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sexta-feira, agosto 15, 2008
quinta-feira, agosto 14, 2008
Há na luz destes caminhos algo que fica para além do real. Esta imagem é tão antiga para mim. Atravessamos os três estes caminhos, o passeio depois do jantar até ao café, e a primeira sensação que tenho é a da duração desta imagem como estória. Sou as imagens que transporto. E é um lugar comum dizê-lo, pensá-lo, que me transportam. Há mais ou menos quinze dias, antes de começar estas férias, eu era diferente. Nesse sentido, não tive férias. Trabalhos do eu. É verdade que não tive a sensação de trabalho, de esforço. Muitas vezes passou por ser apenas um deixar que o tempo passasse. Não lhe colocar muitas perguntas. Não pensei em escrever este texto. Pensei até em colocar uma imagem, dizer uma frase e ir embora. Tenho muitas fotos que tiro durante os meus dias e quase todas elas são possíveis posts. Não estou ainda em tempo de escrever. Sinto-o. Quer dizer, não me tira muito tempo vir aqui dizer duas ou três toleimas e desandar, mas o tempo de perceber o que esta escrita é, o que pode ser, ainda não aconteceu. Todos os dias olho o meu vazio e confiro-o com a minha notícia interior. Não coincidem.
terça-feira, agosto 05, 2008
Da justiça (e dos jogos)
Estamos à mesa, no jardim. Já se saboreia o ananás e o melão e as atenções viram-se para o que faremos desta tarde. Fala-se de jogos. Ela não tem dúvidas:
- A mamã dá licença é um dos jogos mais injustos que existem. Estão ali os jogadores e a pessoa que está de mãe é que decide quem ganha. Além de que uma mãe nunca deve escolher entre os seus filhos. Todos deviam fazer os mesmos passos...
O irmão, mais novo:
- Mas isso seria injusto, há alguns que têm as pernas maiores...
segunda-feira, agosto 04, 2008
Gel esfoliante
Um acontecimento é uma coisa estranha. Nem sabemos se é uma coisa. É um encontro de coisas, de matérias, de matérias diferenciadas tanto no tipo de existência, material ou imaterial. Quando uma sucessão de acontecimentos se organiza como uma mesma identidade, agrupamo-los e a essa agrupamento chamamos vida que se torna assim numa sucessão de coisas estranhas. Dizemos que algo acontece quando esse acontecimento, que não sabemos o que é, se realiza num espaço e num tempo. Se realiza ou não. Se esperamos uma tempestade e se ela não se realiza dizemos que não houve tempestade. Ou se um desastre nos aparece como inevitável e ele não ocorre, dizemos que se evitou o desastre. Por isso é muito claro que o desastre e a tempestade aconteceram primeiro para depois terem desacontecido. Nunca saberemos por isso definir muito bem o que é um acontecimento. É algo que desafia a nossa compreensão. Mas a nossa compreensão é muito limitada. Por exemplo, nós fomos educados a entender que há uma realidade interior e um realidade exterior. Para haver uma realidade exterior e uma realidade interior tal como a nossa ideologia a fornece a unidade mínima de significação é o corpo, a pessoa, a sua identidade. A sua individualidade. A sua vida. Que não é mais do que uma sucessão de coisas estranhas. Por ser uma sucessão de coisas estranhas foi criado, nas sociedades humanas, um dispositivo ideológico que, utilizando os princípios tecnológicos das etars, consegue fazer destilar da vida a sua estranheza, mandando-a para áreas como as artes e a ciência onde ela, a estranheza, sendo a sua condição natural, não perturba. Isso permite-nos viver a maior parte dos nossos dias sem grandes perturbações metafísicas. Aliás, isso permite-nos viver a maior parte dos nossos dias. A metafísica no mundo ordinário é uma doença do espírito e afecta a vida regular, podendo até inibir a autonomia do sujeito, a sua liberdade. Excepto nalguns dias por ano. Como as férias. Aí podemos desaparecer, desintegrar-nos num pensamento e voltar de novo à superfície, à espuma. Foi por isso que hoje, ao tomar banho depois de vir da praia, e ao colocar um pouco de esfoliante para remover as células mortas, fiquei ali imerso em metafísica, a pensar nas minhas mais pequenas células, em quem seriam, em quanta generosidade tiveram de me trazer até aqui, de morrerrem por mim. Estava quase a desfazer-me em água, e a pensar, vou na correnteza, quando um chamamento, vindo do lado de fora, me trouxe de novo à realidade, à fisica, à ideologia.
