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sexta-feira, abril 01, 2011

A alegria

Do Brasil a Alexandra Lucas Coelho escreveu que "inês não estava morta" . E que a alegria é imprescindível para não termos medo da vida que aí vem. Fico-me por este resumo apressado. Muitas e muitas vezes diante deste rio faço a minha profissão de fé. Penso que virar a cidade para o rio foi um trabalho sobre a vida de cada um de nós e sobre a nossa cultura. E anseio pela primavera por causa disto: as coisas começam a ter cada vez mais a sua real importância e não a fantasmagoria que nos condiciona, limita, prende.

domingo, fevereiro 28, 2010

Santiago do Chile | Lisboa [Alívio]

Foi ao fim da tarde, pelo Skype, que o alívio chegou. A voz da minha cunhada explicando que fora uma televisão e alguns objectos caidos ao chão, não tinham mais nada a registar senão o maior susto das suas vidas. Lá em casa o tremor de terra foi sentido de maneiras diferentes. O meu irmão julgou que estava num barco, agitado pelas ondas. Nem acordou. A minha cunhada agarrou na filha que entretanto acordara, assustada, e, meio aos trambolhões contra as paredes, desceu ao rés-do-chão, precipitando-se para a rua. Ao abrir a porta e vendo o carro literalmente aos saltos percebe que não é boa ideia sair, pode ser apanhada por alguma fenda. Lembra-se daquele estado de não saber o que fazer. É o que custa mais, percebe-se. A minha sobrinha também tem a sua visão do que aconteceu: " mãe, o vento era tão forte que partiu coisas cá dentro de casa, não foi?" Foi assim o terramoto lá em casa, num bairro residencial de Santiago do Chile. A oitenta quilómetros, um dos armazéns em que o meu irmão trabalhava, desapareceu completamente. O outro tinha danos gravíssimos e não se sabia quantas pessoas podiam estar lá dentro e em que condições. A seguir aos dois minutos e pouco, que pareceram uma verdadeira eternidade, foi a debandada geral. Estavam a fazer o contacto telefónico com cada uma das famílias. É a minha cunhada que nos conta isto, entretanto toda a família está numa estranha conferência telefónica que cruza Lisboa e Santiago do Chile. Conferimos notícias, o tsunami, o abalo, o número e intensidade das réplicas,a casa sem nenhuma fenda, a parte mais velha da cidade muito destruída. De repente, quanto é a vez de nos despedirmos, ouvimos as vozes das crianças, numa triangulação entre Lisboa e a capital chilena. E aqueles risos das crianças, aquelas vozes, mesmo que meio deformadas pela linha skype, são tão importantes para restaurarem a ideia de que tudo pode mais uma vez ser recomeço.

sábado, setembro 20, 2008

A dignidade que o Povo merece

Mesmo sendo este um blogue onde, como um elefante pulando de nenúfar em nenúfar, saltito de assunto em assunto, desde a politica do eu até ao http://www.mundo.com/, nada me ouviram dizer sobre os silêncios de Manuela Ferreira Leite. Eu, que por vezes sou atacado pela incontinência da expressão, aprecio num ser humano a capacidade de gestão do dizer. E simpatizo muito pouco com a pressão a que sujeitamos cada um de nós com aquilo que achamos que o outro deveria fazer. Se é porque não fala é porque devia falar, se fala é porque o silêncio é de ouro, ou porque falou de mais, neste país de polícias sinaleiros, como diria Sttau Monteiro, há muito pouco espaço para deixarmos o outro dar o seu contributo para o modo de fazer política, quando parece evidente que se Manuela Ferreira Leite trouxer alguma mais valia à práxis politica lusa - o que sempre duvidei, devo esclarecer - será por causa dessa sua forma de entender a política. Dito isto, não gostei de ler que para falar ao Povo de Lisboa sobre a eventual candidatuta à liderança da autarquia de Pedro Santana Lopes ( e nem ouso comentar o sumo desta escolha), Manuela Ferreira Leite mandou o recado por Manuel Castro Almeida, seu digníssimo coordenador das próximas autárquicas mas que, para falar com o não menos digno putativo candidato ele, coordenador, já não será digno mensageiro.
A cada um a dignidade que merece. Como tratas, assim serás tratado.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Linha Verde

