Mostrar mensagens com a etiqueta a politica nacional. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a politica nacional. Mostrar todas as mensagens

sábado, outubro 15, 2011

Até já

Acordei com uma dúvida: vou à manifestação ficando em casa ou indo para a rua? Estava a pensar ir, revejo-me neste movimento internacional, mas como já escrevi, o último comunicado dos promotores tirou-me a vontade de ir. A actualidade das declarações de Passos Coelho trouxe ao de cima uma questão de política interna que não me parece tão sedutora politicamente como o movimento global por uma cidadania com maior participação política. Aquilo que tinha sido muito claro no 12 de Março foi a firmeza com que os promotores conseguiram manter o seu discurso político de integração e de inclusão de pessoas que encontravam espaço para uma multiplicidade política que reforça a nossa cidadania. Porque a realidade política é uma pressão muito forte. Aquilo que me desagradou no último comunicado dos promotores do 15 de Outubro é que eles estavam a abrir a possibilidade do movimento ser conotado como um movimento contra este governo e as suas medidas impopulares conotando-o com um movimento de contestação ao governo que tem uma determinada expressão política e partidária. Abrindo caminho a que a mediatização do movimento seja feita por aí também. Não me revejo nessa linha de contestação política ao Governo. Partilho com ela muitas questões essenciais, entre elas a necessidade da renegociação da dívida, a necessidade de tributação de muitos rendimentos do capital que andam por aí a passear-se vistosamente, a necessidade acabar com ruinosos negócios público privados, a necessidade de uma política com maior componente de solidariedade social mas subsistem diferendos mais ou menos insuperáveis sobre a precariedade, o Estado, os direitos adquiridos, entre outros e, do ponto de vista da política portuguesa responsabilizo-os directamente, com o Partido Socialista, por estarmos com um governo de direita. É para mim de uma evidência cristalina que por mais pequeno que fosse o mínimo denominador político comum de um governo com apoio parlamentar do PS, do PCP e do BE, seria sempre maior do que aquele que existe com uma política defendida por um governo PSD/PP. E nesta perspectiva, não creio que este governo tenha feito algo ( excepto no plano constitucional, no qual algumas medidas deste governo já deviam ter sido colocadas, nomeadamente a da alienação de posições públicas a favor de privadas com evidente destrato do interesse público) que esteja para além daquilo que se esperaria de um governo como este. Está a defender a solidariedade com os seus grupos de interesses declarados, conhecidos. É portanto sobre um sistema político partidário que não permite encontrar as soluções para uma melhor governação da comunidade que eu, enquanto cidadão, me rebelo, me revolto, me indigno. E mesmo que continue a legitimá-lo através do meu voto, porque o sistema é tão viciado que o meu não voto é também uma legitimação do sistema, comecei, paralelamente, a tentar encontrar outras maneiras de dar sentido à minha participação política enquanto cidadão. Continuo com esta dúvida: vou à manifestação ficando em casa ou indo para a rua?

terça-feira, abril 05, 2011

Para que precisamos da esquerda? (1)

A discussão em torno da exclusão que o PCP faz do PS de Sócrates da coligação patriótica de esquerda levou-me a deixar um comentário longo no facebook a um texto de Rui Bebiano (com o qual estou de acordo no essencial) , que trago aqui para nota:

" Isto faz-me lembrar um pequeno texto de Samuel Becket que o Espaço das Aguncheiras (pela mão da São José Lapa e do Alberto Lopes) montou recentemente e onde três mulheres sentadas num banco só falam em duetos, sempre na ausência de uma terceira. Neste caso o importante é perceber que os partidos de esquerda (onde incluo o PS) começaram a mexer-se para fora dos seus apoios parlamentares de base e estão a perceber que se não disserem ao eleitorado que querem responsabilizar-se por governar a nossa vida, vão sofrer grandes decepções eleitorais.

