decentes como nós. Nem que decência é a nossa. Há pouco vi um Shimon Peres expressar o dilema terrível do governo israelita: o Hamas provocou o governo israelita ( o próximo acto eleitoral já se faz sentir) e Israel não pode encontrar soluções políticas com terroristas. Mas só um louco poderá pensar que iria conseguir restaurar o equilibrio politico na Palestina à força da bomba. É, mais uma vez, a politica israelita a fazer-se sentir, e a condicionar, a politica americana. É claro, mas só não o podem ver os que estão dentro do caldeirão a ferver, com o Hamas no poder o radicalismo israelita ganha expressão, com o radicalismo israelita a crescer, o Hamas ganha credibilidade e força política. É altura de nos perguntarmos, pensando para além dos nossos interesses na zona, o que é pessoas decentes como nós - que fazemos parte de democracias centenárias e respeitáveis - podem fazer para acabar com este pesadelo para além deste negociar na sombra.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Territórios ocupados pelo horror

Todo este processo é de uma grande crueldade. No outro dia os jornais publicaram a foto dos palestinianos em cuecas, de braços levantados, para demonstrarem que não traziam armas. Depois, o presidente da Autoridade Palestiniana exigiu-os para uma guerra que eles já não querem sua. Ao voltar foram presos pelo Hamas. Leio estes casos de pressão sonre os palestinianos que necessitam de receber cuidados médicos em Israel. Eu já não sei onde me situar no meio disto tudo. Não sei.

segunda-feira, outubro 01, 2007

"Oriente Próximo",

O novo livro de Alexandra Lucas Coelho, editado pela Relógio d'Água, é lançado amanhã, dia 2 de Outubro, às 21h30 na Sociedade de Geografia, às Portas de Santo Antão. Apresentação de Adelino Gomes, com leitura de excertos e algo de alaúde.

terça-feira, agosto 28, 2007

Brigadas da Contra-Informação.

Eu espero que aquelas horas esquecidas que passei na rede do limoeiro me tenham dado a teimosia suficiente para o confronto que quero ter aqui no Respirar com a linguagem. E eu já percebi pelos últimos posts que não será fácil. Há alguns anos Valere Novarina e o seu trabalho sobre o linguarejar tinham-me chamado a atenção para a necessidade imperiosa de devolvermos à linguagem a sua possibilidade interpelativa. Arrumei isso na gaveta do trabalho estético e criativo. Pensei, tenho de escrever como se escavasse um buraco no meio da linguagem. É nesse escuro, nesse negrume que a proferição se rejuvenescerá. Mas essa preocupação reservava-a exclusivamente para os meus textos teatrais. Sempre encarei o escrever no blogue como uma pré-escrita. Um lugar onde eu poderia ser e não ser, onde eu poderia ser inconsequente, inconstante, reflexivo, literário, piegas, sentimental, uma auto-terapia do existir.
Nestas férias pude no entanto perceber que as coisas estão bem piores do que eu pensava. Não se trata de uma questão estética. É uma questão política. Como blogger faço parte de uma comunidade bastante intelectualizada, quer dizer, que tem grande parte da sua vida construída através de referências do pensamento, da arte, da cultura, da política e por isso sempre desvalorizei o impacto da catástrofe que intelectualmente sentia que a linguagem estava a atravessar. Pensei que nos campos, nas aldeias, nas vilas, no interior das vidas amáveis que sempre soubemos construir estes artefactos comunicacionais não tinham quase valor nenhum.
Não é verdade. A situação é ainda mais catastrófica do que o meu pessimismo poderia alcançar. Já não existem campos, nem vilas, nem aldeias e as nossas vidas amáveis estão irreconhecíveis. O ter ido para férias quando o caso Maddie estava no seu epicentro deu-me a oportunidade para perceber que tipo de informação tem privilégios de produção de sentido fora dos grandes meios urbanos. É telenovela, noticiários e missa de domingo por esta ordem de importância.
O que tudo isto produz é um verdadeiro terrorismo da comunicação. Muitos de nós espantaram-se há uns anos com a possibilidade de implantação de retóricas fundadas no irracional como, por exemplo, a da guerra ao terror de George W. Bush. Ora o que aí vem ainda será pior, mil vezes pior.
E eu não sei o que verdadeiramente um blogger pode fazer, ou melhor, o alcance que poderá ter aquilo que ele pode fazer. Creio que nisso teremos de ter a paciência do agricultor que lança a semente ao chão e só saberá na primavera se o seu esforço foi produtivo. Poderemos começar a formar comunidades assentes no laborioso trabalho da contra-informação. Células anti-terroristas. Trabalharemos por casos como os terroristas da comunicação. Célula Contra Informativa no Caso Maddie por exemplo. Faremos reuniões de célula, de rede, de brigada no Second Life. Guerrilhas do pensamento. Pensar é estranho. Parece que nos afasta do lugar onde realmente estamos. E do lugar actual ainda mais. Provavelmente os vindouros já virão com o pensamento formatado para se adaptarem a esta reconfiguração ideológica da verdade, da mentira e já não sentirão esta nossa angústia de filhos da guerra fria.
A nós ainda é ela que nos ilumina.