é o tempo que me leva pela mão. chamo a isto uma viagem.
O que percebo disso? Não sei.
reconheço este caminho. a neblina forte,
os rostos difíceis, coloridos, diferentes,
a cidade escondida,
próxima estação: Alvalade
Quem somos nós, os vivos?
Eu pensava que estas perguntas enlouqueceriam. Tanto quanto o silêncio. A loucura não é o silêncio, sei agora. E as palavras, também não enlouquecem. A loucura, quanto muito, é a ausência de rumorejar que antecede o silêncio.
Mas não é o silêncio.
Próxima estação: Roma
A cidade escondida. Evoluímos na arte das toupeiras, apercebo-me. São cada vez mais atraentes
estes lugares subterrâneos. Alguém dirá: repara na nossa face, na forma como ela evoluiu e se tornou também na animália que imerge nos túneis.
Eu já tive medo da toupeira que há em mim. Um receio pânico, paralisante.
Donde me vem o medo? Às vezes penso, ele vem quase sempre do lado da tristeza. Eu sou ainda aquela criança assustada pelo toupeirar que a tristeza cava em mim. O medo vem-me pelo lado da tristeza e vai-se-me pelo lado da alegria.
E vai-se quando a tristeza atinge o seu zénite, o seu superlativo absoluto deste seu ser triste e, nesse excesso, começa a reconhecer-se contente.
Próxima estação, Areeiro
O que é a alegria? Uma festa de vivos, para vivos? Ouço os rostos, ouço as vozes, as idades. Começo a somar tempos dentro desta carruagem.
Continuamos vivos.
Anjos. Próxima estação, Intendente
Falta ainda a tecnologia mais sofisticada: o homem, a mulher. Fazer de um homem e de uma mulher um ser humano incondicional. Se um dia a tecné o conseguir, paradoxalmente, nesse dia em que a nossa humanidade se libertou, nesse dia se extinguiu.
Próxima estação: Martim Moniz

Vou começar a escrever posts em diferido. Algo tinha de mudar na minha vida. Rossio. Subirei a Rua do Carmo? Subirei ao Carmo enquanto ouço João Afonso, Outra Vida?

Baixa-Chiado. Há correspondência com a linha azul.

O dia-a-dia. És tu e depois a música que me salvam os dias, todos os dias. Gradualmente decoro esta religião dos sentidos. Seis, incluindo o tacto.

sexta-feira, julho 13, 2007

A rapariga do violoncelo

Estava sentada no Vertigo. Ela almoçava. Deveria ter uns vinte, vinte e um anos. Tinha os gestos tímidos, redondos. O cabelo cor de cenoura. Borbulhas na face. Almoçava, enfiada em si. Era bem a imagem de todas aquelas pessoas que comem sós. Olhei-a só de relance e pensei, ela terá a mesma falta de prazer em almoçar do que eu, quando o faço sozinho? Tinha um livro sobre a mesa. Não foi nela que eu reparei em primeiro lugar. Foi num rapaz. Tinha também os seus vinte, vinte e um anos. Sentou-se na mesa que estava disponível, ao lado dela. Barba de adolescente, ar descontraído, livro na mão. Senta-se, começa a ler. Só reparei na sua figura porque tentei ver nele os meus próprios vinte anos. Como qualquer voyaeur, daqui a nada já estava a olhar para outras pessoas. Um par de raparigas que tinham entrado. Também com vinte e poucos anos. E aquele ar comovente de quem leva muito a sério a vida que tem para viver. O Vertigo, só depois reparei, é para gente assim. Gente afirmativa, bonita, cheirosa, réplicas dos seus ídolos e tudo isso, com ar negligé. Já estava entretido com o jogo de sedução que mais gosto de fazer no Vertigo, o do olhar, quando me dou conta de que o rapaz já está a desenvolver uma intensa conversa com a rapariga. É aí que me apercebo que sou a única pessoa que tenho de me entreter comigo mesmo enquanto como. Ele está entusiasmado. Ela incentiva-o embora seja o rapaz que conduz a conversa. E assim continuam até que ela se levanta para ir pagar. Vai ao balcão e quando volta pega nas suas coisas e nem um olhar lhe lançou. Ele seguiu-a com o olhar até à porta, aguentou mesmo um pouco mais, deixou-a sair. Só depois baixou os olhos. Não sei quem estava mais desiludido, se ele, se eu.

