terça-feira, dezembro 21, 2004

Escrevo fêmea no masculino

A minha primeira personagem feminina a sério chamava-se Alice. Era uma mulher puta. Prostituia-se com o marido, todos os dias. Depois seguiu-se a Senora del Rio. Era uma stripper. O meu mundo de mulheres era assim muito limitado. Havia a minha mãe que nunca seria personagem, pelo menos assumidamente. E depois havia duas grandes categorias de mulheres: as que se prostituiam com os seus maridos e as que o faziam com os maridos das outras. Por detrás desta desclassificação do género feminino o que estava em causa era a despromoção violenta do macho, daquele que era capaz de se consumir na ilusão da posse. Esta dualidade na forma como eu via as fêmeas não foi por acaso. Primeiro vieram as querubinas sem lantejoulas nem adornos, as que cozinhavam, esfregavam, lavavam, enceravam. Era muito imberbe para dar importância ao sexo mas sim, de uma forma literária, eram aquelas que abriam as pernas de cansaço e desolação. Chamava-lhes, naquela crueldade imbecil de quem exibe os seus vinte e poucos anos como uma forma de arrogância, as rainhas dos piássas e das esfregonas. Depois conheci a Senora del Rio. A Pequita. Conheci-a num daqueles expressos que durante toda a noite ligavam Lisboa a Braga. Apanhavam-se no Martim Moniz e no Campo das Cebolas e pela madrugada entravam em Braga. Ficou no assento do meu lado. Contou-me toda a sua história. Eu suguei-a, impiedoso. Como tinha dúvidas das palavras enterrei os meus dedos nas suas espaldas e comprovei a verdade do que me dizia, estava feita de pele e osso. Mas ainda pontificava. Era stripper em Espanha e inspirou-me várias personagens. Senora del Rio, conto homónimo publicado no Diário Popular em 1984 e Esmeralda, da peça Farol, publicada pelas Edições Cotovia/DRAMAT. Aquilo que para mim era a heroicidade da Pequita, da Senora del Rio, moldou a minha visão do feminino. Quando escrevi Farol passei vários períodos no Porto, no decorrer de um seminário com António Mercado. Ficava ali no Castelo de Santa Catarina. Durante a noite descia à Ribeira e quando o programa de festas o permitia, ia a um bar de alterne. Dizia-lhes sempre ao que vinha. Conheci assim muitas mulheres as quais transportei para o clima da minha peça. Não sei se elas compreendiam exactamente o que eu lhes dizia ou se pensavam que aquela era a minha desculpa para estar ali, a verdade é que colaboravam comigo. Nalgumas mesmo pressentia mesmo uma vontade de se evadirem através da minha história. Utilizei esse sentimento aliás para a Esmeralda na sua relação com o escritor. Uma das coisas que me seduzia naquele bataclã era ver aquele mundo de homens rudes, derretidos e meigos diante daquelas mulheres, muitas delas miudas, ucranianas, brasileiras, pagando pequenas fortunas por dois dedos de conversa. Apenas por dois dedos de conversa. Olhavam-nas com carinho e ternura, como gostariam de poder olhar as suas mulheres. Ter-lhes-íam oferecido flores se o porteiro, para evitar o vexame aos seus clientes, não barrasse a porta a todos os indianos-floreira. No dia seguinte no trabalho diriam que tinham comido e fornicado com um cento de mulheres. Faz parte da nossa maneira mágica de colectivamente nos debruçarmos sobre o assunto. Sabemos todos que é mentira, mas conivimos. Amanhã pode ser connosco. Com a Esmeralda exorcizei o meu mistico fervor pelas fêmeas deste mundo. Não deixei de gostar de escutar o barulho e o troar de uma mulher a crescer por dentro. É como o som de uma cascata ou o restolhar de uma labareda. Nem tão pouco arrefeci o entusiasmo pela coragem e pela tenacidade de uma fêmea. E dedicarei-lhes o melhor daquilo que a minha escrita for capaz. Apenas lhes dei um outro palco, o lugar da humanidade e aí uma fêmea e um macho podem os dois em uníssono, revelam-se em conjunto. Um é o que o outro lhe permite, incentiva, desafia e nesse momento estou, equidestante do homem e da mulher, num outro lugar de sedução, de encantamento: o da humana condição. Tudo isso acontece quando escrevo, e apenas quando escrevo, porque há um momento de derrocada desta maneira de conceber a vida: quando amo. Quando amo volto a ser o mesmo miúdo embasbacado pela humidade própria de uma mulher, atolado nas minhas contradições mágicas, submerso por este medo de ser insignificante diante da força natural de um corporalma feminino.

5 comentários:

Anónimo disse...
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Anónimo disse...

Que visão tão... estranha. Que categorias tão limitadas, não serão? Como é que um 'intelectual urbanizado' considera como modelo do feminino (a "fêmea")as mesmas mulheres que os 'camionistas' apreciam? O que é que eles têm em comum entre eles, que eu, mulher, não tenho em comum com tantas outras 'espécies' de mulheres? O corpo só? Será difícil perceber que uma mulher é só uma pessoa, não é um fantasma nem um bicho?
Leonor

JPN disse...

Leonor,
o teu comentário dará um post. Logo, logo.
obrigado

mjm disse...

É assim que se escreve fêmea no masculino?
Assim, de forma tão redutora?
Visão asfixiada, mas o texto tem a cadência certa. Se atendender à forma e menosprezar o conteúdo, aborrece-te? Escreveste para veicular uma ideia e não apenas pelo exercício da escita, não foi?
Pois é. Também fica estranho usar o mesmo método quando o tema são Mulheres... E olha que eu nem preciso de queimar soutiens!
Mas prefiro a palavra feminina de Humanidade - é mais completo.

Anónimo disse...

eu sou muito fêmeo,graças a deus!