sábado, março 17, 2007

Alice, a mulher de quem não se fala

Uma criança raptada foi entregue aos pais. A história tem contornos que tendem a desenvolver sentidos contraditórios. Há por exemplo uma ligação explícita com a história de Esmeralda e que caminha no mesmo sentido: a nossa compreensão de que a constituição dos núcleos familiares já não obedece às mesmas permissas com que a maioria de nós fomos educados. As famílias dos casais homossexuais, as famílias monoparentais, uma crescente valorização da adopção como atitude não egoísta em relação à paternidade, são temas fortes do nosso mundo. Fazem parte da discussão que fornece o enquadramento ideológico que forja a cada um a sua marca identitária. Por esta ordem ou não. A própria interrupção voluntária da gravidez enquanto discussão sobre a ética e a vida. Em tudo isto há muito de simulacro e simulação e provavelmente não estamos já apetrechados para perceber a medida com que ocorre essa manifestação simuladora . Viramo-nos para o mistério da vida e da morte. Mas há mais do que isso. O circulo mediático oferece-nos o espectáculo. O bom povo de Cernadelo somos todos nós. Tudo é perfeito e perfeitamente moralista. A pequena Adriana voltou para casa de seus pais. A Segurança Social e os Tribunais desta vez puderam estar ao lado da população. A comunidade juntou-se, fez a festa, montou o circo, quotizou-se, fez da família Pinto o seu conto de fadas. Até a malvada da raptora sucumbiu diante do arrependimento e, enquanto pede desculpa aos pais, nem quer ouvir falar em recurso da prisão preventiva. O que é compreensível. Ela já não tem casa. O seu marido, aquele mesmo que durante meses não reparou que a sua mulher não estava grávida, teve também um arrebatamento de um homem justo: uma prisão com grades talvez seja um lugar mais humano para esta mulher. Alice também nos interroga enquanto espécie: afinal o mal e o crime não são sempre expressão do horrendo. Neste caso dêem-se as honras da nossa humanidade a Alice: ela quis ser mãe, o que é comum e natural numa mulher. Ela quis dar um filho ao seu marido, e esse agrado da mulher ao seu marido é também desejo de todas as mulheres casadas. Há aliás expressão bíblica para esse cometimento. A raptora de Adriana tratou da sua filha Joana durante estes treze meses, amando-a, cuidando dela. Provavelmente o maior erro que terá cometido foi em tanto querer agradar e festejar a um homem que afinal, parece que a queria e festejava tão pouco. Alice, da prisão da vida para as grades da sua cela, talvez venha a descobrir alguma tranquilidade na clausura. Esperemos que sim. Afinal, como todos nós, ela também parece uma boa mulher.

1 comentário:

Cristina GS disse...

...a sociedade continua a pensar que só quem concebeu consegue amar, que o amor tem como único veículo o sangue que nos corre nas veias, e que mesmo sujeitas a maus tratos e a dolorosas provações, as crianças devem viver com as respectivas famílias biológicas. O sonho tem um lugar pequenino nesta nossa sociedade.