quarta-feira, novembro 26, 2003

Exílio...

Ela: Se eu demorar trinta minutos a escrever uma palavra, como me acabou de acontecer com esta, e seguindo a teoria das palavras-rebentamento-trovão, quer dizer que entre o lugar em que escrevo e o lugar onde as palavras rebentam dista - não sei em quilómetros quantos - um mundo, um universo inteiro? E estando eu aqui e rebentando as palavras ali, significará isso que me exilei no lugar onde aquilo que digo ou penso ou escrevo é criado? Ou naquele em que aquilo que digo, penso ou escrevo se pulveriza numa experiência de dor isenta de sange?

E já agora, os Dois Corcundinhas...

pelo Teatro Mínimo, existem às 16h de sábado e domingo. Para os mais fanáticos ou ansiosos por ocuparem os miúdos, podem perfeitamente ir às 16h à Guilherme Cossul e correr, no dia 29 de Nov e 13 de Dez, para chegarem a tempo de às 17h30 estarem na Sala dos Brinquedos do Capitão Goma. Quanto aos Dois Corcundinhas vale bem a pena vê-los. O texto é bastante feliz no seu projecto de criar situações aventurosas para os dois jovens corcundas que seguem o escaravelho ( bicho corcunda também) que os vai levar a um feiticeiro que...

terça-feira, novembro 25, 2003

Na Sala de Brinquedos do Capitão Goma...

"Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!"Almada Negreiros Capitão Goma é a exposição de Luísa Ferreira na Casa dos Dias da Água. Em números são 14 retratos panorâmicos e 62 fotografias digitais a cores dentro de insufláveis. 1 conto inédito de José Luís Peixoto com 1 desenho de Hugo David. De 14 de Novembro a 21 de Dezembro. De terça-feira a domingo das 17 h às 21 h. Casa d'Os Dias da Água, Rua D. Estefânia nº 175 (Tel. 213 140 052) "Capitão Goma, personagem encontrado num livro escrito por uma criança e no desejo delas pelas gomas. No quarto das crianças, aonde se pode ler um conto, encontramo-las numa escala superior, com o seu olhar surpreendente e a sua doçura. A sala dos brinquedos é atravessada por uma profusão de cores e alegria inerentes à própria brincadeira e à proliferação de brinquedos no mundo de hoje, solicitações de plástico envoltas em bolhas de ar. Lá fora continua-se a brincar com a terra, com o ar, com a água. Hamburger, comida de plástico servida com bonecos coloridos, que todas as crianças querem ter. Um quarto suspenso de palavra, de sons, de energia sonora." Agora é que vem a parte mais deliciosa da história: vai haver... O quê: Leituras para crianças por crianças a partir de contos dos Autores Portugueses: Onde: Na Sala dos Brinquedos do CAPITÃO GOMA Quando: Sábado, 29 de Novembro pelas 17h30 (José Luís Peixoto conto inédito; Luísa Ducla Soares "O Senhor Pouca Sorte"; Manuel António Pina "Abdulum & Abduldois") e sábado 13 de Dezembro pelas 17h30 (António Torrado "O Macaco de Rabo Cortado"; Matilde Rosa Araújo "Cavalinho, Cavalinho"; Álvaro Magalhães "O Homem que não queria sonhar"; Sophia de Mello Breyner Andresen "A Cebola da Velha Avarenta".) Luisa Ferreira, fotojornalista do Público e da Associated Press até 1998, altura em que interrompeu o fotojornalismo para desenvolver o seu trabalho como fotógrafa, tem exposto individualmente com regularidade desde 1989, entre projectos pessoais e encomendas, e participado em várias exposições colectivas no país e no estrangeiro, com alguns livros publicados.

Falemos de casas,

do sagaz exercício de um poder tão firme e silencioso como só houve no tempo mais antigo, disseste, e assim, dizendo com esta tua gravidade de poema e de poeta, só posso submeter-me e falar de casas. As casas. Na actual bricollage dos afectos contemporâneos - e um dia explicar-te-ei o porquê da redundância - para desmontar uma casa é necessário o mesmo labor, a mesma paixão e até o mesmo amor que foram necessários para a levantar do chão.

domingo, novembro 23, 2003

Deixo de...

lutar por agora. Há uma outra via a destemer. Começo tudo de novo pelo fim. A re-ocupação dos gestos. É aí que ainda muito me perturba. Sinto-me vazio de gestos meus. Desde os onze aos quarenta e um anos vão trinta anos de gestos. Toda a minha gramática corporal está ligado ao sopro. Ao bafo. Terei de começar a libertar os gestos para os poder re-ocupar? Mas como, que gestos usarei entretanto? Sem gestos, desmoronar-me-ei como um castelo de cartas? Vou fazer um letreiro para colocar à cintura: O GESTO NÃO É TUDO / Temporáriamente Vazio. E como reagirão os gestos libertados? Virão acolher-me como libertador? Virão festejar para a rua a liberdade reconquistada? Como poderei fazer propaganda por mim mesmo? A mim mesmo? Deixo de lutar por agora....

Este Ano..