Costuma-se dizer nas teorias de comunicação que comportamento gera comportamento e é necessário em algum momento romper o padrão de comportamento. A ideia de um governo patriótico de esquerda é abstrusa porque não tem o PS? O que me interessa é que uma ruptura de comportamento com a ideia da esquerda (que não o PS) ficar a gerir o seu comportamento dentro de uma politica de protesto e não dentro de uma politica que se responsabilize perante o eleitorado por governar o país é decisiva neste momento. Se foi o PCP que deu o pontapé de saída, boa, ao contrário do que tu dizes não temos apenas dois meses. Temos também dois meses, uma quantidade de dias ( e noites). Agora a bola está no PS. Mesmo imaginando que o Partido Socialista terá dificuldades acrescidas neste momento em gerir internamente esta abertura à esquerda quando as suas últimas propostas das dinastias PEC eram claramente aquilo que a direita europeia impôs, o que me parece é que o próprio PS perceberá que terá a ganhar com o campo de clarificação da esquerda em torno de algumas poucas questões.

Acho que está a ser cometido um erro fundamental nesta avaliação toda que por vezes fazemos sobre as consequências da ideia que cada partido de esquerda tem sobre quem é ou não de esquerda: quem decide se quer ser ou não governado à esquerda ( e com isso resolve de uma assentada quem é ou não de esquerda) é o eleitorado .

A esquerda só precisa de definir um programa que contenha uma visão de esquerda sobre o que fazer em relação a uma meia dúzia de questões essenciais:

Há Europa ou há apenas Alemanha? Há dinheiro do BCE mais barato para ajudar os Estados ou há apenas dinheiro para aumentar a especulação financeira junto dos Estados? Vamos bater-nos por uma agência europeia para notação da dívida e regulamentar esta actividade ou vamos deixá-la em livre curso dando notas de bom e mau comportamento conforme os seus interesses? Vamos defender o Estado do ataque neoliberal (e defender o Estado passa por aceitar que é tão necessário defendê-lo das ideias que o negam como daquelas que, achando-o inatacável, o deixam tornar-se num monstro!) ou vamos deixar que nos tornem nuns meros pagadores de impostos e dívida?

Se o PCP e o BE o fizerem é já um excelente passo. Em frente.

O governo de gestão e a ajuda externa

Através do Jumento (rol de blogues aqui ao lado), descubro estas duas intervenções de Paulo Rangel que me deixaram espantado. Não sei se me surpreendeu mais o facto de saber que Rangel é um constitucionalista, se ouvir a sua opinião, contra a corrente do seu partido. Subscrevo totalmente.
E também sobre o défice de 2010:

