segunda-feira, maio 01, 2006

Tráfico de influências a céu aberto

Estou cada vez a ficar mais farto da forma como certas questões que têm a ver com a política cultural são discutidas. Correu a ideia de que Isabel Pires de Lima não iria pedir uma licença especial para Bénard da Costa continuar a gerir os destinos da Cinemateca Portuguesa. Correu? As ideias correm? Quem a fez correr? Isabel Pires de Lima? Os seus assessores? Bénard da Costa não gostou e, homem influentíssimo, moveu os seus cordelinhos. Da Vida das Marionetas, terá ele pensado enquanto provavelmente terá telefonado a Eduardo Prado Coelho pedindo-lhe para esquecer a diatribe do gozo sobre o orgasmo vertical e alinhar lá com a malta, quer dizer com ele. Eduardo Prado Coelho é um homem muito influente também mas ao longo do seu reinado tem criado muitos anti-corpos, principalmente entre a malta mais nova que já não tem paciência para o paternalismo de EPC e que já pode escrever em blogues a sua sanha libertária. E depois há o efeito AMS, ou seja Augusto Manuel Seabra que é assim um fenómeno que não é tão prevísivel como o fenómeno EPC. Tudo conjugado tivémos de um lado os que estavam contra o facto de Bénard da Costa querer fazer chantagem à ministra, do outro aqueles que estavam a favor de Bénard da Costa, num jogo de tráfico de influências a céu aberto com a ajuda dos novos mecanimos democráticos das petições online. Acabou por aparentemente ganhar Bénard da Costa. E digo aparentemente porque possivelmente Bénard da Costa, com jeitinho, teria assumido que já nem queria ser chefe da banda, só queria mesmo era organizar o ciclo de Richard Fleischer. Um homem que ao fim de duas décadas não tem quem lhe suceda (e quando perdeu o seu substituto natural, José Manuel Costa) na gestão do projecto da Cinemateca é, desse ponto de vista, fundamental, um péssimo gestor. Ora não é preciso muita bondade para adivinhar que se uma personalidade com a inteligência e a cultura de JBC gere mal os seus recursos humanos é porque se está nas tintas para a gestão dos mesmos. Não sei. Deduzo através da obra feita. Curiosamente em todas as discussões sobre isso não vi nenhum link para a Cinemateca. Estamos a ficar mais preguiçosos ou já nem nos preocupamos muito com essas coisas? Porque seria importante linká-lo. Para percebermos que a Cinemateca mesmo depois das críticas acertadas de Augusto M. Seabra, tem uma programação intensa, bem explicada, fundamentada e com alguma vontade de atrair novos públicos. E isso é de nós todos. O que nós deveríamos perguntar à ministra é porque é que ela, os seus técnicos, os seus assessores, não começaram a preparar, com Bénard da Costa, a sua sucessão, no momento em que sentiram necessidade de afrontar o nosso papa do cinema? Ou porque é que a partir da notável obra da Cinemateca Portuguesa (vale a pena ir ao site) , que não é só de Bénard da Costa, não trabalha questões como a criação e manutenção de um circuito dos cineclubes ou o rejuvenescimento de iniciativas? Malhar no EPC? Aplaudir AMS? Solidários com os jogos de baixa política do Ministério da Cultura? Xingar JBC? Se os blogues forem para isso, para democratizar o tráfico de influências, não servem para coisa nenhuma.

1 comentário:

rui mota disse...

Pese embora a óptima programação da Cinemateca, ao nível do melhor que se faz na Europa (sei do que falo, pois conheço as de Paris, Bruxelas, Amsterdão e Londres), a "longevidade" nos cargos pode ser entendida, se naturalmente aceite. Não foi o caso, como é (quase) sempre em Portugal. Não há concursos: há nomeações e influências. Influencia mais, quem tem mais poder (PS/PSD). A céu aberto? Mas não foi sempre assim?...