...desenhos de Joana Villaverde. A partir de amanhã, às 17 h, na Casa dos Dias da Água. E até 21 de Dezembro, terça a domingo das 17 às 21h.

sábado, novembro 22, 2003

Mitos dos Anos 70

Ontem, à conversa com o CAM, estava ele a falar do seu trabalho em Coimbra, que será sobre Sartre e Simone de Beauvoir, e sai-se com este comentário certeiro: " - É pá, os anos 70 criaram mitos fortissimos...". Eu tinha não mais de oito anos quando me passou uma espécie de fotobiografia de JFK pelas mãos (creio que seria um suplemento da Flama). Foi mais ao menos na altura em que me ocorrem a memória das imagens do Vietname. A preto e branco. Impressionaram-me muito essas imagens. Também JFK. Nos meus sonhos, em que misturava a Mimi com Nixon e Breznev, o Super Homem era também JFK. E posso garantir que nessa altura a deténte funcionava às mil maravilhas. Nos sonhos, como nos mitos, tudo é possível.

Fronteira(s)

Fronteiras. Quero roçar a minha língua na língua de Camões. O crioulo. O brasileiro. O tetum. Esta fotografia de Augusto Baptista resume como num epigrama o que foi esta primeira fase do 1º Estágio Internacional de Actores Lusófonos organizado pela Cena Lusófona. Até porque nesta encenação do olhar em torno de Bia Gomes - essa magnífica actriz fetiche de Flora Gomes - está o dedo invísivel de Rogério de Carvalho.

Ao som dos pedais

Continuo a ter um fascínio descomunal pela pedaleira. Já tem mudanças, conta-quilómetros, luzes, cesto, suporte para água, encaixe para cadeira de bebé, mas ainda continua a ser como a minha pedaleira de sempre, em Mafra, onde eu, disfarçado de Joaquim Agostinho, ultrapassava todos os dias os meus próprios recordes. No domingo passado fiz-me à cidade. Desci a Av.Roma, fui à Guerra Junqueiro, Portugália, Jardim Constantino, Estefânia, Gomes Freire, Campo dos Mártires da Pátria, Martim Moniz, Rossio, Praça do Municipio e Cais do Sodré. Quando cheguei aqui é que percebi que tinha de mandar terraplanar as colinas, ou então não voltaria mais para casa. Petisquei alguma coisa no meu lugar de sempre, ali ao pé dos barcos. A meu lado uma população de um Portugal de segunda. Emigrantes do leste, brasileiros, turistas. E depois, ao subir a Almirante Reis, subi ao Intendente, meti pelo lado da rua do engate e da prostituição, foi bonito de ver aquele povoléu todo a abrir a dentadura e rir daquele artista do pedal, eu, boina de feltro na cabeça, óculos escuros e firmeza no guiador. Afinal foi fácil. E descobri que ao domingo é agradável passear em Lisboa. Amanhã vou repetir a dose mas já levo conta-quilómetros.

Coimbra é uma lição...

Não estava para me virar para este lado, e possivelmente não o farei da melhor forma. Não estou numa zona de grande clareza. Ainda há pouco tempo quando dei as minhas aulas me apercebi dessa incomodidade. Tenho-me contentado em poder encontrar às vezes algo que se aproxime daquilo que eu lá vou destapando como uma ideia mais encorpada. Mas tudo em mim ainda muito vago, muito achismo para meu gosto. Há pouco aqui comecei a ler um texto sobre cadeados. A minha opinião face ao que lia parecia um daqueles gráficos em que se regista um grande intervalo de valores. O que não me permitia concluir nada. É claro que eu acho um exagero alguém espantar-se que um constitucionalista, mesmo que seja o Vital Moreira, se indigne perante uma prática que ele entende ferida de razão e legalidade. Sobre cadeados, mantenho-os em suspensão, continuando a seguir o trajecto do texto do Luís. Concordo em absoluto com ele em relação a algo que nos esquecemos vezes demais quando há greves, boicotes, cadeados, e toda a parafernália da actividade oposicionista e contestatária: o seu valor é exactamente esse, o de fazer suspender o livre curso dos dias e o de colocar em causa a normalidade dos nossos dias. Quando por exemplo os trabalhadores do metro, da carris, das rodoviárias, da cp, fazem greve, estão a provocar um efeito de uma terrível violência sobre a vida de cada um de nós. Não é agradável para ninguém ter de vir a pé para o trabalho, ou sujeitar-se a longas filas, geralmente no meio de um trânsito congestionado. A greve é uma prática violenta de interrupção da vida quotidiana e por isso, geneticamente em contra-corrente ao espirito da vida democrática. Não parecerá um contra-senso? Se a greve é uma prática violenta como é que ela pode ser um recurso constitucionalmente disponível? Sendo que daí resulta que todos nós - ou a ideia que todos nós aceitamos que se faça de todos nós - queremos viver numa vida social que possa ser interrompida em determinados momentos e salvaguardando certas condições excepcionais. E para quê? Porquê? Porque é que eu que não sou médico me congratulo com uma greve dos médicos que me prejudica no meu interesse privado e aparentemente só beneficia o interesse privado dos mesmos? E o mesmo se poderia dizer dos carteiros, dos motoristas, dos nadadores salvadores, dos actores, e por aí em diante. Em primeiro lugar porque convencionámos que é a favor do interesse geral a tentativa de harmonização dos interesses particulares. E sendo assim, eu acredito que viveremos melhor se os nossos interesses estiverem conjugados. Depois eu confio, e a prática democrática assenta na confiança. Eu confio que o nadador salvador, o motorista, o carteiro, só me obrigará a interromper a actividade quotidiana se isso for imprescindível. Ele poderá também contar comigo nesse aspecto. Em segundo lugar estas ilhas de violência são lugares democráticos na medida em que permitem questionar a qualidade da prática democrática das democracias que instituimos. Não só de violência ruiem as democracias. Também de marasmo. De comodismo. De egoísmo. De laxismo. Uma das razões porque é justo pensar que no momento da invenção democrática o homem estava tão profundamente inspirado que porventura não estaria em si, é esta capacidade ambivalente da práxis democrática em constituir-se antídoto para a violência e para a dormência. O que melhor fez o homem foi o institucionalizar a suspeita sobre si próprio. O de consagrar a possibilidade de se colocar na pele do outro, o outro que será, à vez, ele próprio. Numa greve dos carteiros todos somos carteiros. E seremos todos padeiros quando a panificação pontualmente fechar. O duplo jogo da representação é uma das poucos motivos de esperança que poderemos ter na nossa sobrevivência social. Somos estes que aceitamos ser representados por individuos a quem atribuimos cada vez menos importância e somos estoutros que nos colocamos num lugar que não seria, em principio, o nosso. Voltemos aos cadeados, dos quais também não gosto. A mim parece-me que é empobrecedor de uma ideia de Universidade, principalmente se for uma Universidade em luta, que não se possa entrar nela. Imagino uma Universidade em luta transpirando discussão, debate, reflexão e informação em cada poro. Não conheço Coimbra e não sei como estará neste momento. Talvez tenha acabado de escrever grosso disparate. Talvez os portões estejam fechados mas a Universidade tenha transbordado para a Cidade. E além do mais, quem sou eu, que não sou estudante, para discutir estratégia e eficácia de uma luta da qual estou cada vez mais afastado. Não, não o farei. O máximo que posso fazer, e a isso sim, não me escudo, é dizer que estes portões fechados não me aproximaram desta luta. Por outro lado, e aqui mais uma vez entro no terreno da pura especulação, gostaria que tu também te pronunciasses, a questão não é saber se uma direcção associativa que foi eleita apenas por 2% pode tomar uma iniciativa que também impede os outros 98% de entrarem. A questão que me parece mais complexa é se não é por este problema de representação, que este tipo de medida foi tomada. Nem estou a perguntar se isso é uma razão directa. Pelo contrário, o que acho mais preocupante é se este tipo de opção que é bastante mediática e mediatizável - ou seja, se não houver incidentes ela significará que toda a Universidade pára sem que nunca se saiba, principalmente os dirigentes e os próprios estudantes quem é quem e quantos são nesta luta - não surge por isso mesmo. Tudo isto não quer dizer que pense que os cadeados devem ser retirados pelas forças policiais. O que penso é que Coimbra, mesmo com as portas fechadas, é de facto uma lição.