sexta-feira, março 25, 2011

Da democracia à demagogia e desta à solidariedade

Há um problema insanável na questão da precariedade e que, como tudo na nossa vida, só pode ser resolvido de duas maneiras. Ou com demagogia (há quem lhe chame irrealismo) ou com solidariedade (os que chamam a demagogia de irrealista outorgam esta de realista). Não creio que haja em teoria uma maneira melhor que a outra. Na experiência humana tudo é defensável, tudo é contextualizável, admito que possa haver contextos em que uma pitada de demagogia seja o sal motivador, o espectro político tem um lastro imenso, inesgotável, neste território denso, de paisagens em espelho o que nos salva é a ideologia, ou seja, a pertença de cada um a uma determinada concepção do mundo. O que torna uma ideia mais adequada do que a outra é o tempo que temos para as aplicar. Como em tudo na vida. A demagogia parece que não é uma resolução, mas é. Não havendo condições para criar um estado de alarmismo que leve os sujeitos a olharem de frente a sua vida, a demagogia é entendida muitas vezes politicamente como um modo de manter a coesão social. Quando eu digo politicamente quero dizer por governantes e governados. Não há forma de enfiar a cabeça na areia: a democracia é partilha da responsabilidade. O que diríamos nós de um Governo que não havendo ainda perspectivas de crise dissesse que iria defender a diminuição de salários reais, o abaixamento de pensões, o aumento da inflação, o corte da despesa pública, o desinvestimento, a perda de regalias adquiridas para garantir um melhor futuro a longo prazo? Se alguém for capaz de levantar o braço e dizer sim receio estar diante de alguém que tem a mesma hipocrisia política que a rua aponta a José Sócrates. A demagogia leva-nos a exigir que o Estado possa fazer-nos ter como seguro o que é precário. Queremos que os nossos filhos estudem e tenham um bom emprego, queremos poder continuar a ter como segura a nossa reforma, queremos ter os nossos empregos públicos, queremos conviver com deus e o diabo no mesmo quadrante. Não adianta grandes considerações mas a verdade é que muitas pessoas pensam que não é a democracia que nos governa, sim a demagogia. E têm razão e aí começa a ser um bocadinho difícil defender, como fiz no ínício do texto, aquela ideia cínica de que não haja, entre a demagogia e a solidariedade, nenhuma que seja melhor. Para todos os que defendem a superioridade da democracia, a solidariedade e o realismo são melhores do que o irrealismo demagógico. E isto porque a demagogia tem tendência a absorver e a anular todo o corpo democrático deixando-lhe apenas a sua imagem exterior. Ela vive da desregulação, da bondade dos principios desarticulados. Cada um dos pequenos espaços de pressão arranjam um espaço de legitimação para a salvaguarda de medidas que são analisadas dentro de um universo de razões que tendem a legitimá-las. É claro que para cada um de nós que vivemos uma ideia democrática, face à emergência de um estado de carência acentuado e até, uma bancarrota do país, é absolutamente criminoso o pagamento de honorários e prémios a gestores públicos nos valores que foram divulgados muito recentemente pelo CDS e que há muito circulavam nas nossas caixas de correio electrónico. Não é um assunto que possa sequer ser discutido, ponto final. No entanto, estes gestores pertencem a empresas reguladas publicamente. Ou seja, no micro-estado soberano em que foram definidos aqueles honorários eles estão de acordo com um conjunto de articulados que gabinetes de recursos humanos, jurídicos e de finanças elaboraram defendendo-os e legitimando-os. E porque a demagogia tem em si o antídoto para aqueles que a denunciam - já que a demagogia é um estado geral que percorre toda a estrutura da vida pública desde aquele que se levanta todos os dias para ir a um emprego onde não faz a ponta de um corno mas recebe todos os meses o seu salário, àquele que no panteão dos deuses demagógicos saca um milhão e meio de prémios de produtividade por gerir uma área sem concorrência - e porque ela vivifica numa sociedade que apenas tendo o aparato democrático, torna-se dificil pensar que é possível uma comunidade mudar de uma governação baseada nos principios da demagogia, para os princípios do realismo sem ocorrerem mudanças violentas ou até, mudanças de regime. Nestes termos a demagogia é uma doença instalada no corpo democrático, que lhe vai comendo os tecidos, as células, as moléculas, os atómos, tudo. É por isso que o zénite do estado demagógico é a emergência de regimes totalitários porque parece que foi a democracia que nos conduziu a este atoleiro. E não foi. Há uma rima pobre da demagogia que também tem sérias responsabilidades. A hipocrisia. A hipocrisia é por exemplo vituperar o Estado Social, fugir aos impostos e depois achar que a saúde, a educação, a cultura estão enfraquecidas. Ou estar há num trabalho onde não se faz nenhum, onde a produtividade para o bem comum é escassa e depois achar que se ganha pouco, que não se podem perder regalias, que a culpa é dos chefes que não os põem a trabalhar. Ou ser deputado da república , usar e abusar dos requerimentos para não fazer nestum, encher-se com as tenças, as reformas precoces, as partilhas público-privadas e depois assumir uma critica ao laxismo e despesismo do Estado. Ou ser gestor público, definir sacríficios orçamentais públicos e abotoar-se com principescos salário e prémios e toda a sorte de complementos de vencimento. Ou ser jornalista, desmascarar todos os dias casos de favorecimento e prejuízo para a causa pública e aceitar viver um sistema de saúde e de previdência excelente que sai dos bolsos de todos, também daqueles que têm de se contentar com um sistema de saúde geral. Ou ser funcionário do Estado e ter regalias próprias, adquiridas em momentos em que os interesses corporativos conflituavam abertamente com os interesses da comunidade. Hipocrisia, demagogia, rimas pífias de um verso podrido. É um grande problema, claro, até porque, quando alguns de nós começam a reparar que vivemos mais num estado demagógico do que num estado democrático, a grande guarda ideológica da demagogia cai em cima de nós e força-nos a reconhecer que o aparato do estado em que vivemos ainda é o da democracia. O que fazer então em relação à precariedade em vez de uma resposta de sentido múltiplo torna-se numa via de sentido único: face ao tempo que nos resta (a nossa dívida já é 90% do PIB) o grande combate, a grande luta, é a tomada de consciência e o assumirmos, por parte dos governantes, solidariamente a perda de privilégios, de regalias, de partes do vencimento, seja lá do que for, e da parte dos governantes, assumir-se a verdade, a informação, a austeridade, a limitação exemplar da despesa pública, dos benefícios exdrúxulos. E para isso, neste contexto, com um Presidente da República e um Primeiro Ministro que, mais do que a coesão, suscitam a crispação nacional afigura-se difícil a resolução deste problema no actual quadro político. Isso só nos tem levado a uma forte ideologização de decisões que agora deveriam poder estar mais ligadas à sensatez do que ao antagonismo ideológico. O que é um problema muito grande: é que também não se afigura muito luminosa a possibilidade de um verdadeiro novo quadro político se o pensarmos exclusivamente a partir da representação política sentada na Assembleia da República. O baralhar e dar de novo seriam apenas uma perda de tempo. Enquanto a política não poder receber os contributos activos dos movimentos de cidadania que surgem, nada de verdadeiramente novo se passará em Portugal. É por isso que é tão importante crescermos juntos na tomada de consciência de que mais do que melhores governantes, temos de ser melhores governados. E é por isso também afastar aqueles que querem levar a manifestação de dia 12, para o campo da hipocrisia e da demagogia. E pensar que, para além do dia 12, há mais 30 ou 31 dias no mês. E que a Primavera está à porta. Deveremos trazer a alegria da luta às praças, ás ruas e avenidas.

