quinta-feira, dezembro 28, 2006

Noite dentro

A palavra insónia - com as dores de dentes e a sensação de dejá vú -fez parte integrante da minha adolescência. As noites de insónia eram noites de algum desbragamento. Fumava muito, escrevia mais, levantava-me vezes sem conta para apreciar a noite, a inextinguível e insuportável noite, muitas vezes fria, outras vezes quente, não eram as estações que a regulavam. Com o passar do tempo desfiz-me de tudo o que podia provocar essa insubmissão contra a dormência, o apaziguamento. Com artesanato próprio desmiolei-me até ficar totalmente oco. Não só a consciência, também os sonhos, a ambição, tudo. Pensei nessa altura, nunca mais voltarei a essa inquietação nocturna. É uma ilusão. As paredes do meu corpo, o lado de dentro deste lado de fora, guardou ligeiríssimas partículas não sei se de inquietação, de intranquilidade, se apenas da sua memória. Um traço de Kaspar, lembro-me de uma inquietude que em tempos existiu, assola-me a um corpo que inexiste no lugar onde habito. Alguma coisa é. E como não a quero reconhecer, fecho os olhos, como se dormisse. Penso utilitariamente. Digo para mim mesmo, se esticar as pernas, se respirar, pelo menos alguma parte do meu corpo físico poderá pagar a conta do dia seguinte. Porque já não é um sonho, uma utopia, um desejo, uma intranquilidade, que procuro nestas minhas noites em branco. O que procuro é a sobrevivência no dia seguinte. É desta miséria moral que vivo.

1 comentário:

origami disse...

Por favor, podia juntar o dia de hoje com o de ontem e pôr conta?