sexta-feira, novembro 21, 2003

Caiu-me um poeta em cima da chávena...

Hoje estive macambúzio. Enganei-me nas contas e afinal não foi ontem, é hoje, o 17º dia. É claro que estas coisas não significam nada. Depois chovia, o dilúvio em forma de gente. O meu dia de descanso neste rodízio familiar de haver uma hora, por sinal entre a 17ª e a 18ª para, qual gata borralheira, largar tudo a meio e correr para a creche, e chovia tanto que em poucos monetos fiquei ensopado. Em água e fúria. Lá pela 19 ª hora fugi. Não fui para longe. A seiscentos metros. Pastelaria Biarritz. Não há problema, o ZDB ( eheheheh, tenho de avisar o Natcho, ZDB tanto é Zé Durão Barroso como Zé dos Bois) não vem cá senão ao domingo, agora é a minha hora. Compro o JL e o Tal e Qual. Um para ler, o outro para se for preciso. Um jornal S.O.S.. Não é preciso. O JL vem como eu gosto. Fernando Assis Pacheco. Com um poema a Afonso Praça. Tive o prazer de encontrar uma vez Fernando Assis Pacheco. Tinhamos ido ao Jornal falar com Afonso Praça, nosso antigo professor e foi ele que o trouxe pela mão, para falar com os "alunos do Praça". E ali estiveram os dois, a tratarem-nos por tu o sonho, o desejo de fazermos um jornal sobre os Olivais. Quando às vezes me dá graça ver algumas traquinices de miúdos armados em pop-stars disto ou daquilo, a piada vem de sempre ter encontrado uma grande humildade e simplicidade naquelas pessoas que realmente nos poderiam fazer sentir pequenos. Tenho o maior carinho pela memória do Afonso Praça. Ia-o encontrando com regularidade no teatro, principalmente na Comuna, e lá iamos desatando a conversa, e mais tarde, encontrei-o várias vezes na Visão primeiro quando ía visitar o Pedro D.A. ou a Filipa M., depois quando nos juntavamos para almoçar, ele tinha a esperança de me colocar a colaborar na área do Teatro. Não sei porque é que a conversa veio para aqui. Era um texto simples aquilo a que vim. Só para festejar a circunstância de às tantas me ter caído um poeta, e antigo vizinho, na chávena da meia de leite...Se calhar foi esta contaminação do campo de afectos...

