segunda-feira, janeiro 23, 2012

Um pai à beira de um ataque de nervos

Eu estava completamente enervado. Explodi com ele, várias vezes, como há muito, muito tempo não fazia. Era uma coisa de somenos. Tinha feito um hambúrguer com arroz e achei que ele poderia querer mais. Fiz-lhe um ovo e antes perguntei-lhe:

- Gostas de ovo estrelado?
- Sim.
Lá fiz todo contente o ovo. Quando ele chega à mesa percebo logo pelo olhar dele que vamos ter festa. 
- Eu não gosto de ovo estrelado, pai. O pai devia saber.
- Eu perguntei, Pedro. Eu perguntei.
Ele não desarmou:
- Está bem, eu fiz mal, não estava atento, mas o pai também fez mal, porque não se lembrou de que eu não gosto de ovo estrelado. 
Disse-lhe que não havia nenhuma hipótese de ele não comer o ovo. E que não ia para casa do amigo (estava combinado ele ir fazer um trabalho de grupo) e que no dia seguinte não íria à festa.
- O que é que preferes? Ficas contente?
Neste momento eu já sabia que me aproximava de uma zona perigosa em que, provavelmente, eu iria borregar. 
- Fico triste claro. Fico triste porque vou ter negativa no meu trabalho a ciências e o meu amigo também. E fico triste porque não vou à festa.
Estava quase a perder a cabeça. Eu estava muito irascível, o diabo de um medicamento que tinha tomado por causa de uma alergia provocada pela alimentação andava-me a fazer sentir muito instável, gritei com ele. A certa altura disse-lhe, tentando arranjar uma saída através do humor:
- Olha, eu vou-te colocar aqui o telefone da violência contra menores e depois vou-te agarrar no ovo e metê-lo na tua boca e vais ficar todo sujo e não podes ir à festa. E depois telefonas para a violência contra os menores e dizes para virem prender o teu pai.
Ele riu mas ao mesmo tempo senti que estava nervoso. Há uns cinco anos  num dia de desespero tinha-lhe metido a sopa pela boca abaixo. Esse dia ficou  marcado tanto para ele como para mim e só a simples evocação de que eu possa voltar fazer o mesmo coloca-o na linha de água. E digo, não há nada de mais horrível do que vê-lo chorar quando se sente ofendido. Não faz alarde. Fica muito sério, quase não se mexe, e de repente a água vem-lhe em jorros aos olhos. É tudo tão rápido que só nessa altura é que percebo que fiz asneira. Mas desta vez o ele rir-se pareceu-me estranho.
- Olha, Pedro, tu sabes que eu estou à beira de um ataque de nervos e que daqui a nada sou capaz de fazer um disparate e enfiar-te o ovo pela boca adentro? Tu percebes o quanto enervado estou? Estava a querer fazer tudo bem, fiz um arroz sopinpa, o hambúrguer é muito bom e agora estragamos uma refeição porque tu não consegues comer ovo estrelado? Tu percebes mesmo o quanto enervado estou
- Sei, claro que sei, é por isso que estou a sorrir. 
- É por isso que estava a sorrir?
- Sim. Para ver se o pai fica mais bem disposto.
- O que é que disseste?
- Eu percebi que o pai estava muito enervado e por isso é que estava a sorrir. Para ver se o pai ficava bem disposto outra vez.
Confesso que percebi logo que a história do ovo tinha acabado ali. Abraçámo-nos e pusémos um ponto final neste imbróglio todo. E fez-se mais uma vez luz sobre o veredicto de um amigo quando, no nascimento do Pedro, lhe telefonei desesperado,"é pá Manel, como é que eu faço para ser um bom pai". Ele, do outro lado, calmo: "o teu filho vai-te ensinar a ser bom pai".  Não sei se me ensina a ser bom pai. Mas melhor pessoa sem dúvida. 

4 comentários:

disse...

pois, pois ... e o ovo lá ficou por comer

JPN disse...

Zé, nem parece teu. Comi-o eu, claro. :)

Quase nos "entas" disse...

Levam-nos aos extremos.....mas são o melhor da vida ;)

vague disse...

Que ternura.
Esse filho vai ser um bom homem. Vai, vai :)