sábado, julho 11, 2009

Tomo o pequeno almoço aqui no pátio enquanto velo o seu sono e o facto de o fazer sozinho destapa-me por momentos, a solidão que há em mim. É nas manhãs que me recordo com mais nitidez da minha condição de antigo fumador e nesse primeiro despertar revela-se todo o egoísmo que ainda me habita. Por mais que agora - para o que me deu a idade, para a vergonha! - me envergonhe dele. Quando não estou só percebo que este hábito de tomar o pequeno almoço só, de o despachar em solidão, é uma das minhas marcas anti-sociais. Por vezes até como dois pequenos-almoços para disfarçar esta pequena condescendência egóica a que me concedi. Estou, como todos nós, creio, sempre entre dois: vou para aquilo que serei e naquilo que serei gostaria que respirassem, com ambivalente tranquilidade, esta delícia que aprendi de acordar acompanhado, a sorrir-lhe, a dizer-lhe coisas em espalhavento, e esta necessidade não menos profunda de me bafejar pela fortuna de estar vivo, de disso ser sentido e sentidos. Estou aqui diante deste pequeno écran, ao meu lado o romance do poeta. Olho em frente a mesa de madeira onde estão dois casais do norte com os seus filhos repletos de vivacidade, nesssa mesa onde ainda estão os fragmentos, os farrapos da nossa pequena conversa de ontem, no fecho da noite. Desde os idos daquela pagela do Diário de Notícias onde escrevemos que a minha atenção guarda um lugar especial para a sua poesia. Não consigo por isso ler o seu romance enquanto romance. Tento, mas depois chego aqui, " há quanto tempo não choras a olhar a chuva contra os vidros das janelas num fim de tarde de Novembro? Há quanto tempo não agitas as mãos na água das levadas a ver a ondulação da corrente?", e percebo que só a memória do poema me conduz à decifração dos signos, dos códigos. Para mim é uma benção esta manhã assim, esbroada pelos bocados de palavras com que amaciámos o fim de noite. É um hábito do estio rural que me pertence também: no fim da noite vir para a frente da casa que um pátio é e deixar sair, em conversas prazenteiras, entrecortadas cada vez mais com os espaços silenciosos da noite, a última agitação que se poderia intrometer com o nosso sono. É um hábito que os antigos cultivavam com aquela regularidade metódica que os dispensava à farmácia para resolverem estes pequenos grandes males que assolam as nossas noites. Aprendi-o como o meu avô, aprendi-o com o meu pai, hei-de um dia transmiti-lo ao meu filho. Assim tive assim este agradável fim de noite. Há também uma leve estranheza: temos em comum as façanhas naquela pagela e o facto dos dois sermos hoje habitantes da blogosfera, mas no resto, naquilo que a presença trata, somos - para além de outro breve encontro num encontro literário em Punta Úmbria onde fui pela mão do Fernando Esteves Pinto - como é natural, totalmente desconhecidos. Falamos do seu livro, escrito por aqui, num restaurante perto. Há nele uma ruralidade que, por ser tão convincente, transcende a ruralidade. Ele é um poeta por dentro, é-o também na forma como o vemos, mas ainda não é, talvez nunca venha a ser, um escritor no fora-que-o-dentro-de-que-cada-um-tem. Não é porque não o quer ser, ou pelo menos não o quer ser como a maior parte de nós somos: metade-escritores-de-palavras-metade-caixeiros-viajantes a vendermos a-nossa literatura presa por um fio. Para fazerem dele um escritor tiveram de o vir buscar a casa, neste caso à casa que um blogue é. E ele agora está um pouco amedrontado: " agora estou a escrever e sinto que estão todos a olhar para mim"

4 comentários:

cristinar disse...

Perdoa a minha ignorância e actual inépcia na pesquisa internáutica, mas quem é esse poeta? O link que dás para o blog tem algo de errado, no site da Casa de Cacela não vi nada, e procurando por "cacela poeta" aparece-me Ibn Darraj al-Qastalli, senhor que tendo morrido em 1030 não me parece ser o mesmo...

um escritor no fora-que-o-dentro-de-que-cada-um-tem
Obrigada por dizeres isto de uma maneira tão simples e tão bonita. Andava há anos à procura de uma maneira assim para o traduzir.

Anónimo disse...

O link certo é http://casa-de-cacela.blogspot.com

cristinar disse...

Obrigada!

CCF disse...

Não conheço pessoalmente o autor e creio que nunca me cruzei com ele, mas leio muitas vezes o blogue e partilho o amor pelo lugar ao sul.
~CC~