quinta-feira, novembro 20, 2003

A Mimi

Lá vem o cigarro outra vez: de facto (em solidariedade com o Levante) talvez estes arremedos de memória paquiderme tenham a ver com a renúncia que não esfumaçar também é. mas afinal, para não ser de facto outra vez, como uma associação livre, um choque em cadeia, um bater de asas de uma borboleta, também a simples menção da palavra platonismo me fez entrar numa aventurosa descida às cavernas do meu romantismo da idade infante. E não terá começado tudo por aqui: tenho registos no meu paleolítico superior sentimental de garatujos platónicos incompletos, as alunas da sexta classe da minha mãe que me estragavam com mimos, carícias e quenturas e a quem eu retribuia com estes solfejos de platonismo que por vezes duravam uma tarde, uma semana, um mês se tanto. E a primeira manifestação, daquelas que doiem, foi mesmo a Mimi. A Mimi era a filha da D. Antonieta, a irmã do , do Miguel e do Zé Carlos, uma escadinha como a dos irmãos Dalton só que, por bem aventurança, terminava não no rabugento Joe, sim na Mimi, uma rapariga que me ensinou a desadjectivar os substantivos, de tal forma ela era não o nome, mas a própria coisa em si. O assolapanço pela Mimi começou ainda na terceira classe, antes das férias grandes que, neste caso, foram insuportável tempo de separação. Tudo isto não deveria ter durado mais do que um ai se não houvesse um condimento terrível: o ciume. Um dia poderemos falar disto com mais tempo e vagar mas a verdade é esta, nada na minha vida teria sido o mesmo sem ciúme e inveja. É que havia na minha classe um rapaz, o Inácio, que era justamente admirado por todos nós por um feito que hoje, ao observar os rabiscos do meu pedrocas, poderá não parecer nada de extraordinário mas que nesta altura, para nós, foi como que um dobrar de milénio: o inácio desenhava os rostos com uma técnica que lhes dava pela primeira vez uma dimensão humana. em vez dos bonecos resultantes de uma cabeça ser construida a partir de um circulo achatado, o Inácio começava a desenhar o cabelo, fazia as orelhas, e , de perfil ou de lado, o que saía era um rosto de gente, homem ou mulher, humana gente. Não eram por isso exagerados os elogios, que começavam pela D. Antonieta, e se replicavam por toda a sala. Da parte da tarde, naquele tempo não havia colégios e infantários como há hoje, a Mimi vinha fazer-nos companhia e claro, em que carteira é que ela se sentava, não há nenhuma dúvida, este Rodin de palmo e meio era o lugar mais cobiçado da sala. Eu bem tentei também a minha sorte na arte dos riscos e rabiscos. Mas a diferença entre um original e uma cópia é profunda. E além do mais, esta luta no real indispunha-me. Não só porque já não estava a conseguir olhar o Inácio como o amigo em que sempre o tivera, também porque até a própria Mimi começava a perder qualidades de musa. Não, não podia assistir sem reagir a este desmoronar do meu mundo. A resposta foi brutal. Comecei ali mesmo, pedra sobre pedra, a construir um novo mundo. Um universo feito de alamedas enormes, triunfais. De palácios infindáveis. E onde eu, Super-Homem, passeava tranquilamente de mão dada com a minha Mimi, ao mesmo tempo que, unicamente para seu gáudio e contentamento, ia combatendo toda a sorte de assaltantes, patifes, larápios, inimigos públicos. Mimi amava-me e ao mesmo tempo o mundo, todo o universo, eu sei, era só o meu mas isso na altura era tão irrelevante, admirava-me também. Depois disso o mal, ou o bem, já estava feito. Até aí a minha vida podia ter sido tudo o que as vidas podem ser. A partir daí, como também acontece com tudo o que mexe, o campo das possibilidades ficou um pouco mais restrito. Não que se tenha diminuido. Como diz um amigo meu, é a partir destes momentos que o nosso campo dos possíveis se ilumina. A Mimi, aquela que resgatei para me ser alento e companhia, porque da outra nunca tive algum rasto, foi assim facho ardendo na noite escura. Agigantando, em nome de uma necessidade de sobrevivência num real que se nos alapa às costas corcundas, todo um outro universo, insustentável leveza da nossa humanidade balbuciante.

quarta-feira, novembro 19, 2003

Dejá écrit...

A propósito do dejá vú, aqui encontrei aquilo que eu respondo todos os dias quando se me perguntam coisas sobre o ser em transparência . Com a vantagem de que a resposta do mundo imaginado é mil vezes mais justa e perfeita.

2 a 3 m / Para uma proxémica do rubro rubor

Quando escrevi no post anterior que comecei a admirar Maria João Ruella estava a dois ou três metros dela deu-me um súbito dejá vú. Foi também a dois três metros de Cândida Pinto, era eu estudante da Nova e ela estagiária na RTP, vim a saber depois, chovia, jantávamos a solo, os dois, cada um consigo mesmo, que eu, platonicamente, me apaixonei por uma imagem, a dela, com os cabelos chamuscados de água e o corpo trancado numa gabardine à Indiana Jones. Incidente sem consequências. Anos mais tarde, quando estagiei na SIC e a encontrei, dia sim dia sim a passar indiferente ao meu lado sem sequer pressentir o meu rubor d'alma, comecei a aceitar a natureza hologramática do platonismo. E hoje, ao fim de um percurso sinuoso e tortuoso por um menú terapêutico que me levou ao psicodrama, aos grupos de encontro, à gestalterapia, à bioenergia e à thalosseterapia (começarei por aqui na próxima recaída) sei que a verdadeira admiração que tenho actualmente pelo seu trabalho tem tudo a ver com o trabalho que realizou no Huambo, na Sérvia e nada com os pingos deste tardio acne de alma.

Chamaram-me a atenção...

