sexta-feira, agosto 31, 2007

Que se lixe o real!

A maioria dos meus amigos que trabalham em jornais, televisão, rádio expressam-me muitas vezes o agrado pelo que escrevo aqui, pela forma como eu penso e articulo as ideias com uma única excepção: o jornalismo. Chegando a esse tema quase todos acham que eu não percebo nada do assunto, que eu tenho essa mania irritante de pensar que o jornalismo é a causa de todas os males, que tenho um jornalista frustrado a gritar dentro deste crítico de sofá, que a minha incapacidade de perceber as coisas me tornou ainda mais arrogante e que tenho uma mala pata com o jornalismo.
É claro que por muito que a minha tendência para perorar sobre as coisas me seja inata e gratificante - não me posso esquecer que sou filho de um antigo orador eclesiástico - não sou desprovido de algum bom senso: prefiro conservar os amigos do que as minhas ideias. Até porque percebi que, entre eles, sem ninguém os ouvir, eram os maiores críticos da actividade que realizavam e conseguiam marcar pontos na sua análise. E por isso nos últimos tempos fui-me treinando para deixar de querer comentar de uma forma tão recorrente o trabalho jornalístico.
Isso levou-me a duas conclusões (não partilháveis claro com os meus amigos jornalistas): a primeira de que aquilo que ainda chamamos jornalismo tem de facto cada vez menos importância. A segunda - e é uma pena que continue sem a poder partilhar com os meus amigos que trabalham em jornais, na televisão e na rádio, e já não porque os vise, mas porque eles não aceitam de bom grado que exteriormente lhes venham dizer que o jornalismo está em vias de extinção - é que eles não têm culpa nenhuma da morte do jornalismo.
Nem os jornalistas nem os editores, nem os directores de jornais nem os proprietários dos títulos. Por exemplo o Oliveira e o Marcelino não são causa, são consequência. Não é o Oliveira que está a estragar o jornalismo português. Foi a degradação da actividade jornalística que permitiu que um empresário como Oliveira pudesse comprar o jornal Diário de Notícias e transformá-lo num jornal a dias. A chamada tabloidização da imprensa, seja jornais, televisão ou rádio, não é uma causa da tablodização do real mas uma das suas mais visiveis consequências.
Ontem alguém me perguntava pelo fenómeno dos blogues e eu dei por mim a dizer-lhe que achava que havia uma natureza luminosa do trabalho blogosférico, que consistia na abertura para a expressão de cada um como processo de construção identitária, ao mesmo tempo que me parecia crescente uma dimensão muito perigosa que era a de criarmos em comum a ideia de que é mais importante adquirirmos rapidamente um lead de um determinado acontecimento que nos permita tomarmos partido e posicionarmo-nos face a ele do que tentarmos aprofundar a nossa relação com o conhecimento real do mesmo.
Dei aliás um exemplo que há uns meses me chocou muito. Houve uma determinada entrevista a um chefe de um gang do Rio de Janeiro que foi difundida pela internet, através de blogues e por correio electrónico, e em que o entrevistado explicava que o pior estava para vir, que poderiam até usar armamento nuclear e que já não havia regresso possível. Esta entrevista circulou como se fosse verdadeira embora se tratasse de uma rubrica assumidamente imaginária de um determinado jornalista brasileiro. Quando isso deixou de circular no correio electrónico, e passou a circular na blogosfera, foi possível - graças ao hipertexto e aos comentários - desmascarar a notícia. Ora era curiosa a reacção dos comentários. Supondo que por exemplo havia um determinado comentário que desmascarava a notícia e que fornecia o link para a coluna de onde tinha saído a entrevista imaginária, os dois ou três comentários seguintes foram de espanto, de incredulidade, mas mais abaixo, começaram novamente a surgir comentários ao próprio discurso do entrevistado, como se ele fosse verdadeiro. E depois apareceram os contra argumentos a estes comentários, esquecendo já a reposição da verdade que tinha sido feita. Ou seja, foi só passar algum tempo e entre cento e tal comentários estavam quatro que se referiam ao desmascarar da falsa notícia. Os outros, os que lhe antecederam e os que lhe sucederam, vinham estabelecer uma linha de argumentação que tinha a falsa notícia como boa. Ou seja, grande parte das pessoas demonstravam uma grande incapacidade em abandonarem os aparatos ideológicos de que se tinham fornecido para discutir um determinado facto mesmo que ele fosse desmentido.