sexta-feira, junho 15, 2007

O que é que se passa lá fora?

Não é o barulho do vento. Hoje fui supreendido pelos relatos da violência na Palestina. Não vejo televisão. E já não leio os jornais do Oliveira, nem do Belmiro. Quer dizer, por vezes encontro-os, ao lado dos metros, dos destaques, no Vertigo, mas quase nunca vou só e já nem os leio. Dou de caras com as notícias e sinto-me em falta. Eu aqui preso às minhas paisagens interiores, a falar de ódios uterinos e um grande ódio a tomar conta de todo o horizonte na Palestina. O que se passa?

domingo, abril 22, 2007

Livro de bolso: Contra o fanatismo

O meu livro de Amoz Oz começa a ficar com verrugas, feridas, marcas. Anda comigo no bolso esquerdo das calças há alguns dias. Talvez seja para muitos uma forma desrespeituosa de tratar um livro. E eu, sem grande convicção, anuirei, como quem deixa a banda passar. Compenso-o de muitas formas: com aquele prazer com que, sempre que vou à minha esplanada, descubro que afinal tenho um livro para ler; com a atenção com que me dedico a ler os vários ensaios do escritor israelita. E finalmente, com a boa disposição com que fico depois de ler os seus textos em que uma das maiores tragédias políticas da actualidade é visitada com um sadio humor. Uma ideia de Amoz Oz contra o fanatismo: imaginação para nos colocarmos no lugar do outro.

quarta-feira, abril 18, 2007

A aventura totalitária

Uma das situações que considero mais inquietantes na nossa vida contemporânea é o modo como permeabilizámos os nossos sistemas de representação (social, cultural, política, etc) à avalanche de um novo tipo de totalitarismo e autoritarismo que se constituiu como discurso não assinalado pelos habituais detectores de signos totalitários. Conseguimos facilmente identificar a xenofobia, o racismo, o nacionalismo, as apologias dos diferentes movimentos de natureza neofascista, como manifestações emergentes de um discurso totalitário, mas temos uma grande dificuldade em apercebermos da forma como o modo como organizamos a nossa vida, como falamos de nós e dos outros, como constituímos pensamento, cria por um lado uma disponibilidade interior para a emergência dentro de nós do modo de ser-estar totalitário e por outro uma atitude negligenciadora e mesmo disciplicente em relação à critica dessa irrupção do totalitarismo. São dois momentos diferentes mas que parece obterem um estranho conluio, só que um, o primeiro, caracteriza-se por uma euforia, uma exaltação e o segundo por um medo de que ao pensarmos percamos a conexão com o real. O primeiro é a euforia da publicidade, das mitologias reinantes, do simulacro e da simulação, da realidade já sem marcas de real. Deveríamos um dia poder gravar as conversas sobre o quotidiano. Sobre o que vestimos, sobre o que vemos na televisão, sobre o sexo, sobre o género, sobre o que compramos, sobre o modo como nos divertimos, sobre os modos como porporcionamos divertimento aos nossos filhos. Depois iríamos à arrecadação buscar uma daquelas grelhas de análise estruturalistas e contaríamos quantos vocábulos que expressam uma ideia, um desejo, uma ânsia de totalidade utilizámos e qual a reacção do nosso interlocutor face a isso. Ou seja, a rapidez com que se identificou totalmente com aquilo que dissémos, muitas vezes alargando o contexto desse afecto totalitário. O eu penso ou o eu acho, quando muitas vezes nem houve tempo para aquela operação que pode qualificar o pensamento, a operação de vinculação a uma experiência, seja ela imaginária ou real, e muito menos a procura de uma identidade. Os nossos espaços quotidianos são muitas vezes múltiplos workshops interpessoais onde experimentamos a vivência do totalitarismo, naturalizando-o, interiorizando-o. Os jogos tipicos do desenvolvimento infantil como o mimetismo, levamo-los pela vida fora, sempre. Somos pequenos protótipos de mesmificação. E por outro lado, tentamos anular a nossa tendência para sermos acção e crítica da acção. Critica para quê, se é por ela que nos individualizamos e nós queremos tribalizarmo-nos? É de notar que as tribos modernas evoluiram muito, desenham-se na heterogeneidade, na multiplicidade, na diversidade. O grande problema: isso não é só falso, é também verdadeiro. Realmente as nossas tribos estão mais abertas ao diferente, ao diverso, tanto no plano discursivo como no plano pragmático. Só que nem sempre o tempo joga a favor da actividade crítica. É preciso formar opinião muito rapidamente. E como permanecem activos os dispositivos ideológicos do pós modernismo e do relativismo, tudo se tornou ficção, ficcionável. Para quê esse investimento na realidade então se tudo pode ser relativizado? Por exemplo, houve um caso muito falado recentemente sobre uma sentença de um julgamento que envolvia o Público e o Sporting. As posições de uns e outros estavam expressas no mesmo ciberespaço onde estavam o acordão do tribunal. Isso não impediu que, independentemente da divergência de pontos de vista, estes fossem formulados a partir de dados contraditórios uns com os outros. É apenas um exemplo. Todos nós * conhecemos essas marcas no real que habitamos.
O que eu quero dizer é que quando no plano ideológico e político nos apercebemos que se está a forjar uma dicotomia, um exarcerbar maniqueísta, que visa permitir aos sistemas ditos democráticos responderem de forma totalitária, já é demasiado tarde. Já, nos nossos dias, incorporámos de tal forma a aventura totalitária que perdemos a capacidade de nos ligarmos e conectarmos com o outro. Ele é uma ameaça.
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* Estava já a corrigir o post detectei esta marca de totalidade neste mesmo texto. Como é que eu sei que todos nós conhecemos estas marcas no real que habitamos? Fiz algum estudo, andei a perguntar?