...para o meu post "uma terra de pistoleiros". Alguém que já me tinha ouvido os mais rasgados elogios a Maria João Ruella. Por exemplo, quando a vi começar a apresentar os jornais da SIC. E confesso tenho uma admiração secreta e inconfessável por Maria João Ruella. Se ela fosse actriz perdia o pudor e enchia-lhe o camarim de rosas e de poemas balbuciantes de rubro rubor. Comecei a admirá-la estava a uns dois, três metros dela, era eu estagiário na Praça Pública e ela jornalista excelentíssima nos Casos de Polícia. Aliás desconfio que, no dia da pré selecção, quando respondi ao Carlos Narciso que não queria ir para os Casos de Polícia, que preferia ir para a Praça Pública aquela minha resposta, que tanto pareceu desconsolá-lo e que mudou a minha vida, hoje eu podia ser uma espécie de emplastro não do FCP mas do TIC, tinha sido baseada numa premonição - a minha mãe pressente chuva, vento e temporais, eu sempre me inclinei mais para antecipar platonismos- de que a mesa larga e comprida da redacção deste programa era a melhor janela para poder olhar discretamente, sem qualquer traço incomodativo de voyeurismo, a maria joão.

terça-feira, novembro 18, 2003

Do facínora o rosto, o nome e a voz

Fac/ínora. Dou por mim, talvez influenciado por um certo dicionário, a soletrar esta palavra, tentando guiar-me pela sua sonoridade. É que o facínora poderá não ser apenas alguém a cuja face o próprio já não pertence. Ao olhar este rosto de sexagenário avançado torna-se claro que a substância facinorosa vai para além da face. Aliás este, o rosto facínora é um pouco como o actor de Herberto Helder: " A espantosa face facínora que tira e coloca e retira o adjectivo da coisa, a subtileza da forma, e precipita a verdade." Não haja alguma dúvida: para quem não soubesse a maldição que habita neste nome, rosa casaco, o crime maior que poderia ser imputado a este rosto seria o dolo de ocultação do gesto facínora. Felizmente que a imperfeição do mundo não se manifesta apenas no tornar o mundo um pouco mais injusto. E assim também este homem que detém no mesmo feixe um nome e uma face quis ser voz e nesse registo de som pretendeu negar o tenebroso associado ao nome e hoje, aparentemente, dissociado do rosto. E assim se precipitou a verdade : Estamos novamente diante de um homem que nunca percebeu que a verdade e a mentira não são um mero brincar ao rato e ao gato em calabouços insonorizados e insensíveis ao sofrimento humano, mas um jogo dialético constituitivo do respirar democrático que até se permite escutá-lo.

Dar a Outra Face

No outro dia contei-vos que a Esmeralda, uma personagem que criei tinha dito que "Devia haver neste mundo uma lei que obrigasse toda a gente à nascença a cheirar um cabrão. Toda a gente, fosse católica, apostólica ou romana, todos tinham de dar com os cornos naquele fedor. E tinha de ser à nascença, um minuto depois já era tarde de mais...". Há pouco descobri que Luis Tito alimenta dentro de si a insustentável esperança de que mirar um facínora seja uma possível forma de prevenir o acto facinoroso.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Uma terra de pistoleiros...

Será que estou a ser demasido exigente com uma pessoa que levou um tiro no rabo? Que o desabafo de Maria João Ruella é perfeitamente legítimo e que quem o editou, ainda por cima colega, é que foi alarve e cretino? É que, independentemente do modo como analisemos aquilo que se passou e passa no Iraque, independentemente da forma como responsabilizemos essa antiga nação de pistoleiros pelo caos que se vive hoje no Iraque, chamar à terra que foi um dia o berço da nossa civilização uma terra de pistoleiros é grosseiro, ofensivo e de muito mau gosto. O que num jornalista é sempre um calcanhar de áquiles.

Apetecia-me, já disse, mas...

depois oiço o Carlos Raleiras dizer que graças ao escarcéu que o seu rapto tinha dado, também nas televisões árabes, pôde rapidamente ser salvo e, naquele nacional-portuguesismo que fica tão bem a um canto da sala, encolho os ombros e digo, que se lixe a verdade, a ilusão de uma informação um pouco menos espectáculo, de um jornalista um pouco menos protagonista, amanhã a gente fala disso...

No culo. Apetecia-me simplesmente escarrar....

para o chão e dizer indecências e, cá para mim, ao deitar-me, enfrentando aquele anjo de porcelana que colocaste na umbreira da minha cama, mãe, nem teria sequer de justificar-me pois tudo isto seria menor diante das obscenidades que, como lacraus, irromperam dos mais respeitáveis lugares neste últimos dias do rapto do Carlos Raleiras e do tiro no rabo que levou a Maria João Ruella, a partir de agora a nossa Maria João. É insuportável ver este travesti de jornalistas que consideramos. Vejo Carlos Raleiras a abrir e a fechar malas, a mostrar as roupas dele, do Rui do Ó, da Maria João, num longo plano sobre o vazio, a estupidez, vejo as televisões a servirem-nos isto, em peças duplas, triplas, o directo de figo maduro, nem era caso que se pudesse dizer estava maduro no ramo, não estava, verde, cru, tudo isto, o que as televisões disseram, o que as comunicações de sua Excelência o Senhor Presidente da República, do Excelentíssimo Governo, do Dr. Alicides Vieira, todo este enorme blogue nacional, deveriam ir já para um disco rígido para memória futura. Sem isso amanhã, a juventude que não ama a nossa história nem respeita os nossos simbolos, os nossos hinos vai julgar que ficámos assim, idiotas, de repente. É em momentos como estes que a poesia acontece e que nós sentimos que somos todos jornalistas.