segunda-feira, março 08, 2010

Queimar em lume brando

Ao que tudo indica a investigação do Freeport terá milhares de peças processuais. É já um dejá vu, o saber-se que cada processo acarreta dezenas de pastas, centenas de arquivos, muitos milhares de páginas. Como esta carta. O que quer dizer que, no estado em que as coisas estão, a simples informação de que a investigação tem um determinado elemento processual dará para milhares de títulos redundantes. Não interessa que depois a notícia retire a importância ao anunciado pela notícia. Se hoje já muitas vezes constatamos que a actividade politica tem dificuldade em angariar pessoas de mérito intelectual, politico e humano de relevo, com isto o que querem que a politica se torne no futuro? Uma actividade para sado-masoquistas? Uma espécie de circo romano?

segunda-feira, julho 13, 2009

A politica da verdade da Manuela

Vou ao Da Literatura e apercebo-me o quão bons vão os dias da oposição em Portugal. Como é possível uma pessoa dizer, como Manuela Ferreira Leite, em 25 de Junho:
«Vamos rasgar e romper com todas as soluções que têm estado a ser adoptadas em termos de política económica e social.» (Ler no Público.)
e a 9 de Julho. «Não há nenhuma medida anunciada por este Governo com a qual eu discorde. Eu nunca disse que rasgaria políticas sociais. Não há nenhuma medida a que o PSD se tenha oposto ou que tenha criticado sequer.» (Ler no Diário de Notícias).
e querer afirmar-se como a paladina de uma política de verdade?
Santana Lopes está bem acompanhado!

