quinta-feira, dezembro 15, 2005

O rock do meu bairro

Ontem fui ao Santiago Alquimista - que cada vez mais parece querer tentar-se afirmar como um espaço como o foi o Rock Rendez Vous - ver uma banda pop-rock. Talvez por não ser grande cultor do género, ou porque o som da banda me agradou, comecei a divagar, nas imagens, na memória. Comecei a ouvir falar em música, em discos, em discotecas, quando vim para Lisboa. Aprendia-se inglês com as canções dos Pink Floyd, do Cat Stevens. E enquanto os betos do meu prédio iam para o Oriental no Poço do Bispo aprender a fazer vela nos Optimists, nós íamos para a Encarnação alugar uma sala onde havia violas, baterias, guitarras e durante uma hora solávamos como se fossemos o Jimi Hendrix, o Morrison ou o David Bowie. Não era muito nem pouco, talvez nem o bastante. Era o que tinhamos. Havia também quem agarrasse na viola e fosse cantar canções da Joan Baez para o Vale do Silêncio. Havia muitos grupos, uns desfilavam no Rock Rendez Vous, mas nenhum como os Dustra. Os Dustra eram um grupo à parte. Era o Fernando que tinha ligações à música tradicional, caminho onde aliás continuou, com os Almanaque. Era o Abilio, um intuitivo, que agora toca no Valdez e as Piranhas. Era o Zézito que parecia o Jonh Lennon. Se eu não me ganzava porque dizia que tinha caido no caldeirão, tal como o Obélix, ele não fumava porque tinha caido numa tripe e nunca mais de lá saira. Não sei se era uma tripe ou uma tristeza, confundiam-se as duas. Pensava, dizia, que tinha enlouquecido. Ouvia sons, um zumbido. A única coisa que ele ouvia, para além da música, era um zumbido. que cena, Quim, dizia-me, éramos os dois caretas, não fumávamos. Os Dustra eram o nosso grupo. O grupo rock do nosso bairro. Faziam-nos sonhar. Faziam os Olivais parecerem Liverpool. Bem poucos ficaram ligados à música. A mim abriram-me as ideias, a sensibilidade. Eu não sabia que a música podia ser tão importante. Aprendi-o ouvindo Leonard Coehn num quarto com treze gajos charrados. Ou escutando Cheap Trick ou os Blondie, num quarto escuro dedilhando com o Zé, até à exaustão, guitarras imaginárias. Eu não sabia que a música podia ser tão importante para a vida de uma pessoa.

1 comentário:

monica disse...

eu respirei ares assim