domingo, novembro 16, 2003

Alguém devia tocar-me...

para sentir que estou vivo, que sou uma estaca atravessada pelo sangue, e dela rebentam por exemplo: áscuas. foram estas as palavras de herberto hélder que eu mastiguei/saboreei/dei no atelier de leitura em voz alta, ali no regueirão dos anjos, na abril em maio. na feira dos sabores que esta vida também pode ser, aí está um com prazer a sal, ou a mar: despertar um sábado de novembro para, dez de nós, dizermos poesia. primeiro mandamento: respirar. o mesmo e um outro ar.

sábado, novembro 15, 2003

A coisa mais estúpida que eu podia fazer...

era massacrar a cabeça dos meus amigos por causa deste nervo agitado de desmame fumante e não aproveitar esta folha em branco para reflectir mais um pouco sobre este acontecimento invulgar que em mim é não fumar. digo bem, acontecimento invulgar. eu sou daqueles que antes acordava de manhã com o vicio na boca e tinha de meter algo no estômago para em seguida esfumaçar. daqueles que tinham de sair às duas, três da manhã se se lhes acabava o tabaco. Para mim a diferença entre ir para Banguekoque e ir para Nova Yorque era a de que esta cidade ficava muito mais longe, a umas insuportáveis oito horas de abstinência fumante. dizia-me o francisco luís parreira no outro dia que não imaginava conseguir escrever sem fumar. eu era assim também. é claro que agora sinto a minha escrita abrupta, aos solavancos, mas escrevo, é isso que importa. é claro que isso só é importante para mim, mas isso é outra questão. agora no trabalho parece-me tão estranho quando vejo gente nos corredores a fumar, escorraçados para o frio das janelas, com aquela tosse de cadáveres em vivo. sei lá se vou voltar a fumar. isso parece-me tão distante. lembro-me de alguém que em tempos existiu..., diz kaspar de peter handke. eu também me sinto assim. e gostaria de fazer algo por aqueles que se suicidam longamente numa núvem de fumo. eu sou desse mundo, embora há dez dias atrás tenha parado a ampulheta que eu próprio criara para competir com aquela que o todo poderoso c. e fdp me ofereceu no dia em que nasci. Estamos cada vez mais fazendo mais coisas em solidariedade e apoio aos fumantes, é certo. As consultas, as técnicas diversas. Mas é preciso dizer e ter consciência de onde viemos. Fumar só até há bem pouco tempo adquiriu essa dimensão de proscrição. Os nossos cadáveres embutidos em madrepérola frutificaram e alimentaram as economias dos nossos países. Não se pode esquecer isto e pedir a cada fumador que internize e interiorize dentro de si a sua própria diabolização.

sexta-feira, novembro 14, 2003

Personagem-Mistério

"Tenho, como sabem, sessenta anos. Gosto por isso de sondar as almas das novas gerações, para verificar como decorrem as suas novas existências. Quando chove e estou em casa, consulto os trabalhos de referência do Prof. Machado Pais. Mas quando o tempo convida, instalo-me num café, disfarçado de gajo de trinta anos, e estudo pensamento e emoções da mocidade portuguesa. "

quinta-feira, novembro 13, 2003

Homenagem ao Caracol...

"um ca'acol...", diz ele. Queres colo? Tu deves estar doido, Pedro! " é um ca'acol, 'ai!, insiste ele, obrigando-me a parar. Um, outro, mais outro, é este tempo húmido. Agacho-me. Ele também. Vamos 'er...não pudemos fazer 'a'ulho...se'ão 'onde-se ...No outro dia estivemos a provocar um, tocando-lhe com um pequeno pau de fósforo, fazendo-o encolher as antenas e escapulir-se perante a casca. Trazemos um para scanear, para tirar uma "otugafia". E de repente lembro-me do Sam. Não é obsessão minha, mas quando o conheci, já lá vão uns vinte e cinco anos, ele estava a fazer um tratamento de acunpunctura para deixar de fumar. Tinha um atelier nos Olivais Sul, ao pé do Café do Tó e nós, eu, o zé, a gaby, a ana, a romy e o fernando tinhamos ido entrevistá-lo para um jornal que queríamos fazer depois de termos tido aulas de jornalismo com o Afonso Praça. Naquela altura eu era um sonhador invertebrado, só vinha ao lado de cá para as despesas do quotidiano e do corpo, o resto era tudo fervor na arte, nos artistas, no espirito boémio, na liberdade, na imprevisibilidade. Tinha aliás sido eu a sugerir a entrevista ao Sam, depois de ver uma outra entrevista que lhe tinha sido feita na televisão e em que ele, falava-se da pobreza, da injustiça, de um forma discreta, chorara. Além disso Sam tinha um Museu com estranhos objectos, com cadeiras e uma mesa gigantes, uma bosta de boi e uma cadeira que era um plano inclinado e que era a cadeira do poder. Sam estava também a escrever um livro, ainda não tinha titulo. No último dia deixei-lhe ficar um texto escrito na minha Princess, a máquina de escrever que herdara do meu pai, chama-se o texto "O Caracol". Esse texto seria decerto intraduzível para o meu linguarejar dos dias de hoje. Deveria ser uma elegia ao nomadismo, ao aventureiro espirito do artista, acho que falava em Gaughin (tinha lido recentemete Um gosto e Seis Vinténs de Somerset Maughan). A coisa passou por aí, ainda fui mantendo uma conversa regular com Sam, ele chegou aliás a assistir à minha estreia como colaborador do DN Jovem, foi no seu jornal que muitas vezes li este suplemento. O mais engraçado é que uns anos mais tarde, já ele tinha morrido, ao procurar entre os livros de um alfarrabista ali da Praça do Comércio encontro o seu livro, agora já com titulo: "Homenagem ao Caracol e outros Textos".