sexta-feira, julho 03, 2009

Pedimos desculpa por esta imagem, a política segue dentro de momentos

O episódio Manuel Pinho é um daqueles acontecimentos, como os do teatro invísivel criado por Augusto Boal, que tem mais interesse por aquilo que provoca e suscita do que pelo próprio gesto, naturalmente irreflectido (e, há que reconhecê-lo, tratado de forma acertada pelo próprio). Se Manuel Pinho não fosse Manuel Pinho mas um actor caracterizado a rigor para simular Manuel Pinho, tudo se teria passado segundo a fórmula celebrizada por Augusto Boal: o actor sairia de cena pela sorrelva e depois o mais importante viria a seguir. O que não explicaram a nenhum dos protagonistas desta cena é que o verdadeiro episódio Manuel Pinho só começou a seguir no comportamento de todos, digo todos, os intervenientes. É claro que a imagem de Manuel Pinho foi suficientemente forte para apagar qualquer hipótese de que aqueles que fizeram logo a seguir intervenções políticas pudessem vislumbrar-se a si mesmos ao espelho desta cena. E mesmo que muitos digam, com alguma razão, que Bernardino Soares, Paulo Rangel, Paulo Portas, até Francisco Louçã e Luís Fazenda, não parece terem grande relação autocritica com a imagem que vêm reflectida no espelho, quando acordam, neste caso temos de lhes dar o benefício da dúvida: a imagem de Manuel Pinho sobrepôe-se a todas as outras. Só que, tal como no teatro invisível, o que fica depois desta cena é o triste espectáculo político que o Parlamento deu de si mesmo. As putas do regime foram à manicure tirar a merda das unhas, diria o Pacheco, se ainda por cá andasse a ranger os dentes.Nada daquilo foi sério, tudo aquilo foi investimento numa seriedade a fingir, sobranceira. Semióticas à parte, sem chifres, de touros, de diabos, ou orelhas de burro. E nesse aspecto seria bom os politicos parlamentares consultarem o estudo da SEDES que é tema também no Público. Enquanto Manuel Pinho sai como o homem comum que vai gozar umas belissimas férias, os que têm de ficar na política não vão poder gozar para sempre de gestos como o de Manuel Pinho para evitarem que o povo os veja como realmente são.

