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quarta-feira, abril 11, 2007
Cheiro a gás
entro em casa. um forte cheiro a gás. nem ligo a luz. abro as janelas. às alpapadelas vejo se tenho o fogão aberto. não tenho. o cheiro a gás é intenso. saio para a rua e vou até ao largo, participar a ocorrência aos bombeiros. entram em minha casa e não detectam nada. já estou à espera do vexame. seis homens olham para mim como se eu fosse um caginchas com as coisas do gás. e sou. mas cheirou-me a gás, justifiquei, já pensando de mim para mim que não devia ter aberto as janelas. de repente já depois da portada da rua um dos bombeiros estaca. chefe, cheira a gás. encosta o nariz à porta da vizinha. e não é pouco, exclama. a minha vizinha tinha deixado a boca do fogão aberta e estava com a casa cheia de gás. os bombeiros acordam-na e pedem-lhe que não acenda a luz. que abra as janelas. e acompanham-na algum tempo, está meio atordoada. à saída o chefe estende-me a mão, e disse-me, fez muito bem, provavelmente de manhã se acordasse ficava ali. Sorri. Tinha passado de medricas a um pequeno herói.
domingo, abril 08, 2007
Domingo de Páscoa
Acordei com uma música de um vizinho a dançar-me na cabeça. Uma lentidão no abrir das pálpebras. Aquele prazer de um despertar que vem lá do fundo, aproximando-se, vagarosamente, passando as várias barreiras alfandegárias das diferentes camadas de sonhos que revestem um sono bom. Havia restos ainda do concerto do Fausto, há uns dez anos, que vimos em casa do Molina, ele também lá, frenético, precurtivo, numa visão entrecortada por um dos melhores relances ao Panteão que descobri. A vontade de vir para aqui, escrever um post, como primeira actividade diária deste domingo de Páscoa. Naquilo que é bem o retrato da minha árvore, da minha genealogia, a minha família dividiu-se, uma parte foi para o Norte, para o Minho verdejante das raízes profundas, uma outra, mais pequena, o meu pequeno herói, virou-se para sul que é o lugar do olhar, de tudo o que vejo. É também virado para sul, para o sul que cresce em mim, que eu me abanco nesta sensação indescritível de ser um novo dia.
quinta-feira, março 29, 2007
Duas más notícias de uma só vez
A primeira é de ontem, o Café da Vila já teve a sua última noite. Hoje é para arrumar os móveis, carregar e esvaziar o espaço. mas como se pode esvaziar assim um espaço onde já se viveu tanto? A outra, também na Vila Sousa, é a de que o Pequeno Herói também acabou. Por motivos diferentes, a falta de perspectivas de um negócio livreiro dedicado aos mais pequenos. Muita gente para ouvir as histórias e pouca gente para comprar livros. O Pedro vai ficar tristíssimo. Era a sua segunda casa aqui na Vila. Entrava sentava-se nas almofadas, escolhia um livro e por ali podia ficar horas. Às vezes ía buscar um yogurte para ele e para a Beatriz e ali ficavam os dois. Está bem que todo o mundo é composto de mudança mas logo assim duas, das más, de uma vezada, dói.
quarta-feira, março 28, 2007
Uni-vos Animais de Estimação
Chorrilho diário de insultos dirigidos a uma cadela chegam-me pela janela. Uma vizinha com voz de velha insuportável, ofende, com pequenas pausas, um animal que não vejo mas que imagino também velho, incontinente de esfíncteres, sedento de festas e com um cheiro nauseabundo a cão cansado.
Hoje foi assim a missa das 17:
Que grande merda palavra de honra. Já não tem por onde se lhe pegue. Cadela porca. Estafermo de bicho. Tá quieta pá. Sai daí Lady sai daí. Desaparece do pé de mim, eu já nem te vejo. Só fazes é mal. Vai-te emboraa.
Se a cadela morre é o desgosto da velha.
quarta-feira, março 21, 2007
Epifania culinária
Preencho na memória os passos desta minha primeira caldeirada. Chocos limpos. Sardinha cortada. Peixe avulso, safio, cação, pescada. Cherne. Tomate. Pimento. Cenoura. Courgete. Cebola. Alho. A ver o que dá. Vinho branco. Azeite. Uma a duas horas. A primeira vez. A ver o que dá.
domingo, fevereiro 11, 2007
Agenda Cultural: "O Homem que não há" de Sarah Adamopoulos
"Tudo bem. Mas olha: tira esse sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor ."
""Ascensão de 5 desejos à boca" foi o programa de partida. Tratava-se, inicialmente, de escrever um texto para 5 actores, 4 mulheres e um homem. Cada um deles representou para mim um desejo, algo orgânico de que me impregno, algo que me sobe, e que ascendendo me cresce. Cada um seria, por outro lado, diferente do outro - singular, como é devido a todas as personagens, e em teatro também. Cada um representaria, por fim, uma parte de mim. Identifiquei então o amor, a morte, a vida, a náusea e o medo, como desejos em ascensão.
Mas o 5º elemento, o actor, nunca surgiu, e houve um momento - precoce no processo criativo - em que "o homem que não havia" se transformou no assunto central do texto - e para onde convergiam as falas das actrizes. E por isso, este texto é sobre o homem ausente: o que não há, e sobre algumas das formas que toma na representação das mulheres."
Sarah Adamopoulos
Janeiro 2007
o homem que não há also known as ASCENSÃO DE 5 DESEJOS À BOCA MOSTRA de Teatro de Almada Auditório Fernando Lopes Graça 16-02-2007 21h30 Entrada: EUR 5,00 / EUR 3,50 (>25, <65 e Estudantes) Francis Seleck (Dramaturgia e Encenação) O Mundo do Espectáculo / Teatro de Areia (Produção) Sarah Adamopoulos (Texto) Produção do O Mundo do Espectáculo / Teatro de Areia Interpretação de Ana Sofia Gonçalves, Cláudia Camilo, Joana Arez e Joana Sabala. Nova apresentação no dia 16 de Março, noutra sala, no âmbito da Semana da Juventude de Almada.
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