sábado, março 29, 2008

A nossa importância

Ontem telefonou-me faltavam uns minutos para as nove.
- Sabe que o teatro do pai vai dar na televisão?
Disse-lhe que sim, que estava lá.
- O pai está a trabalhar?
Estava. Deduziu logo:
- Está a organizar os grupos?
Há uns tempos ele tinha-me surpreendido com uma curiosidade muito grande sobre o que eu fazia. A certa altura lá lhe disse que organizava as visitas ao teatro. É por estas respostas que eu percebo que ainda não estou preparado para o encarar como um rapaz já meio crescido, que quer saber o que o pai faz, como é que o vêm. Hoje quando chegou eu estava a arrumar os livros na estante. Ajuda-me. Era o caixote dos livros de teatro. A certa altura descobre um que tem a minha cara na contracapa.
- O pai é famoso?
- Não, não sou famoso.
- Mas tem um livro com o seu nome.
E o que fiz a seguir foi patético. Mostrei-lhe vários livros onde, desde comunicações a peças, aparece o meu nome. Depois deste momento de vaidade pessoal, a pedagogia:
- Mas isto são livros que ninguém leu, que ninguém conhece. O teu pai não é famoso. E se queres saber, isso não é muito importante.
E aí eu estava a ser totalmente verdadeiro. Não tem importância nenhuma. Já teve. Ter uma obra, um nome, deixar uma marca, já foi sedutor. Foi, passado.

4 comentários:

Leonor Areal disse...

Pois, fizestes muito bem em dares-te a conhecer, mas dizeres que não tem importância foi um erro, isso pode ser desilusão tua, mas não é verdade, e ele pode levar à letra. O que não tem importância nenhuma é ser famoso, evidentemente (e isso ele não pode saber se não lho disserem)...

Maria disse...

Que doçura de post... O teatro e as letras bebi-as desde a infância, mais uma vertente dos blogs portugueses que encontro e ainda bem. Está sol, ouço o meu filho a tocar as suas peças - tem audições depois das férias -, penso no que nos atrai nas artes. O que nos atrai ao ver um nome de filho ou um nome de pai ou de mãe (um nome que se ama) passado a escrito, divulgado. É, certamente, a ternura. Nos afectos pessoais, como na arte, tudo pela paixão de sorrir e de nos encontrarmos.

Isabela disse...

Pois,isso de lhe dizeres que não és importante foi um erro. Para ele é importante que sejas importante. Sente-se mais feliz, mais seguro. E a verdade é que és importante, de muitas maneiras, para muitas pessoas. Ser-se famoso é outra coisa, mas eu não sei se querias ser famoso. Olha que andam sempre atrás dos actores dos Morangos com Açúcar. É uma chatice. Então não vale mais ser um pai cujo nome vem aqui e acolá mas não aparece nas revistas cor-de-rosa?

JPN disse...

expliquei-me mal, Leonor e Isabela. O que não é importante é a fama pela fama (ser famoso. A vaidade. O querer ter uma obra. Tudo o resto tem a sua importância. E nós sabemos, á medida que avançamos no tempo, avançamos também na percepção do que é realmente importante. O importante: fazer da vida uma festarola!!! de tudo. da inteligência, dos afectos, da criatividade, da sensibilidade.

:)