sexta-feira, março 09, 2007

Despedida breve

"(...) É verdadeiramente em vão que se sofre por esperar qualquer coisa que nos causa perturbação! Assim, o mais temível dos males, a morte, nada tem a ver connosco: quando somos a morte não é, e quando a morte é somos nós que já não existimos! (...)" *
Ontem quando cheguei à capela mortuária e vi o corpo do meu primo Nuno estendido no caixão, não sei se era pela serenidade e tranquilidade das suas mãos cruzadas uma sobre a outra, não sei se foi pelo bonomia que se soltava da sua face, apercebi-me, com uma clareza inabitual, e quando eu digo que me apercebi com uma clareza inabitual quero dizer que o aceitei com uma clarividência que não era apenas cognitiva, era também afectiva, ou seja, que não havia aí algum temor, nenhuma interpretação, que quando somos a morte não é, e que quando a morte é somos nós que já não existimos.
Subsiste ainda por mais alguns momentos o problema do corpo com a cara da pessoa viva. Mas até isso neste caso, pensava eu enquanto nos dirigíamos ao crematório do Cemitério dos Olivais, dura pouco mais. Nada disso me pareceu especialmente triste. Ou a única coisa verdadeiramente triste, sem subtítulos nem legendagem, que por ali encontrei, foi o sofrimento e a dor dos vivos.
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* De Epicuro, Carta Sobre a Felicidade, trad. João Forte, Lisboa, Relógio d'Água, 1994 retirado de O Bem Viver em Skapsis.

1 comentário:

Cristina GS disse...

A 26 de Novembro escrevi no Blog que ninguém lê, este texto pequenino. Cheguei a esta atmosfera (Respirar o mesmo ar) por acaso porque me chegou acompanhada pelo nome de uma das jornalistas falecidas e hoje achei curiosa a sua frase final sobre a morte do seu primo...
“Li hoje que 4 jornalistas portugueses, jovens e promissores tinham morrido algures no Chile. Depois segui alguns rastos, sobretudo da Maria José Margarido, e fui encontrando todos os sinais de mágoa, recusa da sua morte, indignações silenciosas e outras mais veementes e desesperadas. Pensei na injustiça das mortes prematuras, mas num dos rastos encontrados (http://respirar o mesmoar.blogspot.com), li que era ali que ela gostava de estar, ali no Mundo do fim do mundo que Luís Sepúlveda nos descreveu, li que era ali que ela não se importaria de ficar. Perante isto pensei que importância poderia ter a dor dos vivos se ela tinha morrido feliz...”

Mas enquanto estamos vivos continuamos a temê-la porque a vida é demasiado bela.