domingo, março 09, 2008

Um País em contramão ( ou o PS e a Marcha da Indignação)

Ontem ao ouvir Augusto Santos Silva na televisão centrar a sua principal atenção para uma vaiadela numa reunião de militantes em Viseu, percebi que há uma forte tentação no Partido Socialista para não conseguir entender o que se passou ontem no Marquês, na Av. da Liberdade, nos Restauradores, Rossio e Terreiro do Paço. Ainda bem que o PS tem militantes como ele.
Porque o problema da situação gravíssima que se vive hoje na educação não pode já ser visto, como escreve o Eduardo, com uma questão de coerência programática da ministra com aquilo que era o programa de governo da maioria socialista. E que não perceba que a maior manifestação de coragem política de Maria de Lurdes Rodrigues seria reconhecer o catastrófico resultado político obtido pelo seu ministério. É isso que se espera de uma ministra de um governo socialista. Que saiba escutar, ouvir. E auto-avaliar-se.
Por isso, o problema talvez não seja de decência. Como dizia uma amiga minha, isto parece aquela história daquele tipo que vai em contramão na autoestrada e diz para a mulher, xi!, olha a quantidade de gente que vai em contramão!
É que parece que neste caso não há salvaguardas para "a catadura da ministra da educação, as vicissitudes originadas por algumas metodologias erradas e calendários mal aplicados" . O que se deve ter a coragem política para dizer é exactamente o contrário: salvaguardando o facto de a ministra estar a cumprir o programa que o PS sufragou nas urnas - e as condições de reforma estrutural que este ideário programático preconizava - há que reconhecer o falhanço político da implementação desta medida. E os primeiros a reconhecê-lo deveriam ser não aqueles que estão contra o ideário - já que para eles se ele não for aplicado, melhor - mas aqueles que reconhecem nele possibilidades de mudança, de melhoria do sistema educativo.
E é exactamente porque o que está em causa não é apenas o programa do Governo, mas a circunstância da ministra ter conseguido reunir na mesma indignação aqueles que sempre estiveram contra o programa do Governo com aqueles que embora podendo reconhecer-se nesse programa estão indignados com a forma como ele está a ser aplicado, que a actuação desta equipa ministerial, cada vez mais sem recuo possível, caminha para um monumental chumbo. Sócrates terá, como qualquer aluno, de ponderar se quer tentar ainda salvar o ano com duas negas ou se já está mais inclinado para repetir o ano.
Chama-se a isto bom senso. Bem essencial tanto à tarefa educativa como à gestão.

3 comentários:

LNT disse...

Caro JPN
É tal como dizes. A avaliação tem de ser para todos. Os que avaliam, os que são avaliados e os que entendem que as avaliações são boas só para os outros. Como as avaliações são pessoais e não programáticas, a Ministra da Avaliação deveria tirar as respectivas conclusões sobre o seu desempenho)
No fundo é uma questão de coerência.

(aproveito, meu caro, para recordar que aquele link para o Tugir está "fora de moda" porque o Tugir em português está extinto, faz quase um ano. Agora é mais barbas e cabelos :))

eduardo graça disse...

Como o JPN sabe não sou propriamente um iniciado na questão da política mas não me deixo levar em demagogias (cada vez mais busco conhecer os programas e os resultados da sua aplicação)e ainda por cima passo o quotidiano profissional a lidar com a matéria que aqui está em causa. É mesmo verdade que a maior parte das propostas que constam do programma eleitoral do governo para a educação não superior estão cumpridas ou em vias de ser cumpridas. Não sei se seria possível realizar uma gestão política condizente com os objectivos que foram definidos à partida que permitissem conciliar todos os interesses em presença. Não sei se não teriam que haver rupturas como as que estão à vista. Não vejo onde está o problemas das rupturas. A não ser que se considere que os resultados alcançados, nos últimos anos, na educação, sejam considerados bons. É que são muito maus! É como chegar a uma instituição com a missão de a gerir, verificar a urgência de tomar medidas segundo padrões universalmente aceites, e optar por virar as costas e deixar tudo na mesma. O meu discurso não é o da comiseração face ao governo, nem apoio nem oposição, é simplesmente o da verificação do prometido com o devido! Estou aliás a tratar do processo de avaliação do meu próprio desempenho como simples técnico do ME. Tenho objectivos definidos, mesmo quantificados, e terei de responder por eles. É simples ... mas compreendo que outros possam considerar que é complicado. Mas não sou professor nem posso, com o mínimo de isenção, pronunciar-me acerca das suas dificuldades e dos seus problemas.O que não quer dizer que não tenha ideias acerca da questão da educação em Portugal. Mais tarde voltarei ao tema com mais detença!

Mónica (em Campanhã) disse...

JPN, a minha questão é se é possível reformar tudo o que é necessário com o apoio dos professores porque afinal sempre que tocam no bolso e em outros interesses instalados de cada um, quase todos dizem "assim não" (isto aplica-se por ex tb aos médicos e outras soit disant "classes"). tenho gostado de ler sobre isto o Vital Moreira, no Causa Nossa.