domingo, agosto 03, 2008
A vida em non stop
O silêncio é uma convenção em desuso neste nosso mundo. Caiu a noite aqui, vai já o começo da madrugada. Vou ao quintal estender uns calções de banho e uma toalha que se atrasaram a chegar à corda da roupa. A mola cai ao chão, na laje, e o barulho ecoa nas redondezas. O cão em frente ladra. Ladra também, por simpatia, o cão da casa ao lado. Mais um outro lá ao fundo. Ouço vozes, acendem-se luzes. A vizinha do andar de baixo, cuja porta dista uns três metros do nosso lado do quintal, acende a luz, abre o postigo e corre o cortinado. Olha para mim, vê-me meio envergonhado pelo distúrbio que causei. E depois, apercebo-me do que isto é: o tempo que já vivi num outro mundo que já morreu. Onde o mundo parava entre as onze e as sete da manhã. Em que a televisão se calava depois do anúncio do fim de emissão. Em que tudo parava, excepto o non stop daquela vida muito própria da noite, os bolos da Praça do Chile, as sessões do Quarteto, os autocarros do arco-do-cego, o cacau da ribeira e o mercado. A vizinha de baixo ainda vive nesse mundo. Estamos a uns três metros de distância mas já não estamos no mesmo século.
sexta-feira, agosto 01, 2008
Canavial
O canavial é um lugar da (minha) infância. É um sítio mágico que tem lá tudo. Os materiais. As peças de todos os jogos. As lanças. As espadas. As espingardas. As canas de pesca. As varas para construir cercas, cabanas, cubatas. Brinquedos pequenos. Flautas, apitos. Chão para nos deitarmos, nas nossas precoces cabanas. E também lendas, como aquela do homem que enterrou um segredo no canavial e que este o devolveu nas canas. O lugar das canas era também o sitio por onde entrávamos e nos guardávamos. Vejo um canavial e sou menino outra vez, quanto mais não seja nos olhar que lhe lanço. Eu não sei o que teria sido a minha infância sem ele, o canavial.
quinta-feira, julho 31, 2008
A (nossa) infância
Ainda antes de desfazermos as malas o primeiro tempo é para um passeio a pé. Ele ao princípio não está muito afim. Queria ficar a brincar com a psp (play station portátil). Vamos, claro. Por entre os caminhos que ladeiam o trilho do combóio vamos. Diante deste arvoredo fantástico da serra de Sintra, pela imensidão que é ficar ali a esperar destas imagens interiores nada, tudo, apercebo-me que as férias são também uma espécie de lugar da (nossa) infância.
quarta-feira, julho 30, 2008
Vida no campo
A paisagem saloia é a menina dos meus olhos. Sou daqui, deste verde raso, temperado pelo castanho da terra, intervalado pelo amarelado dos pastos, salpicado pelo colorido dos pomares, nestes pequenos montes de casas dispersas. Aproveito um momento que estou sozinho para me ligar ao mundo da internet que é tão fora do lugar do mundo que este sitio é. Daqui é o firmamento recheado na noite, ontem Jupitér, Neptuno, Saturno de madrugada. As visitas a desoras a casa dos amigos, os cães cá fora, no relvado, a lamberem-nos os pés, a conversa espaçada, o tempo. Na escuridão da noite o horizonte largo em frente. As vozes das crianças que conversam junto à piscina, enquanto os mais velhos, já adolescentes, dentro da casa ouvem-se acordes roubados a uma guitarra. São breves estes momentos de fuga, o pretexto dos emails, dos trabalhos que se trazem sempre dentro da mochila de viagem. Dou um salto para ler as notícias sobre o Carlos Fragateiro. Todos os que me conhecem mais de perto sabem que o distanciamento que nos últimos anos tenho tido da sua actividade de gestor teatral corre a par com a amizade que lhe tenho. E, independentemente das razões que acodem ao ministro ou ao director exonerado, e de toda a legitimidade política que o primeiro tem para dispensar o segundo, este é, para mim, o melhor Fragateiro. O que se indigna, o que na sua indignação não aceita que um tipo por ser ministro lhe falte ao respeito. E o que é solidário com a indignação alheia. Há semanas, quando esta crise começou, pensei que Fragateiro não teria razões de queixa, que este ministro iria fazer a mesma coisa que Isabel Pires de Lima fez com António Lagarto. Mas não. Lagarto deu todos os pretextos ao Ministério da Cultura ao fazer orelhas moucas à tutela. Definitivamente não sou deste tipo de exercício do poder. Tenho-me como um mau líder, fui três vezes chefe, uma oficialmente e duas oficiosas e percebi que preciso de tantas condições especiais para me sentir confortável na minha pele que é melhor deixar essa tarefa do mando para quem a ela melhor se adapta, o uso do mando cansa-me, mas da minha curta experiencia do exercício do poder o que retiro é a necessidade e a obrigação de nos confrontarmos permanentemente com os outros. Retomo a vida no campo. Toca a buzina do camião do pão. A vizinha de baixo traz uma saca de pano. Eu vou a correr buscar uma também. Sim, é um pão saloio dos grandes. Já depois de deixar o padeiro vejo-o a descer a rua. Para nas próximas casas. De cada um delas sai uma pessoa. Um homem da porta da direita. Um casal da porta da esquerda. Falam e conversam durante cinco minutos. Há quanto tempo isto deixou de ser assim nas cidades?, penso, enquanto me lembro de quando ainda havia, nos Olivais, o padeiro, o leiteiro. Talvez seja possível voltar a encontrar isso outra vez, no Second Live, quem sabe. Vou entreter-me com este grilo e a esta cigarra que me estão aqui a desafiar para e já volto.
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