quinta-feira, janeiro 17, 2008

Porque não te calas?

Paradoxalmente, uma das razões para cada vez menos me sentir inclinado a fazer do Respirar o meu panfleto ideológico é uma redescoberta do político como parte fundamental da minha vida. Eu não sei onde somos criaturas e onde somos semi-deuses. Mas calculo que será algures perto do lugar onde cada um de nós quer mudar, transformar, contribuir de uma forma ou de outra para esta circunstância histórica de, uns diante dos outros, termos consciência de uma existência continuada num determinado espaço-tempo. E isso, o darmo-nos conta e o lembrarmo-nos e o projectarmo-nos, são as operações mais básicas do exercício político. O passado, o futuro e o aqui e agora. Sempre que penso na ideia de política vem-me à memória aquele fim de tarde há vinte e seis anos onde João Mota, na sala da carpete vermelha do Casarão Cor de Rosa nos dizia, com aquela certeza de quem sabia estar a marcar-nos para toda a vida, o amor e a política andam sempre juntos. O amor é uma exaltação da nossa condição política. Tudo isto para dizer que voltei a ler jornais, que acompanho o que dizem sobre a Ota e Alcochete, que estive ligado ao Prós e Contras, claro, que estou tão indignado como qualquer cidadão decente com as negociatas dos ministros antes de serem presidentes das Lusopontes, que acompanho com muita preocupação - e muito menos bonomia que as mudanças na Educação ou a letargia na Cultura - a reestruturação dos recursos do Serviço Nacional de Saúde. Só que ainda não sei falar disso. Já soube, como qualquer um de nós. Até que percebi que este linguarejar ao mesmo tempo que revela, esconde. Que enquanto torna audível, ensurdece. Comecei a fazer, como em todos os outros campos, o reboot ao sistema. Estou absolutamente convencido de que há momentos em que somos mais ricos discursivamente através do silêncio do que através dessa ilusão totalitária de que só podemos comunicar por palavras. Demoro muito tempo a escrever este post. E já o iniciei quatro ou cinco vezes e depois apaguei-o. A idade vai fazer o favor de não me tornar ao mesmo tempo mais religioso e simultaneamente marxista, mas a verdade é que vejo com um pouco mais de lucidez que aquilo a que chamamos discussão política é em grande parte um pugilato verbal numa paisagem ideológica minimalista, de modo a criar condições para que um viveiro de interesses de natureza especulativo faça em paz os seus negócios. Enquanto nós nos sentimos muito importantes por fazermos parte do sistema. E de certa forma fazemos. Eu não estou a dizer que nada disto tem sentido, que devemos desistir, que estamos todos entregues nas mãos dos interesses corporativos, especulativos. São coisas de mais e eu não sei tantas coisas ao mesmo tempo. Já houve tempos em que eu tinha inveja das pessoas que percebiam muitas coisas. Até que descobri que a única sabedoria invejável não era a da exaltação do conhecimento, sim a de conseguir fazer arte de navegação com a menor sabedoria disponível. Há alguns que pensaram ser isto o louvor da ignorância. Eu penso que a ser laudação de algo será apenas da humildade.

2 comentários:

CCF disse...

Gostei muito:)
Também demoro a construir opinião e não é porque não me interesse e escute mas porque quero escutar tudo.
~CC~

Ar (para respirar) disse...

Tenho-me deliciado a ler este blog. Muito obrigada por me proporcionar isso.