quinta-feira, maio 17, 2007

Corrida à Câmara de Lisboa

Se algumas dúvidas eu tivesse de que a política partidária é um emaranhado de tensões que se contradizem, e das quais surgem opções e decisões que não podem ser avaliadas pela forma como se constituiram, o aparecimento da candidatura de António Costa tirar-me-ía todas as dúvidas. A falta de sensibilidade e de tacto político na forma como o PS geriu a disponibilidade de Helena Roseta para discutir uma solução para Lisboa - e cuja candidatura poderá vir a enfraquecer a posição do candidato socialista - e o modo como o retirar de Costa do Governo poderá não só ajudar a desiquilibrar o elenco governativo numa altura em que estamos à porta da Presidência Portuguesa da Comunidade Europeia, como também poderá ajudar a dar a ideia de que os políticos se têm em tão boa conta que podem passar perfeitamente da gestão de um ministério como a Justiça ou a Administração Interna, para a gestão da maior câmara do país, parece não serem tão fortes como o argumento que legitima Costa: trata-se de um dos mais preparados e brilhantes políticos portugueses, tanto no plano politico, cultural, técnico como humano. Além disso, como escreve Eduardo Graça no Absorto, a aposta forte do PS é um bom sinal de inconformismo político, tanto mais de realçar quanto corresponde a um partido que está no Governo o que poderá acarretar, face a um mau resultado eleitoral, danos evidentes para a própria acção governativa. O argumento inicial é válido também para a expectativa de um possível desenlace: à partida Helena Roseta deverá sentar-se na vereação da Câmara e será provavelmente uma das mais qualificadas vereadoras, empenhada em defender uma solução urbanística para Lisboa que valorize a dimensão social da necessidade de fazer valer o direito à habitação. Por isso, embora o PS de José Sócrates não lhe tenha dado a necessária relevância política para discutir com ela uma solução para Lisboa, estou certo de que haverá lisboetas suficientes para fazer com que a Câmara de António Costa venha a ser obrigada a valorizar a participação politica de Helena Roseta. A cidade terá aliás muito a ganhar se Costa e Roseta não se atirarem ao eleitorado que lhes é comum e tentarem, principalmente Roseta, cativar votos nos sociais-democratas e nos independentes de Carmona. Seria uma excelente notícia para Lisboa. E falo antes de conhecer os candidatos, apenas a partir do que intuo dos seus percursos políticos. Porque poderá ser que se Helena Roseta fizer um programa politico surpreendente, ela fortaleça ainda mais a sua posição na disputa política que se avizinha. Até porque António Costa, pese o seu elevado gabarito político, não parece ter uma relação com a cidade tão especial e aprofundada que o faça ser o melhor candidato a presidente da Câmara de Lisboa. Os lisboetas estão habituados a ver candidatos que têm uma relação especial com a cidade, como a tinham João Soares, Sampaio, Abecassis ou o próprio Santana Lopes.

sexta-feira, maio 11, 2007

Lisboa à vista?

Caiu a Câmara. O Eduardo, no Absorto fala disso e, com conhecimento de causa, refere os mandatos de Sampaio e Soares na CML, o projecto, o plano, as realizações. A cidade mudou nesses mandatos. E mesmo os erros graves feitos em matéria de realojamento, foram realizados à base da ciência social disponível na época, muito centrada na eficácia do controle social e político, no culto da uniformização, na primazia ao baixo custo, e na não-valorização cultural das populações realojadas. Participei nalguns projectos de animação para bairros-de-deslocados-em vias-disso. Estávamos errados. Ou melhor, estávamos certos com o que sabíamos mas sabíamos tão pouco. E entretanto tinhamos que ganhar a vida. A Câmara caiu. Avançaram os independentes. Helena Roseta, que quis discutir com Sócrates o posicionamento do PS face ao futuro da cidade e apanhou com o silêncio do lider socialista. Entregou o cartão e apresentou-se como independente. Espero encontrar a sua lista de assinaturas pelo caminho. É um bom exemplo. É um bom exemplo de como deve ser a política. Como também o é António Costa, de que se começa a falar. O importante é que Lisboa tem eleições à vista. E haverá que ter o pragmatismo necessário para sentar socialistas, comunistas e independentes a uma reunião de trabalho para que possam voltar a pensar juntos num programa para Lisboa. A cidade já perdeu muito tempo com o culto da personalização.

quinta-feira, maio 03, 2007

Uma Luz ao fundo do Túnel

Todos teremos razão enquanto Carmona Rodrigues sai pela direita baixa: não havia condições para continuar. Haverá agora que fazer jurisprudência e extrair outras conclusões de algumas relações de proximidade perigosa, nomeadamente do caso de Oeiras.