domingo, maio 20, 2007

Conversa de um homem nascido em Maio (2)

Dou-me conta de que não estarás cá nos meus anos. Fico ligeiramente irritado. Depois apercebo-me de que vai fazer seis meses que ficaram pela Patagónia e assumo que nunca mais estarás por cá, nem nos meus anos, nem nos vossos, nunca. A irritação cresce. Talvez seja esta uma homenagem muito particular que te faço: nunca preencherei o vazio que a tua ausência abriu. Às vezes passo na Rua da Graça, olho para cima, agora há uma protecção no terraço, talvez seja sinal de que vai haver crianças naquela casa, imagina-las? A descerem e a subirem as escadas interiores? A povoarem de risos as paredes? Até o Pedro já sabe que não voltas. A amiga do pai da caneta sempre em pé, é assim que te chama, lembrando-se do dia em que lhe ofereceste uma caneta que se mantinha sempre direita. E sabe que as máscaras têm a tua cara. Já não consigo pensar-te. Estes seis meses foram muito duros. Para nós todos, mas para alguns de nós em especial. Dias houve em que eu pensei que ía entristecer de vez. Talvez tenha muitas vezes projectado a vossa morte na minha vida, talvez tenha sido isso que aconteceu. Tu sabes como é. Ao princípio há uma descontinuidade narrativa entre a vida e a morte: nós aqui, vocês em nenhures. A ideia assenta numa outra, a que só existe aquilo que é da ordem da manifestação. A morte não existe, aquilo a que chamamos morte não é mais do que a vida em acto final de manifestação. A morte é uma convenção de vivos, para vivos, entre vivos. Se houver vida para além do momento em que morremos isso só será possível porque afinal, não teremos morrido, teremos apenas transformado-nos em outra coisa. Mas isso para nós não é estranho: toda a nossa existência corporéa é um acto de transformação permanente. Isto é apenas uma maneira de contar uma história em que me faltarão sempre os pontos essenciais. Há outras. As religiões por exemplo não aceitam esta descontinuidade narrativa. Há ainda uma espiritualidade desavinda com as religiões no activo que também fala, também discursa. Eu por exemplo, ao falar-te assim depois de vocês terem ficado pelo último sitio vivo que conhecemos no mapa físico do mundo, estarei também a abrir-me a essa espiritualidade. É claro que eu poderei dizer, defendendo-me dos territórios sempre sensíveis da loucura, que estou apenas a recriar-te através de um discurso ficcional e que estou apenas a reconhecer a existência que tu, que vocês ainda têm em mim. Eu disse-o uma vez, não me tornarei crente para conseguir que voltem. Nem louco: na esplanada não pedirei duas greens. Mas mudei. Mudei por dentro. Há um lugar, que não é neste mundo mas será ainda, deste mundo. Talvez seja uma abertura ao religioso, um lugar despovoado de deuses. Não me interessa nomes. É tanto uma abertura ao religioso como uma irrupção do mágico, do artístico. Sei apenas, é um lugar onde posso estar contigo. Não é um sepulcro. Estão lá todos os meus mortos mas não é um sepulcro. É um lugar. Habita-o também todo o meu corpus não corpóreo. As minhas memórias, as minhas ideias, mesmo as mais amarelecidas e gastas pelo tempo. Eu não percebia, ou não percebi logo, que esta vontade de me recolher, de me casar comigo, não era uma abertura à tristeza, à depressão. Não era desejo fúnebre. Era um desejo de lugar, desse lugar. Esse lugar onde me preenchi de forma imoderada na minha infância e na minha juventude, onde me povoei de toda a solidão de que um homem é capaz de guardar até ao limite da loucura. Lugares abertos nas páginas dos livros esvoaçantes. Nos sonhos próprios, produzidos incessantemente. Eu não sabia que os sonhos explicavam esta minha necessidade de estar sempre a interpretar o mundo, o meu mundo, o que me acontecia. Se o soubesse tinha sonhado de outro modo. Menos avidamente talvez mas, paradoxalmente, com mais avidez do mundo que um sonho pode conter. É para lá, para esse lugar do material e do imaterial que vou agora. O realismo é uma prisão, a matéria é um cárcere dos sentidos. A nossa educação preparou-nos para muitos heroísmos mas não nos terá alertado suficientemente para a importância de deixarmos o material respirar, libertar-se da sua condição tautológica.

2 comentários:

nana disse...

um beijinho em ternura.

pela dor
e pelo dia de hoje.

@-,-'-

Jota disse...

Um abraço, daqueles. Parabéns pela força do teu respirar.