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quarta-feira, março 28, 2007
Um pedaço de luz
Andava de mal com a vida. As coisas não lhe corriam muito bem. Tinha passado metade da sua vida fazendo uma correlação directa entre pensamento e acção. Se achava que aquele não era o seu sítio, ía-se embora. Estava por isso a salvo da mediocridade alheia, entretido com a sua, com os seus limites. Um dia caiu numa armadilha. Um amigo de armas foi para um lugar de chefia nos Correios e, por causa daquele vocação romântica para o género epistolar, chamou-o a ele como especialista da posta. Foram anos bons. Difíceis e trabalhosos, mas bons. Entretanto os anos passaram. As coisas mudaram muito na posta. Os correios quase tinham deixado de vender selos e ele viu-se encostado a um canto. Entretanto, sem dar conta disso, tinha perdido a capacidade de dizer não. Já nem escrevia cartas, como o seu pai sempre fazia, a reclamar disto ou daquilo. Ficava ali, a rebentar, de vazio, de incomodidade, de falta de festa. Aprendeu a odiar, como todos os outros. É o ódio que nos safa da ruína. Que nos vai corroendo o juízo, o decidir, o próprio pensamento. Um dia, estava a jantar com um amigo, falou-lhe dessa ferida mal suturada, este disse-lhe:
- Às vezes pagamos um preço demasiado caro por não queremos dizer não.
Sorriu. Um amigo é um pedaço de luz nos meus olhos, pensou.
sexta-feira, março 23, 2007
Mudar sem ódio
No outro dia disseram-me, quem está mal muda-se. Olhei-o, ele odiava-me. Eu odiei-o também interiormente, da forma mais odiosa que me parecia ser capaz. Respondi-lhe, quem está mal muda. Como se lhe dissesse: pôe-te a pau, o teu poder não é divino. E depois percebi, que ele era um homem realmente muito poderoso. Não pelo poder que sobre mim tentava exercer, demonstrando-o. Porque me colocou cheio de ódio. Custa muito a admitir mas é verdade: a minha luta não é com ele. O meu combate é interior.
sexta-feira, março 16, 2007
Memórias de um Carteiro
Tinha aterrado no EPA havia meia dúzia de dias. Eu não andava muito feliz. Tinha as minhas escapatórias, gostava de ir para a pista ver os aviões, andar nos carros eléctricos, mas o convívio com os meus colegas não me entusiasmava muito. Nem o convívio nem o trabalho. Naquele entreposto postal o mundo estava dividido em carteiros e em texes. Os texes eram os técnicos de exploração que dividiam as cartas por móveis organizados pelos mais diferentes destinos. Havia as cartas que vinham de todo o mundo e as que íam para todo o mundo. Nós ocupávamo-nos com estas últimas. Era um mundo muito hierarquizado. Os carteiros alimentavam as estantes dos texes com os tabuleiros cheios de cartas. O trabalho de um carteiro não era muito especializado. As malas de correio chegavam por tapetes rolantes e a nós só nos era pedido força bruta. Tinhamos de tirar os sacos, despejá-los em cima de uma grande mesa de metal e meter a correspondência toda em tabuleiros. O correio era dividido e depois nós íamos atar maços de cartas e voltávamos a colocá-lo em sacos, azuis. Seriam assim quase todos os meus dias não fossem dois bons amigos que entretanto tinha feito. Uma antropóloga que conhecia todos os meus amigos do teatro e um designer. Já viviam juntos e casaram-se nesse ano. Foram eles que nesse ano me ofereceram a Poesia Toda, do Herberto Hélder que foi uma autêntica revolução na minha relação com a poesia. Ela muitas vezes aproveitava os postais que vinham sem destinatário para escrever o meu nome, e uma mensagem de alento, coragem, olha a janela, que naqueles momentos era o bastante.
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A semana passada mandei-lhe um flyer de um acontecimento que estou aqui a organizar na Casa da Cultura dos CTT. Recebi de volta uma mensagem de Goa. Estava numa cabana, ao pé da praia, cheia de uma solidão maior e de repente aquela mensagem vinda de Portugal fê-la estremecer. Hoje de manhã recebo um novo email, estava no aeroporto de Bombaim à espera de voo de regresso, era só para combinar um café na nossa esplanada.
sexta-feira, março 09, 2007
Memórias de um Carteiro
Só ao meu terceiro dia como carteiro conheci o meu chefe. Estávamos todos em fila, encostados à parede. Na secretária tinha uma folha com os nossos nomes e as nossas fotos. Um lápis vermelho e um lápis de carvão em cima da folha. Falou do respeito, da autoridade, do respeito e da autoridade. Quando íamos a sair lembrou-se de um tema que lhe era caro e que ainda não tinha sido abordado, o respeito e a autoridade:
- Quem está mal, muda-se!