No caso Maddie também se passou algo muito curioso. A certa altura começou a circular a notícia de que tinha sido descoberto sangue no apartamento onde, alegadamente, a menina tinha dormido. Com essa notícia passou também a ideia de que a criança teria sido assassinada. Eu estava numa vila do Minho nessa altura e assisti de forma muito curiosa ao modo como a informação chegava ao único café que vendia jornais e de repente se disseminava pela vilória. É claro que a ideia de que os pais tinham matado a menina e escondido o corpo, até por causa do antecedente do caso Joana, começou a surgir e ao mesmo tempo a discussão pia sobre a incapacidade dos pais terem cometido tal acto. A polémica saltava etapas, factos e de repente já estava na condenação, no julgamento. Dias mais tarde veio a notícia de que o sangue do apartamento seria de uma outra pessoa que entretanto lá passara. O que era mais interessante é que essa nova notícia não desarmou nenhum daqueles que na vila já tinham tomado posição e que dias mais tarde, quando se começou a falar do sangue no carro alugado pelos pais, vieram comprovar aquilo que, uns dias antes, a opinião discutida já sabia.
Este é um excelente caso para percebermos o quanto a tablodização do real condiciona a indústria jornalística. É que a componente de realidade de uma notícia encarece em muito a produção da mesma. Custa muito mais investigar, deixar o jornalista levantar-se da cadeira e sair à procura da informação. E tudo isso se agrava quanto a indústria de conteúdos informativos depende cada vez mais de dispositivos tecnológicos dispendiosos. Ora se eu posso produzir uma informação que o público vai consumir com o mesmo deleite por menos, porque irei gastar mais dinheiro e ainda por cima em mais tempo, arriscando-me a perder na linha de montagem o prazo de validade de uma determinada história? Com uma boa agenda de contactos o jornalista pode facilmente validar o material enlatado ou os comunicados e informações à imprensa que circulam pelas redacções. Estamos a falar de uma indústria de conteúdos onde, por exemplo, grande repórter é, frequentemente, um titulo dado a veteranos que já pouco ou nada fazem em termos jornalísticos, isentando-os daqueles cumprimentos de deveres que qualquer outro jornalista assalariado tem de cumprir.
Deveremos por isso deixar a questão da morte do jornalismo para os jornalistas e para aqueles que fazem parte do pequeno circuito de discussão do problema. Não é importante nem decisivo para compreendermos a agonia do real no nosso mundo de todos os dias. Além disso eles já têm muito que se preocupar com a crescente função de amplificação que lhes é atribuída pelas diferentes forças sociais, económicas, políticas e culturais.
Até porque a tablodização do real é o verdadeiro problema enquanto realização de um determinado número de condições que secundarizaram o papel do paradigma da verdade na sociedade contemporânea. Nesse aspecto é impressionante como uma corrente que se apresentou como tão minoritária - o pós-modernismo - acabou por ter uma produção ideológica que afectou de tão grande forma a desvalorização da ideia de verdade na vida de milhões e milhões de pessoas. Tudo isso era necessário, claro, não é a crítica a esta corrente do pensamento que aqui se faz. É a percepção de que hoje há uma grande dificuldade em organizar a aproximação ao real através das condições que organizavam a ideia da procura da verdade. Estamos todos metidos no mesmo jogo. Que se lixe o real! O que ainda não percebemos, nem estamos preparados para discutir o quanto isso afecta o nosso quotidiano, é que sem o real a sustentar-nos o pensamento, a anterior categoria do ficcional, de tanto acorrer a tudo o que é processo de significação, fica exausta, cansa-se, deixa de poder significar, deixa de poder fazer-nos sonhar.

2 comentários:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Interessantíssimo texto.

Anónimo disse...

Jornais, rádio e televisão... e as revistas, não contam?