sexta-feira, agosto 24, 2007

Dalila e o Estado

O caso de Dalila Rodrigues rebentou estava eu já a pensar em férias e por isso também em relação a ele estive offline. Mas no outro dia recebi um email de um amigo a convidar-me para assinar uma petição de apoio a Dalila. Fui lê-la e percebi que se tratava afinal de uma petição contra a política deste Governo em relação à cultura e muito concretamente em relação à actividade dos museus públicos. Não assinei, não me agradam estas petições dois em um. Ainda ponderei mandar-lhe um email a explicar-lhe porquê. Mas depois pensei melhor, as pessoas passam e repassam estas coisas e nem pensam muito a sério nelas, ele provavelmente nem iria compreender e iria gastar-lhe o seu tempo, e o meu. Além disso tenho eu um blogue para quê?
Eu assinaria todas as moções e petições e todas as cartas de reconhecimento e agradecimento ao trabalho que Dalila Rodrigues exerceu no Museu de Arte Antiga. Por outro lado não teria nenhum pejo em assinar um documento crítico em relação à política cultural deste ou de qualquer Governo, desde que em relação a domínios sobre os quais eu, com conhecimento de causa, pensasse que a acção do Governo era negativa. O que não me apetece é estar a assinar uma petição de apoio a Dalila que, como não é verdadeiramente uma petição de apoio a Dalila, não entendo.
No caso de Dalila Rodrigues, e li apenas a sua entrevista a um semanário e várias informações avulsas, bem como uma carta resposta de Manuel Bairrão Oleiro, eu creio que o grande apoio que se lhe pode prestar é deixá-la ir para a iniciativa privada. A alternativa seria nomeá-la directora do organismo gestor dos Museus mas não se vê como tal seria possível já que Dalila disse que não voltaria a trabalhar com esta ministra. É claro que se poderia pensar em substituir a ministra mas talvez isso seja um pouco excessivo. Além de que o primeiro ministro também não mexeu uma palha pela Dalila e por isso é natural que esta também não queira trabalhar com ele. Ora por muitos arrufos com que Cavaco possa querer pontuar o seu namoro com Sócrates, não creio que ele considere também uma situação que mereça o despedimento do primeiro-ministro.
Por outro lado, mesmo que tudo isso pudesse acontecer, e por mais brilhantismo que Dalila tenha, e os resultados que atingiu comprovam-no, ao ler a entrevista que li dela, fiquei com a pulga atrás da orelha em relação à real vantagem de ela estar a trabalhar para o Estado. Sinceramente creio que poderá ser um péssimo negócio quer para a Administração Pública quer para a própria. Fiquei com a impressão de que ela é uma daquelas pessoas que, numa Administração Pública fragilizada da definição de uma missão e de um sentido de missão, conseguem criar a sua própria missão de enquadramento, que, assim, funciona como uma pequena ilha. E que manejam os seus resultados pessoais como evidências que se sobrepõem à necessidade de uma integração numa dimensão mais global, seja um trabalho de equipa, seja uma directiva comum, seja uma politica integrada.
O director do organismo que gere os museus pode ter muitos defeitos, pode não perceber nada de museus, pode até não perceber nada de gestão de equipa, mas tem a obrigação ( e não o direito) de organizar a sua equipa em função dos resultados que pretende obter. E, perdoem-me o paralelismo com o mundo do futebol mas parece que se entende mais facilmente o futebolês, entre ter um avançado que marca muitos golos, ganha muitas botas de ouro mas trabalha pouco para a equipa e entre ter um outro com menos resultados espectaculares e mais sentido de equipa, ele tem o direito de escolher aquele que acha que vai produzir um melhor trabalho. É curioso que a visão de Dalila seria perfeitamente aceitável se defenida pela sua tutela, e teria o seu valor como um objectivo e um estimulo à gestão descentralizada, mas deixa de ser tão aceitável quando se trata de uma pressão para que exista uma política para os museus e uma situação de excepção para o Museu de Arte Antiga. É evidente que se Dalila Rodrigues enquanto Directora do Museu de Arte Antiga quer, desta forma, impôr a sua visão ao Ministério, será ponderável pensar que se ela ocupasse o lugar de Manuel Bairrão Oleiro talvez nem tivesse esperado que este tivesse acabado a sua comissão de serviço e muito menos, que tivesse levado à tutela a opinião do seu colaborador.
A narrativa do "autoritarismo político" deste governo, por muito que adquira vencimento por se ajustar como uma luva a algumas características idionssincráticas do chefe do governo, talvez não nos permita perceber este caso. É evidente que todos gostaríamos que Dalila pudesse continuar a fazer os seus brilhantes resultados no Museu de Arte Antiga e que ao mesmo tempo, a tutela pudesse continuar a realizar politicamente aquilo pela qual terá de assumir a sua responsabilidade política. Mas parecerá ilegítimo que uma directora de um Museu tente condicionar uma regulação política do sector usando para isso o seu prestígio e os tributos mecenáticos alcançados.