Contra o fanatismo

" No entanto, não afirmo que qualquer um que levante a voz contra alguma coisa seja um fanático. Não sugiro que qualquer um que manifeste opiniões veementes seja um fanático, claro que não. Digo que a semente do fanatismo brota ao adoptar-se uma atitude de superioridade moral que impeça a obtenção de consensos. É uma praga muito comum que, certamente, se manifesta em diferentes graus. "
Amoz Oz
Cruzo Amoz Oz com Ken Wilber, Uma Teoria de Tudo. O fanatismo situa-se no Meme Azul: Ordem Mítica e (segundo os estudos de Don Beck e Chris Cowan (Spiral Dinamics: Mastering Values, Leadership and Change (Cambridge, Mass. :Blackwell Publishers, 1995) representa 40 % da população mundial, detentora de 30 % do poder. Como estes diferentes níveis não são estanques, há uma oscilação de discurso com os memes que o antecedem. Não sei quais os parâmetros de avaliação do poder, utilizados pelos investigadores neste estudo. Ou para ser mais concreto, o peso que a possibilidade de dominar o processo de comunicação é entendido para a determinação da percentagem de poder concentrado num determinado meme da espiral. Porque, e estando no terreno especulativo a partir das conclusões de Beck e Cowan, sendo já muito grave que em pleno século XXI 40% da população mundial, detentora de 30 % do poder esteja vinculada ao fanatismo, o mais preocupante é sabermos, dados os processos próprios da dinâmica comunicacional, que, em momentos de crispação aguda, o ensurdecer fanático pareça ser a única voz audível no planeta global.
Amoz Oz e Ken Wilber são rigorosos na percepção da condição de sobrevivência do fanatismo: a necessidade de aniquilar o outro. Por isso quando perguntarmos o que fazer face a este cenário incendiário deveremos pensar também em construir formas de reconhecimento, e prevenção, das tentativas forçadas de criar períodos ou momentos de crispação absoluta, que são, sublinhe-se, os modos do existir fanático. É que depois já pouco se pode fazer. Tudo é propaganda e o próprio gesto pacífico e não violento pode ser utilizado como material combustível para incendiar de novo o terreno. Tem de ser antes. Porque provavelmente não é uma luta do fanatismo contra o pragmatismo como anuncia Amoz Oz. Ou talvez não seja a melhor maneira de a dizer. É uma luta do fanatismo contra o fanatismo, que tende a desmobilizar o pragmatismo. Essa é a grande e terrível questão: o chegarmos a admitir que para combater o fanatismo temos de ter um fanatismo sem limites. Ou seja, a abandonarmos o pragmatismo, a convivialidade, a integração.