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segunda-feira, janeiro 11, 2010

O Lado B

Não sou melómano. Sempre tive uma grande dificuldade para a música. Para a concentração, para o canto. Desde tenra idade. Lembro-me, era cachopinho, cantávamos no coro das crianças, em Mafra, o que eu gostava era as partes em que cantávamos todos juntos, disfarçava-me na pequena multidão de vozes. Com o tempo tentei várias estratégias contra isso. Tive aulas de voz e canto, quando fui actor. Ouvi detrás para a frente as músicas, tentando identificar os vários instrumentos. A verdade é que por uma razão ou por outra, nunca desenvolvi essa aptidão. Se coloco um cd passado dois ou três minutos já nem me lembro que o coloquei a tocar. Quando os discos eram de vinil, voltava incessantemente a colocá-los no princípio, para tentar ouvir finalmente as música sem nunca virar o disco, para ouvir o outro lado. Vejo agora que isso talvez me tenha moldado o próprio pensamento. Nunca me preparei o suficiente para o lado B e por isso, quando o vinil deu lugar ao cd, adaptei-me à nova linguagem tecnológica sem me aperceber que me faltava algo de fundamental: a compreensão da importância do Lado B. No amor, no trabalho, no lazer, em tudo. O que aprendemos nos primeiros anos da infância e da adolescência molda-se aos nossos gestos como se fôssemos nós próprios e a certa altura, insanos, até defenderemos isso como a nossa identidade. E esta minha tendência para voltar ao princípio da música, ou, como quem diz, do amor, de uma profissão, de uma maneira de estar, se me foi agradável, porque me distinguia dos outros e para o olhar de fora é sempre refrescante ver o mito do eterno retorno a desvanecer-se diante dos nossos olhos, talvez me tenha impedido de perceber o quão sombrios por vezes somos e de como a nossa vida também é iluminada pelas nossas trevas. Eu sei: isto é qualquer coisa que qualquer um de vós que me lê e que não se formou da mesma maneira que eu, tem como adquirido e por isso estranhará a forma como só agora, tão tardiamente, isso me surja no pensamento.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Amabilidade

Acordar de manhã.
A nova linha da Ritual de gel e esfoliante de ginseng e eucalipto faz muito pela felicidade moderna.
O corpo exulta devagarinho,
como o compasso de uma melodia
entretanto esquecida.
Há também alguns complementos da body shop. O gel refrescante de menta para as pernas, a
loção de corpo de alfazema que ainda resiste. Não os
devia enunciar já que estou furioso por terem
descontinuado
a minha linha preferida, gel e loção de corpo,
com essências de lavanda,
sou louco por lavanda,
era uma das partes melhores do ficar doente na infância,
aquele cheiro a alfazema queimada a respirar o mesmo ar,
no outro dia,
naquela drogaria da praça das flores,
encontrei um daqueles frasquinhos verdes
que se usavam antigamente,
assim me disse no outro dia o vendedor,
ele e a mulher,
contentes por aquele cheiro a velho e a humidade da pequena drogaria,
mais trinta anos do que eu,
é o que usavam os nossos avós,
disseram,
incluindo-me naquele nós,
só por eu procurar um 4.4.4. loção para a barba e pedra branca,
sou louco por lavanda,
comprei um frasco,
besuntei-me pelo caminho,
tapando o meu estimável l' eau d'issay miake,
quando cheguei ao teatro fedorava de ach. brito,
parecia uma sopeira,
do antigamente,
nunca mais o usei assim,
indiscriminadamente,
teve um triste fim,
partiu-se,
vazou-se sobre um caderno de apontamentos moleskine,
engraçado,
agora que falo disso,
o caderno ficou com um cheiro muito agradável,
lembram-se daquelas borrachas de antigamente,
perfumadas?
assim também os meus cadernos,
vou propôr isso à moleskine,
uma nova linha de cadernos,
perfumados com lavanda.
Acordar de manhã assim,
com a pele da tua marca na minha pele de marca, nunca descontinues
a tua pele,
a linha da tua pele,
o seu cheiro, suavidade, espessura, densidade,
esse olhar macio e terno com que
expressas a nossa fome,
essa tesão brutal que já vem
do antigamente.