Dalila Rodrigues parece que tem uma visão do que deve ser a política de gestão dos museus que é descoincidente daquela que é a do Director da entidade que gere os museus e que, pressuponho, estará em consonância com a do Ministério da Cultura. É também uma acérrima contestatária do projecto lei que irá regular o funcionamento dos museus portugueses, defendendo um estatuto diferenciado, com uma dependência funcional do "seu" Museu ao nível do Ministério. Terá expresso isso ao seu Director que, por sentir que o que Dalila estaria a fazer seria o pôr em causa de algo que o transcendia, a remeteu para o Ministério, dando-lhe a entender que a partir daí seria uma conversa entre ela e o Ministério. Não sei onde isto poderá ser depreciativo para o Director. Ele poderia ter guardado para si o documento de Dalila, não, fê-lo seguir mesmo não concordando com ele.
Como disse percebo mal as razões e o enquadramento do que deve ser uma politica museológica. Do que li julgo que um dos diferendos principais entre Dalila e a sua tutela terá sido a de que esta entendia que os resultados de cada um dos Museus deveria entrar para um fundo comum e Dalila pretendia que os frutos do seu trabalho fossem geridos dentro do orçamento do seu próprio museu. A não ser assim, Dalila estava a contribuir para os outros museus. É claro que tudo isto é discutível. E Dalila Rodrigues terá tido oportunidade para o discutir. Primeiro em equipa, enviando um documento para o seu superior hierárquico que fez transitar a sua opinião até à tutela. Só que ela não conseguiu impôr a sua opinião. E terá achado necessário chamar à colação a opinião pública. Aquela para quem Dalila, como estrela da equipa dos directores de Museu trabalhava e onde estavam aqueles que viam os resultados do seu trabalho. Tentando através dela condicionar o próprio projecto-lei.
Não sei se sei do que falo, falo a partir do que sei: conheci e trabalhei com pessoas que em tudo, no brilhantismo, no egocentrismo, na capacidade de usar em benefício das suas estratégias pessoais de poder o crónico vazio de missão que grassa na administração pública, se assemelhavam a Dalila Rodrigues e que embora tenham conseguido ser personalidades públicas de primeiro plano na vida cultural portuguesa, hoje pouco ou quase nada resta dos trabalhos que lideraram, somente talvez - o que é decerto uma enorme injustiça que o tempo faz a estas pessoas providenciais - as incongruências. Conheci e trabalhei também com equipas criadas por dirigentes que lhes atribuiram missões clarificadas em torno de estratégias assentes em prioridades facilmente absorvíveis pela dinâmica dos respectivos organismos, que, por exemplo, investiram na informatização, na formação, no desenvolvimento de áreas novas de intervenção. Mesmo que algumas destas equipas, devido a processos de natureza política tortuosos tenham visto alguns dos seus dirigentes serem demitidos politicamente e os seus nomes enxovalhados por situações que o tempo ainda não esclareceu, hoje não há nenhum gesto funcional naqueles organismos que não sejam tributário do trabalho de equipa que neles foi desenvolvido.
E é por isso que eu acho que há alguma justiça na situação. E continuo a pensar, como já o pensava com Paulo Macedo, que o que precisamos na Administração Pública não é de mitos, de mitemas sobre resultados, sobre a propalada eficácia da iniciativa privada. Em terra de cegos qualquer gestor com uma folha de excel, um quadro de power point ou uma apresentação interactiva com resultados é rei, por mais breve que seja o seu reinado. O que precisamos é de um serviço público com missões correctamente defenidas, com equipas qualificadas e ajustadas ao seu desempenho, investidas de espirito de missão, integradas em planos de formação profissional, com experiências de gestão participadas. Se isso houver os resultados aparecem e de forma duradoura.
Ler também Sofia Loureiro dos Santos.

3 comentários:

eduardo graça disse...

Caro J.: com esta tua posta concordo e devo ser dos poucos que entende, em pleno, alguns parágrafos e dos poucos que é capaz de por os nomes que omites. Não esqueci a tua resposta aquele meu comentário antigo. Espero lá voltar e quanto ao tema das injustiças que referes tenho algumas novidades boas que ainda não chegou o momento de divulgar publicamente. Deus não dorme...

JPN disse...

:)

Rita Lemos disse...

Gostei de ler a sua opinião fundamentada sobre este assunto. Embora por motivos pessoais eventualmente suspeitos, tenho tido alguma dificuldade em "digerir" as acusações de presseguição política que recaem sobre Bairrão Oleiro, e tenho tido dificuldade também em aceitar o mediatismo criado em torno da Directora do MNAA.
A este propósito gostei também de ler no público de ontem a "Opinião do Leitor".
Parece-me um importante trabalho de "contra-informação" que além de tudo mais nos alerta para as falhas nos meios de comunicação social. Bem Haja