Não disse nada. Não me apeteceu arranjar chatices logo na primeira semana. Mas o Luís, antecipou-se:
- Sr. Cebola, quem está mal muda.
O chefe olhou-o severamente, pegou no lápis vermelho e escreveu qualquer coisa com traço grosso à frente da sua foto. Não importava. Para nós começou ali a construir-se um herói, um herói para os nossos dias cinzentos.
quinta-feira, março 08, 2007
Memórias de um Carteiro
Entrei para os Correios no dia cinco de abril de mil novecentos e oitenta e dois. Faz por isso este ano vinte e cinco anos que cá trabalho. As únicas interrupções foram nos três primeiros anos. Entrei para suprir as faltas provocadas pelas férias dos carteiros. Erámos os carteiros assalariados. O meu primeiro posto de trabalho foi no EPA, Entreposto Postal Aéreo, no Aeroporto da Portela. Lembro-me de muita coisa, principalmente do cinzento. Eram cinzentas as nossas batas. E as estantes separadoras do correio. As paredes também. Não eram cinzentas as sacas azuis do correio internacional mas como eram colocadas num lado da sala onde não havia luz logo que ali chegavam adquiriam o tom pardacento de tudo o mais. Os selos eram coloridos. Os selos dos postais, dos envelopes, as próprias tiras identificadoras do correio aéreo, eram a cor necessária para que o cinza dominasse o ambiente. Aprendi ali que uma vida pode carecer de tudo menos de uma janela. A janela dava para a pista, para o movimento dos aviões. E desciamos as escadas, íamos dar à própria pista. Aí podiamos conduzir uns carros eléctricos, que levavam os atrelados onde vinham os sacos de correios. Era o meu prazer supremo. Sentar-me num atrelado a tomar um galão e um pão com manteiga e imaginar os lugares para onde iria se me enfiasse dentro de uma saca de correio. É preciso tão pouco para saciar o espirito.
terça-feira, março 06, 2007
Metamorfose no DN
O novo director do DN diz que vai manter o DN com a "sua orientação histórica de independência e rigor" e o seu patrão complementa que o "DN vai continuar fiel às suas raízes". Sobre o mesmo assunto escreveu, no Público, Eduardo Cintra Torres: "A mudança no centenário diário lisboeta é um acontecimento que marca positivamente a história do jornalismo português recente. " O cruzamento dos discursos de Oliveira, Marcelino e Cintra Torres parece uma montagem dos Gatos. Diz Eduardo Cintra Torres que "as mudanças que se projectam com a chegada de João Marcelino resultam de que, para não fechar o jornal, o novo proprietário teve de cortar a contraciclo com uma tradição, poucas vezes interrompida, de ligação do DN ao poder e ao governo do momento. " Pelo que nem Oliveira nem Marcelino vão ter a vida fácil. Com os profetas da desgraça conluiem-se os arautos da boa nova. Nem tudo é mau. Incólume fica o objectivo de "alcançar uma rápida liderança no segmento" e a necessidade de "ter bons resultados".
quinta-feira, março 01, 2007
O outro lado
Não demorei assim tanto a dizer adeus. Despedi-me das pessoas essenciais. Olhei as paredes do velho teatro. As minhas horas nelas. E à saída da porta de caixa entrei, tal e qual a Alice, numa porta enorme, que rangia.
Carteiro de giro
Eu creio que foi o Luís que mexeu os cordelinhos. A carta vinha assinada pelo Luís Nazaré mas tenho a certeza absoluta que foi ele que se mexeu e remexeu até conseguir a minha reintegração como efectivo no corpo nacional de carteiros. Ainda não sei qual é a minha zona mas claro que aceitei. Apetece-me voltar às origens. Ser carteiro de giro. Andar pelas ruas faça sol ou faça chuva. Dizer bom dia e boa tarde e ser reconhecido. O meu indíce de popularidade vai subir muito, muito. Tem umas partes mais aborrecidas, mas é como dizia a Maria Porto, ser carteiro deu-me também as horas mais felizes da minha vida. Pús uma única condição e confesso que a medo, pensei que iria deitar tudo por água abaixo. Falei-lhe no Luís, o quanto admirava a descrição que ele faz da repartição dos correios, queria também escrever livremente sobre o meu trabalho, sobre os meus chefes, soltar o fígado, libertar a vesícula, doesse a quem doesse. Nunca tive geito para cartas anónimas, para a maldicência sem assinatura mas o poder de " qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência" apaixona-me desde miúdo, quando fingia ser o Clark Kent e assim me libertava dos horrores da guerra fria, da proibição de ver O Santo e O Fugitivo ou até, da repartição de tarefas domésticas. Fiquei espantado com a resposta positiva, sem pestanejar. Os CTT mudaram muito desde a última carta que entreguei. Fiquei tão impressionado que até me esqueci do meu cavalo de batalha de há vinte anos: não usar farda. Que se lixe. A farda nunca matou ninguém.
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