quinta-feira, março 11, 2010

A última aula de José Gil

Há qualquer coisa de romântico nesta ideia da última aula. Gostava de ter estado lá, o tema era fascinante. Não sei como analisa José Gil a questão na sua forma global, no campo da expressão dramática e do teatro comprovo-o muitas e muitas vezes: estes activam-se através de ferramentas e utensílios de pensamento muito poderosos mas que permanecem, ainda assim, mágicos, escondidos. O teatro parece ser um meio tão vigoroso de pensar a realidade e no entanto é tão capaz de esconder as pistas sobre o modo como realiza esse trabalho. A psicologia e a educação recorreram a ele, e criaram até campos próprios, que valorizavam a circunstância agorética do teatro, mas mais uma vez chegam a um determinado campo em que já só conseguem avançar com expressões como magia, fé cénica, ilusão, energia. Percorremos os grandes teóricos do teatro que, desde Stanislavski, ajudaram a constituir o século XX como uma época de grande vivacidade conceptual para as artes cénicas, e em todos eles o enigma mantém-se. Costumo organizar a visita ao teatro onde trabalho. A todos os visitantes, sejam crianças, jovens ou seniores, mais tarde ou mais cedo, acabo por fazer a mesma pergunta: por que é que há pessoas que saem de casa para virem a um sítio verem pessoas a fingirem que são outras pessoas que não aquelas que efectivamente são, que estão noutro espaço que não aquele em que realmente estão, lançadas num outro tempo que não aquele onde na verdade estão?
Muitos de nós, talves os melhores de entre nós os do teatro, dedicaram a sua vida a tentarem responder a essa questão. O que é mais interessante é que esse jorro incessante de respostas para isto não esgota a fonte, a questão, antes a faz renascer, cada vez mais seta essencial dirigida ao coração da nossa humanidade.

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