quinta-feira, junho 18, 2009

Ler o Grande Circo

Quando percorri os jornais, a blogosfera, à procura das análises sobre a entrevista a José Sócrates aquilo que encontrei pareceu-me mais um esforço de fazer um escalpe ao primeiro-ministro. É legítimo, os escalpes mediáticos são muito catárticos e não creio que os próprios marketeers do primeiro ministro não tentem explorar essa condição, mas isso dificultou a minha tarefa quando me lancei ao rescaldo da entrevista. E eu queria realmente saber. Até porque perdi partes substanciais da entrevista, nomeadamente, para mim, claro, quando ele terá assumido como erro a pouca importância dada à cultura. Ou quando ele falou sobre a obra feita no controlo das contas públicas (já que, segundo o que ouvi a uma comentadora da SIC ele teria sido grosseiramente falso face ao relatório mais recente do Banco de Portugal).
Assisti meio divertido ao rescaldo dos comentários televisivos, feito tanto por jornalistas como por políticos.
Para mim que estou dentro do fora do circo, há uma coisa que me causou alguma perplexidade: a coincidência tanto de pontos de vista como de abordagens entre os comentadores jornalistas e os políticos (excepto o Ricardo Costa que embora seja cada vez mais irritante (e irritável) no modo como açambarca a palavra nos debates tem o mérito de se preparar muito bem para estas participações) o que diminui a mais valia analítica. Porque é claro que é natural que os partidos da oposição tentem desvalorizar a nova atitude do primeiro ministro, dizendo que ela é plástica, falsa, que lhe fica mal. Compreende-se a estratégia: se esta nova atitude lhe ficar bem será terrível para a oposição, já que perde muito do seu argumentário contra o primeiro ministro. O que eu já não acho muito interessante é ver um politólogo a caracterizar a atitude do primeiro ministro como um vaivém entre o delegado de propaganda médica e o explicador de província. É uma tentativa de assassinato de carácter que é admissível num combate político mais aceso - porque não há nenhum ataque que não dê ricochete e, neste caso da politica essa possibilidade de alguém ser ferido pela arma que utiliza como que legitima o seu uso - mas surge totalmente fora de uma análise mais fria do facto político.
A primeira coisa que seria interessante pensarmos é nesta questão da autenticidade, da verdade na comunicação política onde os protagonistas assumem um determinado papel comunicacional. Para o fazerem devem moldar-se aos objectivos que têm para cumprir. São actores, representam algo para o exterior. Esse papel, tal como no teatro, é uma parte composto por aquilo que os actores políticos, os seus encenadores e directores e pessoal de apoio, prepararam para fazer passar uma determinada mensagem, outra parte constituída pelo confronto com o meio e com o receptor da mensagem. Quanto mais alto o nível de poder que representam mais vulneráveis são ao modo como os seus comportamentos são vistos (1).
No caso de José Sócrates, o seu comportamento politico tem vindo a ser caracterizado como autista, arrogante, que pensa que tem sempre razão. Esta imagem foi construida em diferentes momentos e nalguns casos tem a ver com o seu comportamento: lembro-me de uma certa irritabilidade que ele demonstrou enquanto era ministro, ou em entrevistas que não lhe correm tão bem quanto queria. Ou também pela forma aguerrida como assume parlamentarmente o combate político. Mas qualquer pessoa percebe que grande parte da imagem de arrogância advém de um facto político (2) do qual ele não tem responsabilidade nenhuma: o de com ele o Partido Socialista ter tido a primeira maioria absoluta à esquerda no pós 25 de Abril e de ter por isso condições impares para desenhar politicas que podiam ser impostas sem condicionalismos politicos formais internos para além daqueles que resultam do natural exercicio do poder constitucional e da presidência da república.
O que também valorizou a rua, a pressão corporativa, sindical e dos meios de comunicação social. É um fenómeno que acontece muito nas maiorias absolutas. Mostrando à teoria política que afinal as eleições, com ou sem maioria absoluta, não açambarcam todo o poder político disponível. Se a oposição parlamentar tem numa maioria absoluta um papel mais ou menos decorativo e regimental, pelo contrário a rua, as bancas de jornais, as organizações profissionais e os lobies económicos, financeiros, sociais. têm um grande ascendente político.
Também, porque para uma segunda geração de políticos que dominam ou dominaram vários espectros politicos, onde se integram Portas, Durão Barroso, Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite, Luis Filipe Menezes, Sócrates parece um pouco o nosso Special One. Tem boa figura mediática, faz alarde da sua exuberância física, é inteligente, intuitivo, bem preparado, é moderno, assume questões fracturantes com uma desenvoltura que aquele PS que queria ser poder muitas vezes não tinha, pertence a uma nova geração de políticos criados já na revolução e que assumem muito profissionalmente a política. Por outro lado, ao contrário do que se deveria esperar desta imagem arrogante tem cultivado alguns sinais de cultura democrática que são raros: presença na assembleia da república, ida à televisão para se se explicar em aspectos tão controversos como o Freeport ou o caso da sua licenciatura. É dificil imaginarmos qualquer um dos líderes políticos que actualmente ocupam o espectro parlamentar a resistirem pessoal e politicamente a um ataque e a uma exposição mediática tão forte, tão intensa e tão prolongada como aquele a que tem sido sujeito Sócrates.
Sem dúvida que as políticas do Partido Socialista merecem ser combatidas pela oposição e há muitos aspectos em que esse combate, para ganho comunitário, tem sido feito com grande sentido de justiça e oportunidade por parte desta. Também é do mais elementar bom senso reconhecer que o Governo tem tido uma actuação muito vulnerável em áreas muito importantes como a Saúde, a Educação, Cultura, Economia e Finanças, não devendo por isso estranhar-se a ebulição social e política que tem provocado. O que parece é que por mais defeitos que atribuamos às politicas desenvolvidas por Sócrates parece ainda ser do mais vulgar bom senso reconhecer que na oposição os personagens políticos estão a anos-luz do desempenho profissional que se pede politicamente a quem quer assumir uma liderança politica do país. Ou seja, os defeitos de Sócrates, penalizando-o, não conseguem iluminar as qualidades políticas e pessoais dos seus adversários.
E essa é que é a grande verdade que custa a todos eles, animais politicos (que sabem que já tiveram de mudar de comportamento politico muitas vezes e que por isso pressentem a hiprocrisia da acusação sobre a mudança de tom do primeiro-ministro):é que têm medo de que José Sócrates, agora que se calcula que já não terá maioria absoluta, pareça menos arrogante. O mais engraçado: estará por provar que esta mudança de tom esteja mais na representação do que na sua recepção. Somos nós que vemos José Sócrates menos arrogante porque já não o vemos como o primeiro ministro que tem uma maioria absoluta mas como o homem que se ganhar terá de governar com uma maioria de acordos parlamentares.
No entanto, surpreendentemente, tudo isto que se disse sobre a nova atitude de Sócrates poderá ter grande evidência e será assim aliás uma grande injustiça para uma das melhores pivots e entrevistadoras da tv portuguesa, Ana Lourenço, a quem - para além de um dia muito quente e longo com uma presença na Assembleia por causa de uma moção de censura - se deve grande parte desta "nova imagem" de Sócrates.
----------------------------------------------------------------------------------
(1)Temos erradamente a impressão de que estes individuos são seres bafejados pela fortuna, que são uns privilegiados mas se os olharmos pelos olhos de um cidadão comum que gosta da simplicidade, do usufruto desse grande poder que é respirar, os mais altos representantes da Nação (presidente, primeiro ministro, ministros, secretários de estado e chefes de gabinete) têm uma vida de cão. Têm uma vida de cães actores.
(2) Para além de factos absolutamente lamentáveis como os da Directora da DREN ou o caso dos cartazes do Centro de Saúde, mas com os quais é dificil conotar José Sócrates.

