quinta-feira, julho 24, 2008

Tenho saudades de lhe chamar o meu menino

Ninguém me manda a mim ser um sentimental. No outro dia ao passar por este post contive com dificuldade uma tristeza líquida. Não deixei de me projectar no sofrimento de outros pais como eu. Eu sou um pai de quinze em quinze dias. Sei o que significa ser um pai todos os dias e sei também o que é que significa ser um pai de quinze em quinze dias. Quando fui pai todos os dias mandei à fava o mestrado em comunicação e tirei o doutoramento em queques na Biarritz, em vamos ó parque, pai? aproveitei as jornadas contínuas para chegar uma hora mais cedo ao colégio, e mandei parar o mundo da ambição, dos trabalhos muito giros, das aulas disto e daquilo, dos projectos muito interessantes. Fui do meu menino todos os dias. Era eu que o ía buscar à creche, que lhe dava banho, que lhe fazia o jantar, que o deixava em estado de prontidão para o beijo da mãe que chegava muitas vezes quando ele se ia deitar. Um dia tudo isso acabou para mim. Começou, a medo, uma outra vida, uma nova vida. Tive de me contentar com um tempo mitigado, ajustado a tê-lo de quinze em quinze dias. Passamos de um tempo em que estamos sozinhos para uma altura em que tudo se passa num tempo muito concentrado. Quem nunca passou por isso não sabe a angústia que é ter uma criança vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. Na altura da entrega ficava sempre vazio, com jetlag afectivo e precisava de andar umas horas a pé, pela cidade, a serenar, a encher-me de mim, daquilo que seria a minha vida dos próximos quinze dias. Tive ao longo destes quatro anos de pai quinzenal algumas relações afectivas. E ele conheceu-as quase todas. Mas o tempo de ser pai foi, até há pouco tempo, só meu. Fora a avó ou a tia, e as festas de aniversário, foi há poucos meses que deixei pela primeira vez que ele ficasse com uma pessoa enquanto eu fui a uma reunião. Todas as tarefas domésticas e ainda por cima sorrir sempre, ser amável, porque só temos dois dias para mostrar o que valemos. Ou a angústia de não lhe podermos incutir algo porque na segunda-feira ele, que já é sábio a tentar brincar ao gato e ao rato com o pai e a mãe, já está noutro reino. E eu sou daqueles sortudos que tem a colaboração e a amizade da mãe. Às vezes ía para a cama com medo de não acordar se o meu menino precisasse de mim. Depois percebi que não, que eu, que tinha um sono de pedra, tinha desenvolvido um sexto sentido e sempre que ele subia a escada da mezzanine eu abria docemente os olhos. Ás vezes esqueço-me que tenho um filho porque dói demais não o ter nos meus braços. Já disse que sou um sentimental mas de facto estou a chorar. Escrevo isto porque quero que ele um dia passe por aqui e perceba que a divisão daquela máquina de nos enternecer e suspender no sonho e na magia em que ele se constituiu não foi fácil para ninguém. Nem para mim, nem para ele, nem para a mãe. Para que ele saiba, mesmo nos momentos de dúvida em que olhe para as outras crianças, que cá dentro não existem pais de quinze em quinze dias, que a paternidade é uma aventura sempre, para sempre.

7 comentários:

Ritinha disse...

:)

gata disse...

tens toda a razão, quim. não devemos ver só um lado da questão, eu sei, e pais como tu também existem (não serão muitos, mas existem) e sofrem por não poderem ser pais a tempo inteiro e não terem os beijinhos todas as noites e a oportunidade de partilharem mais. como eu disse, estava a referir-me a três ou quatro casos concretos, alguns dos quais muito próximos de mim e que me irritam mesmo muito. É bom saber que me andas a ler. beijinhos.

JPN disse...

também gosto de saber que me lês. :)

sete e picos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ptc disse...

desculpe,mas tenho de perguntar: se sente assim tanta falta do seu filho e se consegue manter uma relação de amizade com a mãe da criança, porquê limitar-se a esses 4 dias por mês.
Se deseja ver mais vezes o seu filho,vá busca-lo a meio da semana para jantar, ir ao cinema,lanchar que seja. Acredito que a criança agradeça.

(desculpe a intromissão,mas este assunto mexe-me com os nervos)

JPN disse...

cara ptc, mas quem lhe disse que isso não acontece? e o que é que isso altera o que estamos a dizer?

Zorze disse...

Eu sou pai a 24horas; sei o quão difícil é esta experiência e sei tb que sentes o amor q um pai sente; é desarmante, animalesco, doloroso, mas muito recompensador. Costumo ler muita coisa redundante, mas o teu texto transpirou honestidade, meu amigo. De pai para pai, um abraço forte!