sábado, junho 07, 2008

Uma janela aberta numa porta fechada

A Isabela, contra o que é seu hábito, ligou-se a este texto da Sofia Loureiro dos Santos, e ainda bem, porque senão talvez me passasse despercebido. Embora admire muito e goste de Defender o Quadrado nunca o linkei como devia ser. Preguiças, que não vêm ao caso e que em maré reformista deste blogue vou de imediato corrigir. É um texto que posso subscrever naquilo que julgo ser o essencial, ou seja "cada vez que se enaltecem as qualidades das mulheres que cuidam dos seus rebentos, que quereriam estar em casa 6 meses, 8 meses, 12 meses, para amamentarem, para darem papas e banhos e para assistirem ao gatinhar, ao rir, ao andar dos seus rebentos" se está a proceder a "uma lavagem ao cérebro da sociedade ensinando às mulheres que a sua função primordial é procriar, amamentar e acompanhar os filhos, e que só o não fazem por razões económicas." É uma mensagem subliminar que está presente também em muitos discursos publicitários, o que me arrepia muitas vezes já que a publicidade é um bom barómetro para se perceber as configurações ideológicas de uma determinada comunidade já que ela, regra geral, excepto em mensagens dirigidas a públicos alvos mais jovens, é muito conservadora. Arrepia-me ver anúncios em que a felicidade feminina é suportada pelas novidades das fraldas, dos detergentes de máquina ou pelos sorrisos de plástico do marido diante de uma lasanha estaladiça. Gostava no entanto de acrescentar uma coisa: cada vez que há uma mexida na regulamentação da maternidade e natalidade exulto. Sou como muitos dos que me lêem sabem, pai divorciado. Não vem ao caso mas tive um excelente divórcio, aliás. Quando o meu filho nasceu estava ainda bem fresca a nova lei que regulou o apoio à paternidade. Vistas pelas políticas de hoje eram mais estreitas essas leis e decretos. Eram tão novas que o meu Serviço de Pessoal olhou para mim como um burro que olha para um palácio, perguntando-me, " tem a certeza que isso já está em vigor?". Ou seja, pelo lado do argumento da Sofia, ainda sublinhariam mais a função reprodutora da mulher como base da sua identidade comunitária. Só que eu lembro-me como as senti como uma janela aberta para poder crescer como pai. A mãe do meu filho quando acabou a gravidez teve uma outra oportunidade de trabalho e eu aproveitei para pedir horário contínuo e o desconto de uma hora e lembro-me como essa pequenina hora, sessenta minutos, significou quase tudo na minha vida de então: chegava à creche por volta das cinco da tarde e íamos passear os dois pela avenida da igreja, comer um queque na biarritz. Lembro-me de quase tudo: de quando ía ainda de carrinho, de quando já me enfiava o dedo indicador na minha mão, do orgulho que sentia a ir pela mão do meu filho. E lembro-me também da cara inédita do chefe de pessoal. E da pedagogia que acabei por fazer para outros colegas, homens que se interessavam mais pelas possibilidades de abrir a sua paternidade a uma nova condição. Não estou a contra-argumentar em relação ao que disse a Sofia. Sou aliás contra a falácia argumentativa. As questões não se subscrevem apenas pelo exacto mundo que alimentamos através das nossas experiências pessoais. Quero apenas testemunhar que sermos melhores pessoas, sermos melhores homens e melhores mulheres, é trabalho conjunto. Aquilo que liberta a mulher, liberta-me a mim que sou homem. E foi por isso que no outro dia quando vi as novas propostas sobre a politica de natalidade exultei mais uma vez. Não por mim que já não as vou utilizar mas por mim que beneficio do mundo onde vivo.
Imagem: Desenho do Pedro, aqui

2 comentários:

Isabela disse...

Isabela, man, Isabela. Caraças, vocês os velhos são cá uns teimosos. o texto da Sofia é mesmo the thing.

Sofia Loureiro dos Santos disse...

JPN, obrigada. E tem toda a razão. As últimas leis de apoio à maternidade, nomeadamente a última, já contemplam uma partilha maior da licença de maternidade. Mas, como aliás muito bem observa na análise da publicidade, há um neoconservadorismo social, não sei se promovido se por arrasto da crise económica, que vem alterando as visões mais igualitárias da sociedade. Não é só neste assunto, mas este é um factor muito importante, para as mulheres e para os homens.