segunda-feira, junho 23, 2008

Ícone do poder masculino

"no que respeita à questão do género, o PSD, saído deste Congresso, é um lamentável mundo de homens, um partido desfasado da realidade social, paradoxalmente, presidido por uma mulher. Manuela Ferreira Leite andou muito distraída na constituição das suas listas, ou melhor, foi consequente com a sua ideologia passadista: as mulheres querem-se em casa a tratar da família … nunca em lugares dirigentes. Quando comecei a fazer as contas nem queria acreditar: Manuela Ferreira Leite é afinal um ícone do poder masculino usando a sua qualidade de mulher, exclusivamente, para fins de pura propaganda."
Eduardo Graça no Absorto

sábado, junho 14, 2008

A reflexão na ferida

preciso que o governo passe à ofensiva desenvolvendo um plano de ataque à crise sustentado em medidas perceptíveis como necessárias e justas: para isso talvez seja necessário um novo olhar sobre as contas públicas, a politica fiscal e o modelo de gestão do orçamento; a salvaguarda dos compromissos assumidos, no âmbito da UE, com o máximo aproveitamento das suas margens de flexibilidade e, quiçá, uma remodelação governamental com vista a restaurar a confiança na capacidade do governo para enfrentar uma situação nova com a aplicação de medidas novas. "
O Eduardo Graça tem assumido recorrentemente o apoio, e até a defesa deste Governo. Por isso a sua reflexão de hoje assume maior interesse e pertinência. É preciso alguma agilidade para os lados de S. Bento.
Adenda: Manuel Maria Carrilho escreveu hoje no DN um texto que é um sinal de que no PS há massa critica - eu sei, isto é um chavão, mas tenho o meu filho Pedro aqui a soletrar cada palavra e tenho que acabar rapidamente este suplemento - e vontade de discutir a situação de crise que atravessamos e que é também uma oportunidade.