sexta-feira, novembro 07, 2003

na gran via...

aproveito a pausa da tarde no salao do livro teatral para escrever um texto sem acentos. o que nao quer dizer sem assentos. sobre os maleficios do tabaco pouco ou nada ha a dizer, somente que continuo a resistir a tua falta. fazes-me falta, papel amortalhado, fazes-me mais falta aqui do que ai. mas continuo em branco e o meu respirar agradece e retribui. a isabel medina e o francisco parreira ja quase nao conseguem aturar-me a neurose do fumador a desmamar-se, a esvair-se no proprio desmame, e eu penso mais uma vez nesta ideia de que eu nao deixo de, eu começo a... alias a proposito de santidade, a melhor historia nao e a minha, sim a do abel. estava ele um dia numa mesa como uma senhora de uma idade bastante avultada que fumava o seu cigarro, e ele diz-lhe: - Sabe. tambem fumava. deixei de o fazer... E ela derretendo-se em grossas fumaças. Começa a beber o cafe: - Tambem bebia cafe...deixei-me disso... A outra sem se preocupar, fumando e bebendo o seu cafe. Ele insistiu nos feitos da sua herocidade. santidade. -Tambem deixei de comer carne. E nao bebo. Raramente. - E sente-se bem? -Sim. Tenho aquelas lombalgias... -Sim? - Nas costas? - A meio das costas? - A meio das costas? Sim. A meio das costas. -Sao as asas a nascer..."

quinta-feira, novembro 06, 2003

Os Dois Corcundinhas em Lisboa, o Salão do Livro Teatral em Madrid

A primeira Delegação portuguesa ao Salão do Livro Teatral em Madrid amanhã mete-se à estrada. Isabel Medina, Nuno Nabais e Armando Nascimento Rosa ao volante. António Torrado, Abel Neves, Francisco Parreira e eu a darmos os bitaites tipicos dos penduras. Enquanto isso, para os que aqui ficam, os Dois Corcundinhas, pelo Teatro Mínimo é a proposta que aqui fica.

Os mitos custam mais a vencer...

por exemplo este impulso para o cigarro que me vem desta posição aqui, sentado diante do ecran branco. a escrita parece escrever-se mais no fumo cinzento, alveolado, do que na folha em branco. é um mito, mas faz um estardalhaço ao cair. a única verdade que me interessa é que escrever sempre foi restituir-me à vida e ao fumo do cigarro não concedo esse mesmo atributo. não o demonizo, não sou capaz de o pensar assim, mas de forma alguma lhe concedo o dom mitómano.

Mais um dia...

sem cigarros. hoje foi totalmente em branco. não houve cigarros para tomar o ódio nas mãos nem mãos disponíveis para odiar. lembro-me do primeiro cigarro que fumei. tinha nove anos. roubei o maço de ritz ao meu pai. fechei-me com o meu irmão pedro na garagem. agora vamos fumar um cigarro. -não quero essa porcaria... -tens de fumar. senão fazes queixinhas... estava a chover, ficámos ali, na garagem, mais um pouco. o tempo para eu fumar mais um cigarro. e obrigar o meu irmão a fumar um segundo cigarro. para não fazer queixinhas...

quarta-feira, novembro 05, 2003

Eu pensava que uma pessoa deixava de fumar...

para não morrer de morte previsivel. mas não é para isso. É apenas para se tentar viver um pouco melhor o imprevisível da vida. Mesmo que seja o imprevisível da vida que sobeja de uma prevista morte .

Instante de fúria

Anteontem quando saí das aulas fui até ao meu centro de saúde. Para se chegar lá tem de se atravessar o hospital júlio de matos de uma ponta à outra. Aquele ambiente, o estado calamitoso em que se encontram os meus bronquios nos últimos dias, aquela irritação perante aquele suícidio escrupuloso que é fumar todas as horas, todos os dias, todos os anos, fizeram com que num repente levasse as mãos ao bolso e arrancasse a embalagem de amsterdam e o atirasse violentamente para o ar, projectando-o no vazio da minha fúria. Eu sei, não é pc atirar coisas para o chão, os filtros e as mortalhas já foram direitos ao caixote do lixo, embora agora me pergunte se não deva apenas lamentar aqueles que foram para o caixote, não sei se os doentes do júlio de matos que são fumadores vão ter de capacidade de reconstituir o tortuoso do meu gesto. e a onçazinha de amsterdam sem as mortalhas e os filtros não sabe tão bem. digo isso por experiência própria claro. A minha história com o fumo tem quase trinta anos. Não sei se vou ultrapassar esta batalha. É claro que isto para os blogues não tem importância nenhuma. Nos blogues não há necessidade de espaço reservado para fumadores. Mesmo para os físicos, ou phisicos, esta existência virtual não terá só inconvenientes. Portanto se eu fumo ou se não fumo, aqui, não aquece nem arrefece. Mas agora, que há dois dias acordo para o dia e não me apresso a fingir um pequeno almoço para poder fumar um cigarro, a minha vida pelo menos, ao levantar tem outra esperança. Anteontem, depois daquele gesto furioso, umas horas depois, fui buscar um cigarro à mala da minha mulher. Fui ao quintal, dei três ou quatro fumaças, certifiquei-me que tinha ganho um novo ódio na minha vida. Fui para dentro e adormeci em paz. Ontem fumei um cigarro, era aí umas quatro horas. Também as mesmas cinco ou seis fumaças. Às dez e meia da noite, na Eterno Retorno, combinávamos a ida para o Salão do Livro Teatral em Madrid, o nervoso miudinho da preparação das coisas fez-me pedir um cigarro ao A. Torrado. Descobri outra faceta de mim: não só para os amores, também para os ódios, tenho de os ter ali, à mão de semear. O truque do Abel Neves está a funcionar perfeitamente: garrafa de litro de água ao meu lado, sempre que se me assola a ideia de fumar, cá vai nascente de água mineral natural. e só pelo brilho que me assola aos meus olhos por pensar que o ar que respiro vai ser de novo meu, vale a pena esta luta contra invisíveis, e pulguentos, demónios.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Ferro Rodrigues

