terça-feira, maio 06, 2008

O acordo

Há uma coisa que me anda a aborrecer: a sua recusa em comer legumes. Bróculos, cenouras, couves, alface, tomate, são os seus inimigos privados. E eu a lembrar-me da infância em Mafra, da fartura sempre de legumes, de fruta, e isso anos e anos depois a mostrar folha de serviço na prevenção da saúde. Com a minha mãe havia um castigo: não gostas comes a dobrar. Prenúncios de caretas quando vinha a sopa de tomate ou a sopa knorr, eram recebidos com colherada dupla. Não posso aplicar-lhe o mesmo castigo. Primeiro perdi a autoridade. Um tipo não pode aplicar a autoridade quando descrê dela, pelo menos da forma como a aprendeu. Depois, seria um erro de estratégia, já lhe ensinei o truque com o qual inutilizámos o castigo materno: a nossa descoberta que afinal não era de sopa de tomate ou de sopa knorr, nham-nham, que não gostávamos, mas de mousse de chocolate, de sumol, de batatas fritas, bolas de berlim, e um conjunto de guloseimas e doces que nos provocavam esgares de repulsa e nojo. A minha mãe ainda levou a sério as nossas mudanças abruptas de paladar mas depois decretou-nos curados. Afinal de contas nós já comíamos sem refilar aquilo que tanto nos agoniava.
Andei por isso preocupado uns dias. O rapaz está bem, o problema é o futuro. Não é por descrer também do futuro que vou hipotecar o de uma criança que está a crescer. Transplantei por isso a minha estratégia em relação à quantidade de comida: um dia farto dos constantes, posso comer só a carninha?, posso não comer mais?, disse-lhe,
- olha, vou-te propôr um acordo,
ele olhou para mim desconfiado, estava com o prato e meio e já tinha começado no pára-arranca,
- fazemos assim, Pedro: quando não quiseres comer mais, colocas os talheres na posição relativa a quem já acabou a refeição.
olhou para mim desconfiado,
- é só isso o acordo?
eu sorri.
- É, é só isso. Achas justo?
É claro que ele pôs imediatamente os talheres em posição de final de refeição, olhando para mim incrédulo diante do prato meio cheio.
- Já viste a quantidade de comida que deixaste?
- O pai disse.
- Pois disse. O meu objectivo ao dizer-te isso é que tu aprendas a quantidade de comida de que necessitas e que saibas ser responsável por isso. Se tu fores uma criança saudável e a nossa saúde tem muito a ver com a nossa alimentação, tu vais viver uma vida mais agradável. Isso é bom para mim que sou teu pai e gosto que tenhas uma vida boa, mas é bom principalmente para ti. É bom que sejas responsável por isso.
-Então se o pai disse eu escolhi e pronto.
-Tudo bem. Não morres por deixares metade no prato hoje. Mas toma atenção, este acordo só funciona se tu fores responsável. E se eu vir que este acordo não funciona vamos ter de arranjar outra solução. E parece-me que a outra solução é pior para ti e para mim.
Estamos os dois contentes com o acordo. Basta-me olhar para o prato dele para saber em que ponto estamos e ele tem procurado ser mais responsável. É claro que isto também é possível porque ele está a crescer.
Transplantei a mesma estratégia.
- Olha, Pedro, há uma coisa que me anda a preocupar.
Ele a tentar conciliar.
- Eu gosto de alface, não gosto é dela temperada. Eu posso comer a alface se não estiver arranjadinha.
- Não Pedro, isto tem de ser mais a sério. Tu estás a deixar passar uma altura que é muito importante para o teu crescimento. Tens de comer muita fruta e muitos legumes. Além disso a tua capacidade de adaptação é mínima. Não podes esperar sempre encontrar uma ementa à grande chefe Pedro.
- Mas eu não gosto de bróculos.
- Vamos fazer uma coisa. Antes de vires para minha casa naquela semana em que a mãe vai sair, eu vou fazer uma lista de coisas que quero que tu comeces a comer.
- Bróculos não, Pai.
- Bróculos sim. Mas vamos fazer uma coisa. Tu podes meter três coisas novas que tu gostes na lista, em substituição de três que tu não gostes.
- Dónuts bolas de berlim, Pai?
- Qualquer coisa que tu queiras. E anulas três coisas de que não gostes mesmo.
- Posso trocar os bróculos pelas bolas de berlim?
- Podes, claro que podes.
A esta altura já ele tinha enterrado a sua desconfiança e era um adepto cada vez mais entusiasta do acordo.
- E depois, quando vieres para essa semana, falamos e escolhemos em que dia é que queremos experimentar cada uma das novas coisas. E até me podes ajudar a cozinhá-las, para ficarem à tua maneira.
Estava radiante. Quando o entreguei à mãe foi ele a explicar a força do acordo. É claro que o primeiro ponto por onde ele começou foi o "sabia que eu posso trocar os bróculos pelos dónuts bolas de berlim"?

2 comentários:

a rapariga que vinha da província disse...

:)))



(como diriam lá pelos olivais:
que grande lábia...)

apicultor disse...

Voçês vão ganhar o prémio da razoabilidade!!
Abraços