terça-feira, junho 10, 2008

Fundação Internacional para a Alegria no Trabalho

Estou a acompanhar o que Defender o Quadrado diz sobre a aprovação pelo Conselho de Ministro da União Europeia da proposta sobre o horário de trabalho. A Sofia fez as contas e chegou à equação da relação entre cada um dos modelos propostos e o tempo livre para os trabalhadores:
48h/5dias = 6,4h livres/dia (3,9h)

60h/5dias= 4h livres/dia (1,5 h)

60h/6dias= 6h livres/dia (3,5 h)

65h/5dias= 3h livres/dia (0,5h)

65h/6dias= 5,2h livres/dia (2,7h)

65h/7dias= 6,2h livres/dia (3,7h)

É claro que a Sofia está a ser muito generosa com o modelo. Faltam aqui tempos importantes. Desde logo o tempo dos transportes que varia mas que nos centros urbanos para os mais afortunados irá pela uma hora (ida e volta). Depois, e pressupondo que a malta dorme mesmo as oito horas porque com tanta qualidade de vida é prego a fundo no sono, falta ainda muitos tempos. Mesmo partindo do pressuposto de que o tempo que dedicamos às nossas funções vitais não são tempos livres na verdadeira acepção da palavra, vamos fazer um acordo de cavalheiros: sempre que uma determinada pessoa for fazer uma dessas funções básicas na hora de trabalho, convencionamos chamar a esse tempo, tpt, ou seja, tempo para o trabalho, sempre que for fora, será tpp, tempo para a pessoa. Depois acharemos também os tempos sociais, em que cada um de nós tem de utilizar parte do seu tempo de vida para a vida em sociedade, seja no plano familiar ou associativo, será o ts. O pequeno almoço da manhã, o almoço e o lanche, o banho matinal, até o simples esperguiçar, deverão ser imputados à conta tpt. Mesmo que o conceito esteja em desuso, estamos a falar de pessoas, ora bolas.

Nesse aspecto, e sem nenhum juízo de natureza sexista, será razoável imputarmos no mínimo uma meia hora para o homem e uma hora para a mulher, sendo que meia hora dessas a entregaremos à conta ts. Não vale a pena escamotear a realidade, mesmo que dividam as tarefas, será quinze minutos para cada um, e isto partindo do princípio que não têm filhos (a maior parte não teve tempo para isso). Depois, o almoço no trabalho, a ida ao wc no horário de trabalho serão considerados tempos de trabalho e vamos assumir que uma hora serve para isso, incluindo claro a deslocação até ao local onde se almoça. Temos por isso duas horas e meia.

Reajustando o horário às contas da Sofia percebemos que afinal as coisas ainda se complicam mais, havendo um máximo de 3,7 horas livres para os felizardos que só trabalham cinco dias e quarenta e oito horas. É claro que estas contas são feitas à unha. Basta que a pessoa, desculpem, o trabalhador, demore mais uma meia hora em cada um dos trajectos para o trabalho que as coisas se complicam. Nestes casos os ministros da União Europeia deveriam ter previsto um mecanismo de desconto no tempo de vida de cada trabalhador cujas vinte e quatro horas não lhe chegam para viver. Ou seja, um tipo que tenha uma esperança de vida de 70 anos poderia facilmente ver reduzida essa enormidade de tempo. Tenho a certeza que em breve haverá relógios de tempo que já permitirão isso.

É preciso ter em conta mais um dado: quando se diz que um trabalhador, desculpem, um escravo, tem no máximo 3,7 h livre estamos a incluir lá uma data de funções básicas e sociais que não podem ser equacionadas como tempos livres. O que eu estou a dizer não pressupôe um ataque meu a esta proposta. Terá o seu cabimento, sem dúvida. O que eu acho é que não podem ser tomadas como medidas isoladas, desgarradas. Tem de haver um grande esforço de concertação internacional para ajustar isto às necessidades fundamentais do ser humano, especialmente no que respeita ao futebol, principalmente às competições europeias nas quais não podemos alijar responsabilidades. Não digo que resolvesse o problema por inteiro mas já ajudava porque era um sinal de boa vontade negocial: porque não jogos de futebol de vinte minutos, dez minutos para cada parte. Pode faltar quase tudo numa casa, paz, pão, liberdade, educação, mas é de uma revoltante indignidade um homem, ou uma mulher, terem de ir para a cama sem poderem ver os resumos alargados da jornada europeia.

2 comentários:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

JPN, depois de fazer aquelas contas fiquei tão espantada que nem fiz mais. Fê-las o JPN. É uma felicidade, não é? Mas também, para que precisamos nós de dormir ou sei lá, viver?

Sofia Loureiro dos Santos disse...

E ainda há outra vantagem nesa medida: reduzirmos drasticamente a esperança de vida e não ter que pagar reformas a ninguém.