Ferro Rodrigues faz hoje, talvez no epicentro da maior encruzilhada da sua vida política, 54 anos. não o conheço pessoalmente. no entanto, foi marcante para a adopção da minha novel condição de militante de um partido politico o seu exemplo de seriedade, de determinação, de noção de serviço público . de entrega apaixonada ao pensar com pragmatismo na introdução de princípios e práticas de uma maior justiça social num mundo marcado por uma sociedade de mercado onde formas selvagens do capitalismo e da exploração do homem pelo homem irrompem, cada vez mais despudoradamente, pela doutrina política das nossas democracias. O reconhecimento de que hoje muitos milhares de portugueses, muitos deles menos favorecidos social e economicamente, vivem hoje melhor pela influência directa da sua acção e da de Paulo Pedroso no Ministério da Solidariedade é para mim da natureza do categórico. E, na minha opinião, não há melhor forma de entender a acção política. Para além disso há todos aqueles aspectos que todos nós conhecemos e que marcam o momento conturbado da vida dos socialistas hoje em dia. FR deixou-se enredar numa teia de contradições que podem bem ser fatais para o desenvolvimento do seu projecto político. Não me deixo facilmente levar pela ideia da má performance mediática da imagem de FR. A partir do momento em que há um padrão de sucesso da intervenção mediática aquele que foge a esse padrão pode ter a mesma eficácia política, principalmente se ele for genuíno, autêntico e simples, como parece ser FR. Que consiga dobrar o cabo das tormentas , é o meu desejo sincero! [Já quanto ao mau desempenho comunicacional de FR, lamento-o, tanto mais que o atribuo a uma casmurice geracional muito em voga em anos passados de um célebre conflito entre forma e conteúdo, com a defesa acalorada da supermacia intelectual deste último. Passados tantos anos de actividade política e um ano e tal de liderança do maior projecto de oposição, continuar a ler discursos sem olhar as pessoas de frente quando com elas fala ( será preciso alguém dizer-lhe que na ocular do reporter de imagem estou eu, tu, nós?) é um tique desagradável e que coloca quem o escuta numa posição altamente desconfortável. Ora um dos principios da boa pragmática comunicacional, seja num aperto de mão na rua, num olhar num guichet de um serviço administrativo, ou mesmo num palanque político é o tentar deixar o outro numa posição mais confortável do que aquela em que o encontrámos. ]

domingo, novembro 02, 2003

A Poesia Vai Acabar

O poema terminará um segundo antes da marcha triunfal da poesia do mundo. Do estertor poético das coisas. [Mário Filipe Pires do Retorta e Cristina Fernandes da Janela Indiscreta uniram-se no projecto A Poesia Vai Acabar onde reconhecemos a presença de um expontâneo grupo de amantes da poesia que se vai encontrando por aqui, quer nos blogues, quer no rosto dos comentários. Tal como a iniciativa de Hermínio Monteiro da Assírio & Alvim, o projecto acaba por ser uma espécie de arca-de-noé do mundo poético de cada um dos editores desta colectânea. E o título é em si mesmo uma profecia, já que sabemos, o mundo sobreviverá a tudo menos ao fim da poesia no mundo.]

sábado, novembro 01, 2003

Hoje não há mundo em mim

acordei tarde, com um anda brincar comigo, 'ai, que me comove de alto a baixo, levanto-me de um salto, que saudades que eu tenho quando era a minha mãe que me acordava e eu ía ficando, ficando, a marinar entre sonhos e fantasias, um miúdo de três anos não compreende estas coisas, enfio-me o mais energicamente que posso nos legos, nos carros, na bola, acabo uma entrada longa, demasiado longa, há coisas assim, hoje é dia de todos os santos, ocorre-me o peditório do pão por deus da minha infância, andavamos com um saco de pano por todas as ruas de Mafra, o comércio desdobrava-se em imaginação para corresponder a esta magia, aqui um bolo de erva doce, além um suspiro, pastilhas, castanhas, nozes, pinhões, rebuçados com cromos enrolados, bilas, o saco de pano, do pão restolhava na sua prodigialidade, era uma autêntica sopa da pedra. e blogo também. navegando. no José Mário Silva encontro uma referência espectacular: BUBA. leio mais ao menos incrédulo diante daquele jorro de escrita dos oitenta e um anos do avô do Ivan Nunes , e penso, como ele, deus existirá.